SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ENTRE INSENSÍVEIS: O LABIRINTO DA JUSTIÇA NO SÉCULO XXI




GÊNERO:
 Documentário/Roteiro Experimental

FORMATO: Tela dividida, imagens de arquivo, entrevistas íntimas, animações de dados, reconstituições oníricas.

VOZ NARRADORA: Uma voz coletiva, fragmentada, que alterna entre trechos de diários de presos, relatórios oficiais, discursos de ativistas e poemas.


CENA 1 - ABERTURA: O ESPETÁCULO DO CASTIGO

Tela dividida em quatro.

QUADRANTE 1: Iluminuras medievais de suplícios públicos. O corpo do condenado sendo esquartejado.
QUADRANTE 2: Imagens em preto e branco da arquitetura imponente do Panóptico, desenhos de Jeremy Bentham.
QUADRANTE 3: Time-lapse noturno de um presídio moderno norte-americano, com milhares de janelas iluminadas, parecendo uma fábrica.
QUADRANTE 4: Close no rosto de um homem encarcerado, olhando fixamente para a câmera.

NARRADOR (V.O.) - trecho de "Vigiar e Punir", de Michel Foucault: “O corpo supliciado, eliminado, o corpo aprisionado, corrigido, domesticado. A passagem do castigo espetacular para a punição discreta, mas onipresente. A sociedade disciplinar não acabou. Apenas se metamorfoseou.”

A tampa de uma cela de solitária bate com um som metálico que ecoa. Silêncio.


CENA 2 - A FÁBRICA GLOBAL: NAÇÕES DE ENCARCERAMENTO

Sequência rápida de manchetes e dados animados.

MANCHETE 1: "EUA têm 25% da população carcerária mundial, com apenas 5% da população global."
MANCHETE 2: "Brasil: terceira maior população carcerária do mundo. Superlotação passa de 200%."

VOZ DE BAZ DREISINGER (V.O.) - do livro "Nações de Encarceração": “Não é um fenômeno americano. É uma pandemia global. Da Noruega a Ruanda, da Tailândia ao Brasil, o encarceramento em massa se tornou uma resposta padrão para conflitos sociais, pobreza e trauma histórico. Exportamos o modelo, e cada nação o adapta à sua própria patologia.”

Imagens de prisões ao redor do mundo: containers metálicos na África do Sul, barracões superlotados na América Central, torres de concreto na Rússia.


CENA 3 - O MONSTRO ECONÔMICO: CALIFORNIA GULAG

Mapa da Califórnia se transforma em um diagrama. Animações mostram fluxos de dinheiro.

VOZ DE RUTH WILSON GILMORE (V.O.) - do livro "California Gulag": *“O ‘Gulag’ não é um campo de extermínio. É um complexo geográfico, econômico e político. São prisões construídas em regiões rurais empobrecidas, prometendo empregos. É a terceirização da segurança. É a retirada do Estado do bem-estar social e seu redirecionamento para o complexo industrial carcerário. A população negra e latina é o combustível.”

Imagens de protestos: "Schools Not Prisons", "Invest in Communities". Depoimento de uma mãe cujo filho foi preso por posse de drogas, enquanto a fábrica de prisões na cidade vizinha anuncia novas vagas.


CENA 4 - A PSIQUIATRIA NO LABIRINTO: ENTRE A CURA E O CONTROLE

Ambiente frio, clínico. Reconstituição estilizada.

CENA 4A: Um psiquiatra forense avalia um réu. Sua voz é calma, seus olhos, analíticos.
VOZ DO PSIQUIATRA (inspirada em "O Nazista e o Psiquiatra"): “Minha tarefa: ele é sádico, psicopata ou um soldado que obedeceu a ordens? Onde termina a sanidade e começa a maldade? Nuremberg colocou essa questão no colo da psiquiatria. Nunca mais a largamos.”

Fotos de arquivo de Hermann Göring sendo avaliado. Imagens de tribunais contemporâneos.

CENA 4B: A Dra. Gwen Adshead, psiquiatra forense, em seu consultório na Inglaterra. Ela fala diretamente para a câmera.
DRA. GWEN ADSHEAD (autora de "O Diabo que Você Conhece"): “As pessoas querem monstros. Querem uma categoria separada. ‘Serial Killers: Anatomia do Mal’... o título vende. Mas minha experiência em Broadmoor [hospital de segurança máxima] me mostrou que a crueldade humana raramente surge do vácuo. Ela é tecida a partir de trauma, desespero, humilhação e, às vezes, de uma escolha terrível e consciente. Nossa obrigação é discernir, mesmo quando é repugnante. E perguntar: o sistema que criamos para punir reduz ou cultiva essa crueldade?”


CENA 5 - AS VOZES DO LABIRINTO

Três telas lado a lado. Três monólogos simultâneos.

TELA DA ESQUERDA - O PRESO (Voz sobre imagens de seu cotidiano na cela): “Aqui dentro, você vira um número. E um animal. Eles tiram sua decisão, sua rotina, sua dignidade. A violência? É o ar que a gente respira. Você luta para não esquecer quem era do lado de fora. Às vezes, falha.”

TELA CENTRAL - A FAMÍLIA (Mãe mostrando fotos): “Ele errou. Eu sei. Mas o castigo é meu também. A visita humilhante, o dinheiro do telefone, a vergonha. Meu neto pergunta onde o pai tá. Eu digo que tá longe, trabalhando. Mas ele vai descobrir. E vai carregar esse estigma.”

TELA DA DIREITA - A VÍTIMA (Rosto em close, parado): “Justiça? O que é justiça? Ele trancado pra sempre não me traz paz. Só me dá a certeza de que há mais ódio no mundo. Às vezes, sonho que encontro com ele. Não para gritar. Para perguntar ‘por quê?’. O ‘porquê’ é a minha prisão.”

As telas se fundem em uma imagem abstrata de dor.


CENA 6 - OS EXTREMOS: DO INFERNO AO (POSSÍVEL) HUMANO

Contraste brutal no ritmo e na fotografia.

CENA 6A - O INFERNO: Imagens clandestinas (ou reconstituições) de presídios como o de Pedrinhas (BR), ou o sistema de jails em Rikers Island (EUA). Violência explícita, superlotação desumana, esgoto a céu aberto. A câmera treme. É o caos como política de Estado.

CENA 6B - A POSSIBILIDADE: Prisão de Halden, Noruega. Luz natural, celas com cozinha e banheiro privativo, oficinas de carpintaria, estúdios de música, floresta ao redor. Guardas e presos comem juntos.
GUARDA DE HALDEN: “Nosso trabalho não é vigiar. É supervisionar uma sentença. A pena é a perda da liberdade. Não a perda da humanidade. Se você tratar alguém como um animal, ele agirá como um. Se tratar como um ser humano com potencial, você tem uma chance.”
Um preso, perto da soltura, mostra seu certificado de curso técnico. Seus olhos têm projeto de futuro.


CENA 7 - ENTRE INSENSÍVEIS: A ENCRUZILHADA DO SÉCULO

A narradora, uma pesquisadora negra, caminha por um corredor de arquivos com milhares de pastas. Ela para e fala para a câmera.

NARRADORA: “Foucault diagnosticou a doença: a sociedade que produz delinquentes para controlá-los. Dreisinger e Gilmore mapearam o tumor metastático na economia e na geografia. Os psiquiatras forenses nos forçam a encarar o abismo da mente humana – do monstro ao traumatizado. As vozes das celas, das famílias e das vítimas são o coro de dor que ecoa nesse labirinto.”

Ela abre duas portas luminosas no fundo do corredor.

PORTA 1 (título: INSENSIBILIDADE): Leis cada vez mais duras, muros mais altos, terceirização de prisões, discurso de ódio, lucro com o sofrimento. É a linha de produção da desumanização.
PORTA 2 (título: JUSTIÇA RESTAURATIVA): Círculos de conversa entre vítima e ofensor, reparação em vez de vingança, foco na comunidade ferida, reinserção como objetivo. É o caminho da responsabilização e da cura possível.

A câmera oscila entre as duas portas, refletida na íris da narradora.

NARRADORA (final): “O século XXI nos colocou nesta encruzilada. Continuaremos a construir gulags high-tech, alimentados por nosso medo e nossa indiferença? Ou teremos a coragem de desmontar a fábrica e imaginar uma justiça que, sem ser ingênua, recuse a insensibilidade como método?”

A imagem final é a mesma do início: o close no rosto do homem encarcerado. Desta vez, ele lentamente desvia o olhar da câmera e abre um livro. Um pequeno gesto de autonomia. A tela escurece.

TELA PRETA.

LEGENDA FINAL:
“Os Estados Unidos têm a maior taxa de encarceramento do mundo: 629 presos por 100.000 habitantes. A Noruega tem 57. Mais de 11 milhões de pessoas estão presas em todo o planeta. Este não é um roteiro sobre um sistema. É um espelho.”

FIM





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