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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Antropoceno, Biodiversidade e a Sexta Extinção em Massa: Uma Síntese Crítica das Evidências Científicas e suas Implicações Planetárias por Egidio Guerra.




O conceito de Antropoceno, embora ainda em debate estratigráfico formal, emergiu como o paradigma central para compreender a época geológica atual, na qual as atividades humanas se tornaram a força dominante e transformadora do Sistema Terra (Crutzen & Stoermer, 2000). Este ensaio acadêmico tem como objetivo sintetizar as evidências científicas mais recentes que articulam o Antropoceno com a crise de biodiversidade e o que muitos cientistas denominam a sexta extinção em massa, processo dramático e "não natural" detalhado por Elizabeth Kolbert (2014) e analisado criticamente por autores como Pinheiro (2022) e Calaça (2023). Fundamentando-se em uma revisão interdisciplinar, argumenta-se que a ação humana antropocênica está desencadeando um evento de extinção de magnitude comparável aos cinco grandes eventos anteriores da história do planeta, porém com uma velocidade e dinâmica inéditas, cujas consequências para a vida na Terra são profundas e potencialmente irreversíveis.

1. Definição e Marcadores do Antropoceno: A Humanidade como Força Geológica

A definição do Antropoceno vai além de uma mera constatação da influência humana. Como propõem Lewis e Maslin (2015), trata-se de identificar um limite estratigráfico global (GSSP) que marque inequivocamente o início desta nova época. Dois candidatos principais são destacados: o Pico de Orbe (década de 1610), marcado por um mínimo de CO₂ atmosférico e pela troca de espécies entre o Velho e o Novo Mundo (a "Grande Troca Colombiana"), e a "Grande Aceleração" (a partir de 1950), evidenciada pelo pico de radionuclídeos dos testes nucleares e pelo aumento exponencial de indicadores socioeconômicos (plástico, concreto, emissões de gases de efeito estufa). Esta última, pós-Segunda Guerra Mundial, é a mais amplamente aceita por capturar a escala planetária e sincrônica do impacto humano, alinhando-se com a proposta de um "Antropoceno Recente" (Zalasiewicz et al., 2019).

Freitas (2022, 2023) enfatiza que a essência do Antropoceno reside na hiperconexão e na aceleração dos processos. O sistema econômico-tecnológico globalizado atua como um mecanismo de propagação rápida de impactos, homogeneizando ecossistemas e distribuindo espécies invasoras, patógenos e poluentes de forma planetária. Nesse contexto, o modelo de desenvolvimento hegemônico baseado no extrativismo e no crescimento infinito é identificado como a causa proximal das transformações em curso.

2. A Sexta Extinção em Massa: Evidências e Dinâmicas "Não Naturais"

Kolbert (2014), em sua obra seminal, documenta com rigor jornalístico-científico como espécies de anfíbios, corais, mamíferos e aves estão desaparecendo a taxas centenas a milhares de vezes superiores às taxas de extinção de fundo (a taxa natural de desaparecimento entre os eventos de massa). Ela demonstra que a extinção atual não é fruto de um asteroide ou de mudanças geológicas lentas, mas de múltiplas pressões humanas interconectadas: destruição e fragmentação de habitats, mudanças climáticas antropogênicas, poluição química, superexploração de recursos e introdução de espécies invasoras.

Esta análise é corroborada por dados quantitativos alarmantes. A Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, 2019) estima que um milhão de espécies estão em risco de extinção nas próximas décadas. Estudos como os de Ceballos, Ehrlich e Dirzo (2017) confirmam que as populações de vertebrados diminuíram em média 68% desde 1970 (Living Planet Report, 2020), e que o fenômeno é uma defaunação em massa, um esvaziamento dos ecossistemas que precede e precipita as extinções formais. No Brasil, epicentro global da biodiversidade, pesquisadores como Carlos Joly (BIOTA-FAPESP) e Mario Ribeiro de Moura (Mapa de Risco de Anfíbios) têm documentado como o desmatamento, as mudanças climáticas e as doenças emergentes pressionam espécies endêmicas da Mata Atlântica e do Cerrado em direção ao limiar da extinção.

3. Mecanismos de Acoplamento: Como o Antropoceno Gera Extinção

A relação entre Antropoceno e a sexta extinção não é linear, mas simétrica e sinérgica. Calaça (2023) argumenta que vivemos uma "dizimação contemplada", um processo no qual a ciência documenta, mas as estruturas socioeconômicas perpetuam a perda. Os mecanismos de acoplamento são múltiplos:

  • Mudanças Climáticas Antropogênicas: Como destacado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o aquecimento global altera regimes de temperatura e precipitação, deslocando nichos ecológicos mais rápido do que muitas espécies podem migrar ou se adaptar. A acidificação dos oceanos, causada pela absorção de CO₂, dissolve os esqueletos de corais e moluscos, ameaçando ecossistemas marinhos inteiros.

  • Homogeneização Biótica: O comércio global e a destruição de habitats naturais promovem a expansão de um pequeno grupo de espécies "generalistas" (humanos, gado, ratos, culturas agrícolas) em detrimento de milhares de espécies "especialistas" e endêmicas, levando a uma pobreza biológica global (McKinney & Lockwood, 1999).

  • Disrupção de Ciclos Biogeoquímicos: A fixação industrial de nitrogênio e a liberação maciça de fósforo alteram radicalmente a química dos solos e das águas, criando zonas mortas em oceanos e favorecendo espécies tolerantes à poluição.

Pinheiro (2022), ao dialogar com Kolbert, ressalta que a singularidade do evento atual está na sua consciência. Pela primeira vez, uma força geológica (a humanidade) possui o conhecimento científico de seus atos, mas enfrenta enormes barreiras políticas e econômicas para mudar seu curso.

4. Consequências para a Vida na Terra e na Terra

As implicações da sexta extinção vão muito além da perda de espécies carismáticas. Ela representa uma erosão da resiliência dos ecossistemas. A biodiversidade é a base dos serviços ecossistêmicos que sustentam a sociedade humana: polinização de culturas, regulação do clima, purificação da água, fertilidade do solo e ciclagem de nutrientes (Díaz et al., 2019). A simplificação das redes ecológicas torna os sistemas mais vulneráveis a colapsos abruptos, como pandemias (a perda de habitat aproxima humanos de patógenos silvestres) e falhas na produção de alimentos.

Em última análise, como alertam os cientistas do sistema Terra, incluindo Johan Rockström e Will Steffen, a perda acelerada de biodiversidade é um dos Nove Limites Planetários que foram transgredidos, ameaçando a estabilidade do Holoceno – as condições ambientais estáveis que permitiram o florescimento da civilização humana. O Antropoceno, portanto, não é apenas uma época de dominação humana, mas também de risco sistêmico autoinfligido.




Conclusão

A convergência das evidências das geociências, ecologia, biologia da conservação e ciências sociais deixa pouca margem para dúvida: estamos vivendo no Antropoceno e desencadeando a sexta extinção em massa. O trabalho de Elizabeth Kolbert, analisado e ampliado por pesquisadores brasileiros e internacionais, fornece um quadro claro e aterrador desta realidade. A crise da biodiversidade não é um evento futuro ou colateral; é um sintoma central da disjunção entre a economia globalizada e os limites biofísicos do planeta.

Superar este desafio exige mais do que ações de conservação pontuais. Exige, como propõem Ferrereira de Freitas e outros pensadores do Antropoceno Crítico, uma reavaliação profunda dos modelos de desenvolvimento, do relacionamento entre sociedade e natureza, e do próprio paradigma do progresso. Entender a teia de relações entre Antropoceno, biodiversidade e extinção é o primeiro passo indispensável para forjar uma ética e uma governança capazes de orientar a ação humana, não como força destrutiva, mas como agente de uma possível gestão regenerativa do Sistema Terra, em um futuro que ainda está por ser decidido.


Referências (Base do Texto):

  • Ceballos, G., Ehrlich, P. R., & Dirzo, R. (2017). Biological annihilation via the ongoing sixth mass extinction signaled by vertebrate population losses and declines. Proceedings of the National Academy of Sciences.

  • Crutzen, P. J., & Stoermer, E. F. (2000). The "Anthropocene". IGBP Newsletter, 41.

  • Díaz, S., et al. (2019). Summary for policymakers of the global assessment report on biodiversity and ecosystem services of IPBES.

  • Freitas, D. F. (2022, 2023). [Artigos da autora sobre Antropoceno e crise ecológica].

  • IPBES (2019). Global Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services.

  • IPCC (2021-2023). Sixth Assessment Report.

  • Kolbert, E. (2014). A Sexta Extinção: Uma História Não Natural.

  • Lewis, S. L., & Maslin, M. A. (2015). Defining the Anthropocene. Nature, 519.

  • Pinheiro, M. (2022). [Análises e comentários sobre o trabalho de Kolbert no contexto brasileiro].

  • Rockström, J., et al. (2009). A safe operating space for humanity. Nature.

  • Steffen, W., et al. (2015). The trajectory of the Anthropocene: The Great Acceleration. The Anthropocene Review.

  • WWF. (2020). Living Planet Report.

  • Zalasiewicz, J., et al. (2019). The Anthropocene as a Geological Time Unit.

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