"A Casa Poética da Infância: Tecendo Saberes, Culturas e Futuros"
Fundamentos Filosóficos e Epistemológicos
Inspirado na "casa poética" de Marina Marcondes Machado, este plano concebe a educação infantil como um espaço-tempo de habitação sensível do mundo, onde crianças são "seres de linguagem, imaginação e encontro". Integra:
Ubuntu (Mungi Ngomane): "Eu sou porque nós somos" - a criança se constitui na rede de relações.
Pensamento Montessoriano (Simone Davies): Ambiente preparado, autonomia, períodos sensíveis.
As Cem Linguagens da Criança (Reggio Emilia): A criança como ser multimodal de expressão.
Complexidade (Edgar Morin): Educação como tecido de saberes indissociáveis.
Diferença (Deleuze): A criança como força criadora, produtora de singularidades.
Eixos Estruturantes do Plano
1. Eixo: A Criança como Pesquisadora Sensível
Laboratórios das 100 Linguagens: Ateliês permanentes de artes visuais, música, dança, teatro, luz e sombra, modelagem digital
Investigação Científica Poética: Observação de fenômenos naturais, experimentação com materiais não estruturados, registro através de múltiplos códigos
Filosofia com Pré-Socráticos: Perguntas sobre a natureza, os elementos, a vida e a morte em círculos de wonder (assombro)
2. Eixo: Autonomia e Responsabilidade Coletiva
Vida Prática Ampliada: Tarefas cotidianas (inspiradas no modelo japonês) integradas à matemática (Boler) e ecologia
Gestão Democrática da Sala: Assembleias semanais para decisões coletivas, mediação de conflitos
Projetos de Impacto Social: Hortas comunitárias, compostagem, cuidado com animais, trocas intergeracionais
3. Eixo: Empatia Radical e Convivência Planetária
Pedagogia da Empatia (modelo dinamarquês): Literacia emocional, reconhecimento de perspectivas diversas
Glissantianidade Pedagógica: Encontros com culturas locais e diaspóricas, relações rizomáticas, direito à opacidade
Simbiose como Paradigma: Biologia relacional, interdependência, cuidado como prática política
4. Eixo: Tecnologias como Extensões Poéticas
Inteligência Artificial Criativa: Ferramentas de IA como parceiras na criação de histórias, música, solução de problemas
Tecnologias Ancestrais: Tecelagem, cerâmica, construção natural junto com impressão 3D e programação básica

Crítica Digital Ética: Reflexão sobre algoritmos, privacidade, desinformação desde a infância
5. Eixo: Matemática como Linguagem do Universo
Matemática Boleriana: Jogos estratégicos, resolução de problemas reais, padrões na natureza e na cultura
Geometria Sensível: Formas na arquitetura, no corpo, nos cosmos
Estatística das Emoções: Gráficos de sentimentos, medição de impactos de ações coletivas
6. Eixo: Espiritualidade Laica e Existência Questionante
Contemplação Ativa: Momentos de silêncio, observação atenta, conexão com o natural
Mitologias como Psicogeografias: Narrativas de diferentes povos sobre origem, transformação, comunidade
Práticas de Presença: Respiração consciente, yoga infantil, atenção plena nas atividades cotidianas
7. Eixo: Preparação para os Desafios do Século XXI
Clima como Currículo: Educação climática prática, entendimento dos ecossistemas locais
Antifascismo na Primeira Infância: Cultivo da democracia radical, valorização da diversidade, crítica às hierarquias naturais
Justiça Social Concreta: Projetos de reconhecimento das desigualdades e ações transformadoras
Estrutura Organizacional
Ambiente Físico:
Casas-poéticas organizadas em estações de investigação
Pátios de risco calculado com elementos naturais
Espaços de convivência intercultural com elementos de diversas culturas
Jardins de simbiose com plantas nativas e animais não-humanos
Temporalidade:
Ritmos circadianos e sazonais como organizadores
Projetos de longa duração (2-3 meses) com investigações profundas
Momentos diários de comunidade e celebração
Documentação:
Portfólios multimodais (digitais e materiais)
Diários de bordo coletivos
Exposições de processos (não apenas produtos)
Formação de Educadores:
Grupos de estudo permanentes com os referenciais teóricos
Supervisão clínico-político-pedagógica
Residências em contextos culturais diversos
Avaliação como Processo Ético-Estético
Narrativas de desenvolvimento (não métricas)
Autoavaliação através de linguagens não-verbais
Avaliação coletiva do processo grupal
Foco na documentação como memória viva
Governança e Políticas Públicas
Conselhos de crianças com voz deliberativa
Parcerias com universidades, centros culturais, organizações sociais
Políticas de acesso universal com atenção às interseccionalidades
Formação de redes internacionais de intercâmbio de práticas
Princípios Éticos Finais:
Toda criança tem direito à complexidade
A educação é ato de esperança militante
O brincar é modo de conhecimento do mundo
A diferença é nutriente do coletivo
O futuro se constrói com as mãos no presente
"A casa poética da infância não tem paredes fixas. É tenda nômade, árvore habitada, barco em rio de linguagens. Nela, as crianças aprendem que transformar o mundo começa pelo cuidado com o minúsculo e pelo sonho do impossível."
Este plano é um organismo vivo, que deve se adaptar a cada contexto, ouvindo sempre as crianças como suas principais teóricas e práticas.
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