Há um abismo entre o mundo dos números e o mundo dos corpos famintos. Enquanto trilhões digitais dançam no ciberespaço financeiro — um capital sem lastro, sem suor, sem terra —, bilhões de seres humanos ainda lutam pelo essencial: pão, água, dignidade. As teorias econômicas, tantas vezes, tornaram-se elegantes álgebras da alienação, esquecendo que a economia deveria ser, antes de tudo, o cuidado da casa comum.
Schumpeter nos falou da “destruição criativa”, o furacão da inovação que varre o velho para dar lugar ao novo. Mas e quando essa destruição atinge não apenas máquinas obsoletas, mas vidas humanas? Quando a inovação tecnológica serve para acumular riqueza em poucas mãos, enquanto soluções sociais básicas — saneamento, alimentação, habitação digna — permanecem como problemas arcaicos? A inovação tem limites éticos: não pode ser um fetiche quando há fome.
Keynes já alertava: o mercado, sozinho, não garante o pleno emprego nem o bem-estar social. É preciso a mão visível do Estado, orientada pelo interesse coletivo. Amartya Sen ampliou o horizonte: desenvolvimento não é apenas crescimento do PIB, é expansão das liberdades reais das pessoas — saúde, educação, capacidade de escolha. Stiglitz desnudou a hipocrisia da globalização assimétrica, que enriquece corporações e empobrece nações. Piketty escancarou a matemática perversa: quando o rendimento do capital supera o crescimento econômico, a desigualdade se torna inevitável, herdada, estrutural.
E os bancos? Ah, os bancos! A Escola de Zurique, entre outras correntes pós-crise de 2008, tenta resgatar sua função social primordial: não cassinos de derivativos, mas instrumentos de financiamento de longo prazo, de projetos que constroem sociedades, não apenas dividendos. Onde estão os bancos que financiam a transição ecológica, a agricultura regenerativa, as cooperativas populares?
A história nos deu espelhos terríveis: a fome na Rússia stalinista e na China maoísta, onde projetos “socialistas” viraram máquinas de opressão e miséria, beneficiando nomenklaturas vorazes. O Leste Europeu sufocado pela burocracia cinzenta. A América Latina, tantas vezes refém do populismo de direita ou de esquerda, que promete atalhos e entrega apenas a perpetuação das elites — sejam oligarquias tradicionais ou novas boliburguesias. A globalização prometeu convergência, mas aprofundou o fosso. O neoliberalismo pregou liberdade, mas forjou novas cadeias.
E os bilionários filantropos? Suas doações, ainda que úteis, não substituem justiça estrutural. É a diferença entre esmola e direito. Entre caridade e equidade.
Então, qual o caminho?
Não há fórmulas mágicas, mas há direções, exigentes e complexas:
Reenraizamento na economia real: Taxar severamente transações financeiras especulativas. Criar moedas locais e sistemas de crédito lastreados em produção comunitária. Reduzir o poder do sistema de juros compostos, essa usura moderna que concentra riqueza exponencialmente.
Inovação com direção social: Direcionar pesquisa e desenvolvimento (P&D) para necessidades essenciais — medicina preventiva, agroecologia, energias renováveis descentralizadas. Inovação social como prioridade política.
Democracia radical e participativa: Não apenas no voto, mas na economia. Cooperativas, empresas autogestionárias, orçamentos participativos que decidam investimentos públicos. Combater a corrupção com transparência radical e controle social.
Transição Ecológica Justa: Superar a pobreza dentro dos limites planetários exige abandonar o dogma do crescimento infinito. Adotar modelos de prosperidade sem crescimento material — economia circular, bem-estar baseado em tempo livre, comunidade e saúde ecológica, não em consumo.
Autodeterminação dos povos: Respeitar sabedorias locais, economias indígenas, modos de vida tradicionais que já sabem viver em equilíbrio. Apoiar, não impor.
A superação da pobreza não virá de salvadores iluminados — nem bilionários, nem ditadores —, mas da auto-organização popular, do fortalecimento de tecidos sociais baseados na confiança e na reciprocidade. É um caminho de coragem para enfrentar os poderes constituídos. De sabedoria para aprender com os erros do socialismo real e do capitalismo selvagem. De amor político, aquele que Hannah Arendt via como a força para cuidar do mundo comum.
A verdadeira Liberdade, Igualdade e Fraternidade não foram apenas derrotadas por armas; foram sequestradas pelo cálculo egoísta, pela gança disfarçada de racionalidade econômica. Recuperá-las exige mais que revolta: exige uma revolução cotidiana, paciente e obstinada, que coloque a vida — humana e não-humana — no centro de todas as equações.
É possível. Há uma esperança teimosa, brotando nas fissuras do sistema: nas comunidades que revitalizam rios, nas mulheres que criam bancos de sementes, nos jovens que recusam o consumismo vazio. Eles estão reescrevendo a economia, não com fórmulas abstratas, mas com as mãos na terra e no futuro. Essa é a poesia concreta da transformação. Gaia vence os que acham que são Deuses do capital, da corrupção e das brutais violências como guerras e outras.
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