SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Grande Tabuleiro Geopolítico: Análise Estratégica e o Posicionamento do Brasil por Egidio Guerra.

 


O Jogo de Xadrez Global: Potencial Bélico, Econômico e Político

O cenário geopolítico contemporâneo assemelha-se a uma complexa partida de xadrez multidimensional, onde as peças são estados-nação com diferentes capacidades e estratégias. Como analisa José Luís Fiori em "Uma Teoria do Poder Global", o sistema internacional é inerentemente conflituoso e expansivo, onde os estados buscam incessantemente aumentar seu poder relativo. Esta dinâmica explica as múltiplas crises simultâneas:

  • Ucrânia-Rússia: Expressão clássica da teoria do realismo ofensivo de John J. Mearsheimer ("Como os Estados Pensam"), onde a Rússia age para evitar a expansão da OTAN, percebida como ameaça existencial

  • China-Taiwan: Jogo de deterrência assimétrica onde Pequim emprega gradualismo estratégico, combinando pressão econômica, militar e diplomática

  • Invasão da Venezuela e ameaça a Colômbia: Conflito regional com dimensões de próxima guerra, onde potências externas como EUA buscam influência

  • Irã: A dicotomia entre realpolitik do regime e aspirações sociais demonstra a tensão entre razão de estado e legitimidade interna

potencial bélico atual segue a lógica de Sun Tzu: "A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar". As ameaças à Groenlândia (interesse estratégico dos EUA no Ártico) e as retaliações europeias são movimentos calculados no tabuleiro de recursos e rotas comerciais.

O Brasil como Peça no Tabuleiro: Entre o Bispo e o Cavalo

Analisando através das lentes de Maquiavel ("O Príncipe"), o Brasil representa uma peça intermediária - talvez um bispo (com movimento diagonal limitado, mas influente) ou cavalo (com capacidade de manobras surpresa). Não é rainha nem rei, mas possui mobilidade singular no tabuleiro sul-atlântico.

Potencial econômico: Maior economia da América Latina, recursos naturais estratégicos, autossuficiência energética e alimentar
Potencial político: Tradição diplomacia pragmática, capacidade de mediação Sul-Sul, assento no BRICS
Limitações bélicas: Capacidade projetiva limitada, dependência tecnológica militar

Segundo Fiori, o Brasil oscila entre aspirações de potência média e constrangimentos estruturais. Na Teoria dos Jogos, nossa posição seria de jogador com informação incompleta, buscando maximizar ganhos em jogos repetitivos com múltiplos adversários.

Próximos Movimentos Estratégicos: Teoria dos Jogos Aplicada

  1. Dilema de segurança (Mearsheimer): O Brasil deve equilibrar entre:

    • Cooperação com EUA (aliança tradicional)

    • Parceria estratégica com China (interdependência assimétrica)

    • Liderança regional autônoma (Unasul, Mercosul)

  2. Jogo de sinalização frente às crises:

    • Venezuela: Manter neutralidade pragmática, oferecendo mediação

    • Ucrânia: Manter tradição não-alinhamento, com condenação seletiva

    • Taiwan: Reafirmar Uma China, sem adesão retórica excessiva

  3. Estratégia Sun Tzu: "Conhece teu inimigo e conhece a ti mesmo". O Brasil deve:

    • Fortalecer defesa cibernética e amazônica

    • Diversificar parcerias tecnológicas

    • Explorar vantagens comparativas em energia verde e alimentos

O Futuro dos Sistemas: Capitalismo, Socialismo e o "Blefe" Geopolítico

A análise de Sérgio Prieb ("Do socialismo da URSS ao capitalismo da Rússia") demonstra como transições sistêmicas produzem traumas sociais profundos. O colapso soviético, conforme "Socialismo Traído", resulta de fatores múltiplos: erros de planejamento, pressão externa, e desconexão elite-população.

Próximos passos econômicos:

  • China: Transição para "dual circulation", redução de desigualdades, tecnologia de ponta

  • Índia: Crescimento demográfico como vantagem, com sérios desafios de infraestrutura

capitalismo global enfrenta crise de legitimidade (desigualdade, mudança climática), enquanto alternativas socialistas carecem de modelos viáveis pós-URSS. O sistema provavelmente evoluirá para modelos híbridos, com diferentes graus de estatização e mercado.

Quanto ao "blefe" na política internacionalMearsheimer ("Por que os Líderes Mentem") identifica que líderes frequentemente enganam tanto suas populações quanto adversários para alcançar objetivos estratégicos. O "blefe de Trump" (e de outros líderes) segue a lógica da deterrência por incerteza - criar dúvida sobre reações para obter vantagens negociadoras.

Conclusão: O Movimento do Brasil no Xadrez Multipolar

O Brasil deve adotar estratégia de "poder inteligente" (smart power):

  1. Neutralidade ativa em conflitos alheios

  2. Aprofundamento da integração sul-americana

  3. Parcerias diversificadas (UE, China, EUA, África)

  4. Fortalecimento do multilateralismo reformado

  5. Investimento em capacidades defensivas assimétricas

Como ensina Sun Tzu: "A invencibilidade está na defesa; a vulnerabilidade, no ataque". Num mundo de múltiplas crises simultâneas, o movimento brasileiro ideal não é o ataque direto, mas o posicionamento estratégico que transforme vulnerabilidades em oportunidades, mantendo liberdade de manobra enquanto as grandes potências se desgastam em conflitos mútuos. O fim do jogo não será vitória de um sistema sobre outro, mas transformação contínua do próprio tabuleiro - onde o Brasil pode ser arquiteto, não apenas peça.

Nenhum comentário:

Postar um comentário