O Jogo de Xadrez Global: Potencial Bélico, Econômico e Político
O cenário geopolítico contemporâneo assemelha-se a uma complexa partida de xadrez multidimensional, onde as peças são estados-nação com diferentes capacidades e estratégias. Como analisa José Luís Fiori em "Uma Teoria do Poder Global", o sistema internacional é inerentemente conflituoso e expansivo, onde os estados buscam incessantemente aumentar seu poder relativo. Esta dinâmica explica as múltiplas crises simultâneas:
Ucrânia-Rússia: Expressão clássica da teoria do realismo ofensivo de John J. Mearsheimer ("Como os Estados Pensam"), onde a Rússia age para evitar a expansão da OTAN, percebida como ameaça existencial
China-Taiwan: Jogo de deterrência assimétrica onde Pequim emprega gradualismo estratégico, combinando pressão econômica, militar e diplomática
Invasão da Venezuela e ameaça a Colômbia: Conflito regional com dimensões de próxima guerra, onde potências externas como EUA buscam influência
Irã: A dicotomia entre realpolitik do regime e aspirações sociais demonstra a tensão entre razão de estado e legitimidade interna
O potencial bélico atual segue a lógica de Sun Tzu: "A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar". As ameaças à Groenlândia (interesse estratégico dos EUA no Ártico) e as retaliações europeias são movimentos calculados no tabuleiro de recursos e rotas comerciais.
O Brasil como Peça no Tabuleiro: Entre o Bispo e o Cavalo
Analisando através das lentes de Maquiavel ("O Príncipe"), o Brasil representa uma peça intermediária - talvez um bispo (com movimento diagonal limitado, mas influente) ou cavalo (com capacidade de manobras surpresa). Não é rainha nem rei, mas possui mobilidade singular no tabuleiro sul-atlântico.
Potencial econômico: Maior economia da América Latina, recursos naturais estratégicos, autossuficiência energética e alimentar
Potencial político: Tradição diplomacia pragmática, capacidade de mediação Sul-Sul, assento no BRICS
Limitações bélicas: Capacidade projetiva limitada, dependência tecnológica militar
Segundo Fiori, o Brasil oscila entre aspirações de potência média e constrangimentos estruturais. Na Teoria dos Jogos, nossa posição seria de jogador com informação incompleta, buscando maximizar ganhos em jogos repetitivos com múltiplos adversários.
Próximos Movimentos Estratégicos: Teoria dos Jogos Aplicada
Dilema de segurança (Mearsheimer): O Brasil deve equilibrar entre:
Cooperação com EUA (aliança tradicional)
Parceria estratégica com China (interdependência assimétrica)
Liderança regional autônoma (Unasul, Mercosul)
Jogo de sinalização frente às crises:
Venezuela: Manter neutralidade pragmática, oferecendo mediação
Ucrânia: Manter tradição não-alinhamento, com condenação seletiva
Taiwan: Reafirmar Uma China, sem adesão retórica excessiva
Estratégia Sun Tzu: "Conhece teu inimigo e conhece a ti mesmo". O Brasil deve:
Fortalecer defesa cibernética e amazônica
Diversificar parcerias tecnológicas
Explorar vantagens comparativas em energia verde e alimentos
O Futuro dos Sistemas: Capitalismo, Socialismo e o "Blefe" Geopolítico
A análise de Sérgio Prieb ("Do socialismo da URSS ao capitalismo da Rússia") demonstra como transições sistêmicas produzem traumas sociais profundos. O colapso soviético, conforme "Socialismo Traído", resulta de fatores múltiplos: erros de planejamento, pressão externa, e desconexão elite-população.
Próximos passos econômicos:
China: Transição para "dual circulation", redução de desigualdades, tecnologia de ponta
Índia: Crescimento demográfico como vantagem, com sérios desafios de infraestrutura
O capitalismo global enfrenta crise de legitimidade (desigualdade, mudança climática), enquanto alternativas socialistas carecem de modelos viáveis pós-URSS. O sistema provavelmente evoluirá para modelos híbridos, com diferentes graus de estatização e mercado.
Quanto ao "blefe" na política internacional, Mearsheimer ("Por que os Líderes Mentem") identifica que líderes frequentemente enganam tanto suas populações quanto adversários para alcançar objetivos estratégicos. O "blefe de Trump" (e de outros líderes) segue a lógica da deterrência por incerteza - criar dúvida sobre reações para obter vantagens negociadoras.
Conclusão: O Movimento do Brasil no Xadrez Multipolar
O Brasil deve adotar estratégia de "poder inteligente" (smart power):
Neutralidade ativa em conflitos alheios
Aprofundamento da integração sul-americana
Parcerias diversificadas (UE, China, EUA, África)
Fortalecimento do multilateralismo reformado
Investimento em capacidades defensivas assimétricas
Como ensina Sun Tzu: "A invencibilidade está na defesa; a vulnerabilidade, no ataque". Num mundo de múltiplas crises simultâneas, o movimento brasileiro ideal não é o ataque direto, mas o posicionamento estratégico que transforme vulnerabilidades em oportunidades, mantendo liberdade de manobra enquanto as grandes potências se desgastam em conflitos mútuos. O fim do jogo não será vitória de um sistema sobre outro, mas transformação contínua do próprio tabuleiro - onde o Brasil pode ser arquiteto, não apenas peça.
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