Descolonizando Deus: Uma Sinfonia Espinosana
Na Ética de Spinoza, Deus não é o soberano transcendente das religiões coloniais, mas a própria substância infinita, a natureza naturante. Deleuze, em Spinoza: Filosofia Prática, nos ensina a ler esse Deus como plano de imanência, como potência de existir que se expressa em cada modo. Deus é a rede de conexões que nos compõe, a alegria que aumenta nossa potência de agir, a tristeza que nos adverte do que nos separa da plenitude.
Na Correspondência entre Espinosa e Oldenburg, vemos o filósofo resistindo à teologia do milagre e da intervenção divina caprichosa. Ele insiste: Deus age pelas leis necessárias de sua natureza. Não há privilégio, não há povo eleito. Aqui já reside um germe da descolonização: tirar Deus do trono do favoritismo divino que tantas vezes serviu para justificar conquistas e hierarquias.
Pão tirado da pedra: raça, sexo, sonho e política
Como nos lembra a obra coletiva Pão tirado de pedra, a teologia colonial foi usada para negar humanidade, espiritualidade e conexão com a natureza a corpos racializados, sexualizados, subalternizados. Um Deus patriarcal, branco e distante legitimou a extração até da alma. Descolonizar Deus é, então, recuperar a espiritualidade como prática de liberdade e conexão material. É ver o divino no corpo negro resistente, no sonho quilombola, no erotismo como potência não controlável. É buscar o “pão” — o sustento material e espiritual — mesmo nas condições mais pedregosas, lembrando que, para Spinoza, o corpo é primeiro modo da mente.
Salvamento: Leituras do naufrágio
Dionne Brand, em Salvamento, fala do naufrágio histórico da diáspora africana, dos corpos jogados ao mar pelo projeto ocidental capitalista e colonial. O “salvamento” não é um retorno a um paraíso perdido, mas a construção de uma balsa precária no presente, com os destroços do próprio desastre. Quantas vezes precisaremos ser salvos, por não aprendermos a vida e Deus como Spinoza?
Spinoza nos oferece uma bússola: conhecer as afecções que sofremos, distinguir as paixões tristes (o medo, o ódio, a ganância) que o capitalismo selvagem alimenta, das paixões alegres que fortalecem coletivamente. O Ocidente capitalista, em seu curto e devastador reinado de 200 anos, fez do mundo uma máquina de produzir tristeza: tristeza da natureza esgotada, da humanidade convertida em recurso, da espiritualidade transformada em mercadoria ou ópio. Naufragamos porque nos ensinaram um Deus separado do mundo, que legitima a pilhagem, e uma vida como competição pelo capital.
A Sinfonia da Descolonização
A descolonização de Deus e de nós mesmos é, portanto, um mesmo movimento:
Poético: Ver Deus como verbo e não como nome. Como a sinfonia incessante dos encontros entre corpos e ideias, a melodia das composições alegres que formam comunidades de resistência. A poesia está em perceber a centelha divina no musgo no asfalto rachado, no cuidado comunitário, no gozo não regulado.
Estético: É uma estética da relação, como propõe Édouard Glissant. Uma beleza que não está na pureza ou na posse, mas na capacidade de tecer, de compor com o diferente, de aumentar a potência comum. A beleza do conatus espinosano — o esforço para perseverar na existência — quando ele se torna coletivo e cria modos de vida não-capitalistas.
De Justiça Social: Se Deus é a rede da natureza (incluindo a humana), ofender uma parte é ofender o todo. A justiça social é uma necessidade geométrica, uma exigência do todo para manter sua integridade e potência. Combater a exploração é restaurar a capacidade de afetar e ser afetado, de forma alegre, para todos os modos da substância.
Nos salvar do Ocidente capitalista é, então, abandonar a paixão triste da acumulação infinita e abraçar a paixão alegre da composição infinita. É aprender, enfim, a lição espinosana: nossa salvação não virá de um céu transcendente nem da mão invisível do mercado. Virá da compreensão ativa das leis que nos regem, da construção cuidadosa de encontros que nos fortaleçam, e da coragem de imaginar e viver um Deus-Natureza-Sociedade como campo de liberdade e não de domínio.
Quantas vezes mais naufragaremos? A resposta está no que faremos com os destroços. Talvez, com os pedaços das velhas certezas coloniais e o fio da razão afetiva de Spinoza, possamos remar em direção a uma terra ainda não existente, mas cuja possibilidade já vibra, como uma nota necessária, na sinfonia imanente do real.
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