SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Inovar as políticas públicas com sensibilidade e sabedoria!




O encarceramento em massa não é um fenômeno isolado. Ele é um sintoma orgânico da mesma patologia que produz a epidemia de overdoses por opioides — que matou mais de 80.000 pessoas apenas nos EUA em 2022 —, a corrupção sistêmica que desvia trilhões de dólares anualmente do bem comum, e a crise climática que avança enquanto líderes mundiais adiam ações concretas. Estes não são “problemas” separados, catalogáveis em pastas ministeriais distintas. São expressões do vazio acelerado de uma civilização em colapso ontológico, que trocou o significado pela posse, a comunidade pelo consumo, e o futuro pelo lucro trimestral.

Nossas lentes de avaliação de políticas públicas estão irremediavelmente obsoletas. São míopes porque recusam-se a ver as interconexões: como a Guerra às Drogas, iniciada por Nixon em 1971 como instrumento de controle político e racial, alimentou simultaneamente o encarceramento em massa, cartéis violentos, a militarização policial e a indústria farmacêutica que depois criou a crise dos opioides. São tristes porque, em última análise, servem para justificar e gerir a desigualdade, não para erradicá-la. Quando um relatório econômico celebra um “crescimento do PIB” enquanto o índice de suicídios aumenta e os rios são envenenados, temos a medida exata desta insanidade métrica.

A complexidade destes desafios é caótica e não-linear. O efeito borboleta da governança moderna significa que um subsídio a combustíveis fósseis no Texas agrava secas no Sahel, levando a migrações em massa que alimentam discursos xenófobos na Europa, fortalecendo políticos autoritários que desmantelam proteções ambientais. É um circuito fechado de destruição. As caixinhas analíticas — “problema de segurança pública”, “questão ambiental”, “crise de saúde mental” — já estouraram. Estamos inundados pelas consequências de um modelo falido.

A Única Saída: A Reinvenção Radical das Políticas Públicas como Projeto Civilizatório

Não se trata de reformar, mas de reimaginar. O único caminho viável é uma inovação política tão ousada quanto as crises que enfrentamos, com o objetivo explícito de forjar uma nova civilização: uma Terra da Sabedoria. Este não é um termo utópico, mas um desenho de engenharia social onde:

  1. A Alegria e a Realização Humanas são a principal métrica de progresso. Seguindo exemplos como a Nova Zelândia, que criou um “Orçamento do Bem-Estar” priorizando saúde mental e redução da pobreza infantil sobre o PIB, e Bhutan, com seu Índice de Felicidade Nacional Bruta. Políticas públicas devem ser julgadas por: elas aumentam o senso de propósito, a conexão social e a possibilidade de florescimento das pessoas?

  2. A Natureza é Sujeito de Direitos, não recurso. Inspirado na Equador, que inseriu os Direitos da Natureza (Pacha Mama) em sua Constituição em 2008, e na iniciativa do Rio Whanganui na Nova Zelândia, reconhecido como entidade viva com personalidade jurídica. A política econômica deve ser reformulada como um ramo da ecologia.

  3. O Amor (no sentido de Ágape, compaixão e cuidado coletivo) e a Saúde são infraestruturas públicas primárias. Implantando um modelo de “Prescrição Social”, como no Reino Unido, onde médicos podem “receitar” aulas de arte, voluntariado ou atividades comunitárias, reconhecendo que a cura vai além do remédio. Significa desmercantilizar o cuidado.

  4. A Educação é para a Autonomia e a Cidadania Planetária. Superando o modelo fabril que produz mão de obra dócil, rumo a um estilo inspirado na Finlândia, com foco em pensamento crítico, inteligência emocional, cooperação e ecocidadania, capacitando cada indivíduo a ser um arquiteto da sociedade.

  5. A Cidadania é Ativa, Deliberativa e Direta. Utilizando inovações como Orçamentos Participativos (originados em Porto Alegre, Brasil), Assembleias de Cidadãos por sorteio (como as que trataram do aborto na Irlanda e da crise climática na França), para quebrar o monopólio da política pelos interesses privados.

Por que esta é a Única Arma Eficaz:

Este projeto não é “suave”. É a única ofensiva real contra as forças que citamos:

  • Contra o Capital Predatório: Uma população realizada, saudável e educada é menos consumista, mais exigente e imune à lógica do “compre para preencher o vazio”. Desarma a máquina de produção de desejo artificial.

  • Contra as Prisões: Ao atacar as raízes — trauma, pobreza educacional, falta de oportunidade — a fonte do “crime” seca. A justiça restaurativa, neste contexto, torna-se a norma, não a exceção.

  • Contra as Drogas de Abuso: Ao curar o vazio social e oferecer sentido, retira-se o solo fértil da dependência química como fuga.

  • Contra a Corrupção: Uma cidadania ativa, empoderada e que valoriza o bem comum é o maior fiscal. A transparência radical e a participação direta são anticorpos institucionais.

  • Contra Ditadores e Bilionários Predatórios: Figuras como Trump, Putin, Maduro e outros florescem no terreno da desesperança, da ignorância e da fragmentação social. Suas armas são o medo, a raiva e a desinformação. Uma população sábia, conectada e com senso de propósito coletivo é imune ao seu apelo tóxico. Eles não podem vender soluções simples para problemas complexos a pessoas que compreendem a complexidade e estão ocupadas construindo soluções comunitárias.

  • Contra as Armas de Destruição em Massa: O maior delas é a indiferença. Quando nos reconhecemos como parte de uma única comunidade terrestre — onde o sofrimento em Gaza, na Ucrânia, no Congo ou nas periferias de São Paulo é uma ferida coletiva —, a lógica da dominação e do extermínio perde seu “senso comum”. A diplomacia deixa de ser um jogo de xadrez geopolítico e se torna a arte de mediar conflitos dentro da mesma família.

O Caso Palestino: A Encarnação da Falência Civilizatória

A tragagem em curso na Palestina é o exemplo mais cristalino. Não é um “conflito”. É a expressão máxima de uma lógica de dominação, desumanização e expansão colonial sustentada por um complexo militar-industrial e por um capital internacional que lucra com a guerra e a instabilidade. O desrespeito ao direito internacional, o assassinato de civis, a destruição de hospitais e universidades são a antítese absoluta da Terra da Sabedoria. Eles só persistem porque nossa civilização atual ainda prioriza a razão de Estado, o lucro das armas e alianças políticas sobre a compaixão e o direito universal à vida digna.

Conclusão: A Batalha das Narrativas

A disputa final não é militar, mas narrativa e de valores. De um lado, a narrativa velha, triste e míope do medo, da escassez, da separação e do controle — que produz prisões, armas, ditadores e um planeta em chamas. Do outro, a narrativa emergente da Terra da Sabedoria: da abundância que nasce do compartilhamento, da força que nasce da conexão, da segurança que nasce da justiça e da realização que nasce do servir a algo maior que si.

Inovar em políticas públicas, portanto, é o ato de construir, aqui e agora, os protótipos desta nova civilização. Cada escola que ensina ecocidadania, cada sistema de justiça restaurativa, cada economia circular, cada assembleia de cidadãos, é uma semente plantada nas ruínas do velho mundo. É o único caminho porque é o único que oferece uma resposta à altura do nosso profundo anseio por significado e à magnitude dos colapsos que nós mesmos criamos.

A escolha não é entre esquerda e direita. É entre insensibilidade e sabedoria. E o tempo para escolher está se esgotando.




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