O ar cheira a pólvora e poeira de concreto desmoronado. Caracas, sob o rugido de caças F-35 e o estampido distante de artilharia, não é mais apenas uma cidade; transformou-se em um palco onde se repete o antigo ritual do caos que acompanha toda invasão, toda guerra dita “cirúrgica”. Como Ivan Bunin, em Dias Malditos, testemunhou o desmoronar febril do mundo russo na Revolução de 1917 – “tudo deslizando, caindo, desaparecendo” –, assim os venezuelanos veem a frágil normalidade se esfacelar. O caos não é apenas físico; é moral, social. A rede de confiança se rompe, o mercado negro floresce como cogumelo venenoso após a chuva, e rumores substituem a informação. É o mesmo sopro gélido que varreu Bagdá em 2003 e Aleppo em 2016, onde a “ordem” imposta pelas bombas gerou um monstro de mil faces: milícias, fome, fanatismos.
Mas, do seio desse caos, emerge o primeiro ingrediente da resistência: a adesão transcultural. Como narra Amanhã Talvez o Futuro, sobre as mulheres na Guerra Civil Espanhola, a causa justa atrai aqueles que nela veem um reflexo de suas próprias lutas. Às trincheiras de Madrid acorreram internacionalistas de todas as nacionalidades. Às colinas venezuelanas e aos bairros populares de Caracas começam a chegar, não mercenários, mas brigadistas de solidariedade: médicos cubanos aprofundando sua missão, jornalistas independentes arriscando tudo, veteranos das lutas palestinas que reconhecem no rosto venezuelano o mesmo olhar de desafio diante da máquina de guerra imperial. Eles não vêm por petróleo, mas por humanidade. Trazem consigo a experiência amarga de Gaza, a sabedoria da resistência curda, as táticas de comunicação de Syriza. Esta causa latino-americana, de repente, se globaliza, deslocando o conflito da narrativa simplista de “ditadura versus democracia” para a arena mais ampla da autodeterminação dos povos.
É aqui que o povo venezuelano, longe de ser uma massa passiva, revela seu segundo ingrediente: a capacidade de auto-organização radical. Como Wilfred G. Burchett documentou em Vietnã: A Guerrilha Vista por Dentro, a vitória não estava apenas nas armas, mas na rede inextricável de apoio popular, no comitê de aldeia que se reorganizava sob os bombardeios, na “logística do povo”. A Venezuela, com sua profunda tradição de conselhos comunais, comunas e poder popular, possui um tecido social pré-politisado único. Estes não são meros apêndices estatais; são a espinha dorsal da resistência cotidiana. Quando os bombardeios cortam a energia, são as brigadas técnicas das comunas que restauram a linha. Quando a comida escasseia, são os hortos urbanos coletivos que alimentam os bairros. Esta é a “guerrilha logística” do século XXI: descentralizada, resiliente, enraizada. Cada comuna torna-se uma fortaleza não de concreto, mas de coesão social, impossível de ser erradicada por um míssil.
Esta combinação – caos gerador, solidariedade internacionalista e auto-organização popular – forja uma estratégia invencível. A invasão norte-americana, como no Vietnã, pode ocupar o espaço aéreo e portos, mas não ocupa o coração das comunas. A guerra se transforma em um conflito de vontades e de tempo. As imagens de sofrimento, filtradas pela lente dos internacionalistas, inflamam a opinião pública global.
É quando entra o terceiro ator: a frente política interna dos EUA e a solidariedade global. Líderes como Bernie Sanders, com seu histórico de oposição a intervenções desastrosas, erguem a voz no Congresso. “Mais uma vez?”, bradam, evocando os fantasmas do Iraque e da Líbia. Suas vozes, amplificadas por movimentos como o Black Lives Matter, que veem o paralelo entre a militarização doméstica e a externa, criam uma cisão política profunda em Washington. Na Europa, governos de esquerda e movimentos sociais organizam boicotes, pressionam por sanções contra os invasores. A ONU torna-se um campo de batalha diplomática. O custo político da invasão, dentro dos próprios Estados Unidos, começa a subir em uma espiral insustentável.
A vitória venezuelana, portanto, não seria medida pela tomada de uma capital inimiga, mas pelo colapso da vontade invasora. Seria a repetição, em clave moderna, da epopeia vietnamita: tornar o país um pântano político e moral para o império. Cada dia de resistência organizada nas comunas, cada reportagem de um brigadista internacional, cada discurso de um Sanders no Senado, seria um dardo na hidra. O caos, inicialmente uma arma do forte, seria apropriado pelo fraco e transformado em cadinho de uma nova legitimidade. A Venezuela, no fim, não seria “salva” por ninguém de fora. Ela, como protagonista de sua própria história, catalisaria a energia do mundo que se opõe à guerra e, tecendo sua rede de resistência interna com os fios da solidariedade global, forçaria o gigante a recuar, exausto e derrotado não por uma bomba, mas por uma verdade simples e inquebrantável: que um povo organizado, apoiado pela consciência do mundo, é incapaz de ser governado contra sua vontade. O futuro, então, deixaria de ser um “talvez” para se tornar uma certeza semeada no solo devastado, mas fértil, do caos. Mais essa luta do povo venezuelano deve ser contra Ditadores Corruptos como Trump e Maduro e pela emancipação do povo venezuelano, suas crianças e suas famílias, o dinheiro do petróleo, assim como da Petrobras, Banco do Nordeste, dos Governos estaduais e municipais é do povo brasileiro. E não dos amigos dos REIS dito de Direita ou Esquerda, como fez com seu petróleo o povo Norueguês.
Nenhum comentário:
Postar um comentário