SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

PENSAR É MINHA LUTA E ARTE ! por Egidio Guerra.





Há um fantasma que dança sobre os escombros da Espanha. Ele sussurra, na voz tardia do  Presidente Franklin Roosevelt , a confissão fria de um erro histórico: o abandono. Em 1939, o mundo virou o rosto e deixou morrer uma centelha. A luta pela República na Guerra Espanhola. E esse fantasma agora sopra a poeira de Mariupol, varre os escombros de Gaza, envenena os ares em tantas fronteiras silenciadas. A pergunta não é mais se haverá um próximo, mas quem nós deixaremos ser o próximo?

Pensar, nesta hora, não é refúgio. É trincheira. É a revolta primeira e última.

Entre o ativismo que arde e o distanciamento que paralisa, se ergue um abismo de responsabilidade. Não podemos cometer, outra vez, o pecado de Espanha. E vejo, com clareza que corta a alma, que há um país cujo destino é ser anteparo. Um país-continente, de pulsação tropical e memória ferida pela própria ditadura: o Brasil. Não por uma missão divina, mas por uma geografia histórica implacável. Ele pode, deve, ser o eixo de um contra-movimento planetário. Unir o Sul Global ferido ao Norte em crise; entrelaçar a resistência latino-americana aos democratas estadunidenses esvaziados de convicção; ser ponte com uma Europa titubeante e com a África e a Ásia que já sangram. Parar o fascismo não é metafora. É projeto de engenharia política global, e a fundação deve ser assentada aqui.

Porque a democracia que herdamos é um edifício que oscila perigosamente, um sistema que sobrevive aquém de seu próprio sonho. Fracassou em sua promessa. E vemos, horrorizados, como processos democráticos, à esquerda e à direita, se enrijessem em mecanismos autoritários, em máquinas de moer verdades. Tudo está sob cerco: a justiça, a palavra, o futuro. Os novos capitães do mato não usam chicote de couro, mas algoritmos e portfólios de bilhões. São tecnocratas a serviço de oligarquias, ditadores de poltrona estofada, fascistas de terno fino que compram nações como ações.

A desigualdade é um tumor que metastatiza. A violência, o idioma comum. A crise climática bate à porta com fúria de séculos de negligência. É fácil, tão fácil, se afogar num desespero indignado e imóvel. E nesse pântano, os extremos crescem – são eles que lucram com nossa paralisia, com a polarização que nos cega.

Por isso, anuncio: a Terceira Guerra já começou. Não é uma guerra apenas de tanques, mas de narrativas. Uma guerra pelo direito de existir, de sentir, de significar. E nesta guerra, meu primeiro disparo foi uma palavra, escrita no dia em que Trump se ergueu como um arremedo de poder. Escrever, hoje, é um ato de sabotagem. Deixar um registro é um impulso vital, um grito contra o apagamento. https://habitanteterradasabedoria.blogspot.com/2016/11/a-licao-mais-dura-de-apreender.html

Vida longa aos rebeldes, aos escritores, aos poetas! Que a arte colida com a política até faíscar! É hora de interrogar a vida intelectual até expor suas covardias e sua força. É hora de viver os ideais com o rosto descoberto, não apenas com o like anônimo. Ativismo com suor, com olho no olho, com corpo presente.

Os palcos onde a História agora marca encontro são nítidos: as eleições de 2026 no Brasil e o jogo final da democracia norte-americana. São nossos campos de batalha iminentes. É hora do luto, sim, mas também do questionamento feroz e do protesto intransigente.

Temos o trabalho vital de moldar a História à medida que ela acontece. Oferecer ao mundo, não o que nos sobra, mas o que temos de mais precioso: beleza inquieta, amor combativo, uma política transformadora feita para o comum.

Não é fácil ouvir as perguntas que nosso tempo nos grita. É mais cômodo abafar o som com o ruído do cotidiano. Mas essas perguntas tornaram-se urgentes. Insistem. Sangram.

Pensar, diante disso, não é contemplação.

Pensar é minha luta.
E esta luta começa com um não. Um não esculpido em palavras, alimentado por memória e lançado como um desafio ao futuro.









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