SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Todos los Seres Vivos (Pulitzer): Um Microscópio sobre Cultura, Educação e Conflito Científico.



Vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção, a obra Todos los Seres Vivos é uma narrativa profunda que transcende uma simples história familiar para se tornar uma lente poderosa através da qual podemos examinar a intrincada relação entre cultura, educação e as batalhas ideológicas travadas no campo da ciência. A história, centrada em uma família de imigrantes coreanos nos Estados Unidos, com uma protagonista adolescente aspirante a cientista, serve como um microcosmo perfeito para explorar como sociedades diferentes – e os indivíduos dentro delas – negociam, disputam e assimilam teorias científicas concorrentes. 

1. A Ciência como Campo de Batalha Cultural e Identitária 

A narrativa mostra que as teorias científicas raramente são recebidas em um vácuo cultural. Para a protagonista, filha de imigrantes, a ciência (especificamente a biologia) representa uma linguagem universal e um território neutro onde ela pode buscar pertencimento e excelência, fugindo das tensões da assimilação cultural. No entanto, ela rapidamente descobre que a própria prática científica está impregnada de valores culturais. 

  • Conflito de Autoridade: O embate entre o conhecimento científico "ocidental" (ensinado na escola americana) e o conhecimento tradicional ou as expectativas familiares (de origem coreana) é central. A teoria da evolução de Darwin, por exemplo, não é apenas um conjunto de fatos, mas um símbolo de um sistema de pensamento que pode colidir com narrativas culturais ou religiosas profundamente arraigadas. A forma como a protagonista e sua família negociam essa colisão – rejeitando, adaptando ou tentando harmonizar as visões – ilustra o processo pelo qual sociedades inteiras lidam com a imposição ou adoção de paradigmas científicos estrangeiros. 

  • A Ciência como Ponte e como Barreira: O domínio da linguagem e da metodologia científica torna-se, para a protagonista, uma ferramenta de mobilidade social e integração na sociedade anfitriã. Paralelamente, esse mesmo domínio pode criar um fosso de compreensão dentro de sua própria família, atuando como uma barreira cultural. Isso reflete processos históricos maiores, como a ocidentalização, onde a adoção da ciência moderna por uma sociedade não-ocidental muitas vezes vem acompanhada de tensões entre gerações e uma reavaliação forçada de saberes tradicionais. 

2. Educação: O Palco da Disputa e da Mediação 

O ambiente escolar é retratado como a arena principal onde essas disputas teóricas são encenadas e mediadas. 

  • Currículo como Construção Cultural: O que é ensinado (e o que é omitido) no currículo de biologia não é neutro. Reflete as prioridades, valores e visões de mundo da sociedade que o produz. A obra nos faz questionar: Como uma sociedade que valoriza o coletivo (como muitas sociedades asiáticas) ensinaria ecologia ou simbiose comparada a uma sociedade que enfatiza o individualismo e a competição (como a anglo-americana)? A história da protagonista na sala de aula ilumina como o sistema educativo é o mecanismo primário para disseminar e legitimar determinadas teorias científicas, ao mesmo tempo que marginaliza outras. 

  • O Professor como Agente Cultural: O professor de ciências não é apenas um transmissor de fatos, mas um tradutor cultural. A maneira como ele ou ela apresenta teorias controversas (evolução, genética, origem da vida) pode tanto amplificar quanto suavizar o choque com as crenças dos alunos vindos de diferentes contextos. A educação, portanto, não é apenas sobre aprender o que é ciência, mas como a ciência se relaciona com a identidade, a ética e a fé. 

3. Metáforas Biológicas para o Tecido Social 

título Todos los Seres Vivos não é acidental. A obra utiliza conceitos biológicos como metáforas estruturais para entender as sociedades humanas e suas dinâmicas. 

  • Adaptação vs. Assimilação: A luta da família imigrante para se adaptar a um novo ambiente ecoa os princípios darwinianos de adaptação e seleção natural. Quais traços culturais são preservados (como mutações benéficas) e quais são abandonados na luta pela sobrevivência social e econômica? A narrativa explora os custos emocionais e identitários dessa "seleção natural cultural". 

  • Simbiose e Competição: As relações entre os personagens, e por extensão entre os grupos culturais, podem ser lidas através das lentes do mutualismo, comensalismo ou competição. A história demonstra que a coexistência em uma sociedade plural (como os EUA) nem sempre é harmoniosa; frequentemente é uma relação tensa e negociada, assim como na natureza. As disputas por teorias científicas refletem, em microescala, essa competição por recursos intelectuais e legitimidade cultural. 

  • Ecossistema Social: A comunidade imigrante, a escola, a cidade – cada uma é um ecossistema com suas próprias regras, nichos e cadeias de influência. A introdução de uma nova "espécie" (uma teoria científica revolucionária, um novo grupo étnico) pode desestabilizar o equilíbrio, forçando ajustes em todo o sistema. 

Conclusão: Uma Lição sobre Humildade Epistêmica 

Por fim, Todos los Seres Vivos oferece uma poderosa lição sobre humildade epistêmica. Ao acompanhar a jornada da protagonista – que busca verdades universais na ciência enquanto navega pelas verdades particulares e dolorosas de sua vida familiar –, o leitor compreende que o conhecimento científico é construído e interpretado por seres humanos complexos, com histórias, traumas e culturas. 

A obra sugere que para compreender verdadeiramente como diferentes sociedades disputam teorias científicas, é necessário ir além dos manuais e dos artigos acadêmicos. É preciso olhar para as cozinhas onde as refeições são preparadas enquanto se discute genética, para as mesas de jantar onde a evolução é debatida ao lado das orações, e para os corredores das escolas onde adolescentes tentam conciliar mundos aparentemente inconciliáveis. A verdadeira disputa científica nunca ocorre apenas em laboratórios ou periódicos; ela ecoa nos espaços mais íntimos da vida cotidiana, moldando e sendo moldada pela cultura e pela educação que a transmitem. Todos los Seres Vivos capta esse eco com uma rara sensibilidade, tornando-se uma ferramenta indispensável para pensar sobre os desafios de um mundo onde a ciência é, ao mesmo tempo, uma linguagem universal e um campo de batalha cultural. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário