SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 21 de março de 2026

As Missões que Deus nos dá. Por Egidio Guerra

 



Na tradição judaica, a vida não é um mero acaso, nem um percurso solitário em busca de prazeres efêmeros. Somos convocados. Desde os primórdios, a humanidade e, em especial, o povo de Israel, recebeu uma shlichut — uma missão. Compreender essa missão é compreender o próprio propósito da existência. Para isso, precisamos mergulhar no significado profundo das palavras hebraicas, nas entrelinhas da Bíblia e nas luzes acesas por pensadores contemporâneos como o Rabino Nilton Bonder.

A Linguagem da Convocação: ShaliachTzedakah e Chesed 

Quando falamos em missão, a palavra hebraica fundamental é שליחות (shlichut), que deriva da raiz de shaliach (enviado) e meshaleach (Aquele que envia). A singularidade do conceito judaico é que Deus, o Meshaleach supremo, escolhe fazer Seu trabalho no mundo através de agentes humanos. O Rabino Nilton Bonder, em sua obra frequentemente inspirada na tradição chassídica, ensina que a verdadeira missão divina não é uma imposição externa, mas o despertar de uma agência interior. Somos convidados a ser parceiros de Deus na obra da criação, atuando onde sua luz precisa ser revelada.

Essa agência se manifesta em duas atitudes centrais que são, ao mesmo tempo, bênçãos e dons: a Tzedakah e o Chesed.

צדקה (Tzedakah) é frequentemente traduzida como "caridade", mas sua raiz é Tzedek (justiça). Diferente da caridade ocidental, que parte da benevolência de quem tem para quem não tem, a Tzedakah é um ato de justiça. É a devolução ao outro do que lhe é devido pela dignidade divina que carrega. Os cabalistas ensinam que a Tzedakah possui um poder único: a letra hebraica associada a esta mitzvah continua brilhando na testa de quem a prática por toda a semana, enquanto outras mitzvot têm seu brilho absorvido mais rapidamente. Este é o significado místico do versículo “Sua Tzedakah permanece para sempre” (Salmos 111:3). Dar Tzedakah não é apenas ajudar; é ancorar a energia divina no mundo.

חסד (Chesed) é a força complementar, traduzida como "bondade" ou "amor generoso". É a corrente transbordante da benevolência divina. O Talmud de Jerusalém nos fala de três dons (gifts) que Deus concedeu a Israel: Rachmanim (compassivos), Bayshanim (envergonhados) e Gomlei Chassadim (praticantes de bondade). O Chesed é a força que nos move a sair de nós mesmos em direção ao outro. É a manifestação prática de que recebemos para dar.

Parábolas e Prioridades: A Grandeza de Receber o Outro

A Bíblia e o Talmude são pródigos em nos mostrar qual é a hierarquia dessas missões. Um dos ensinamentos mais radicais está na parashá (porção semanal) de Vayeirá. Abraão, o patriarca, está em uma experiência profética de nível altíssimo, em comunhão direta com a Presença Divina (Shechiná). De repente, ele vê três viajantes se aproximando. O que ele faz?

O versículo diz: “Ele ergueu os olhos e olhou, e eis três homens diante dele; viu, e correu ao seu encontro” (Gênesis 18:2). Abraão pede a Deus: “Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes do teu servo” (Gênesis 18:3). Rashi, o grande comentarista, explica que Abraão estava pedindo a Deus que esperasse enquanto ele corria para receber os hóspedes.

A partir disso, os sábios do Talmude deduziram uma lição monumental: “Receber hóspedes é maior do que receber a Divina Presença” (Shabat 35b). A missão que Deus nos dá não é fugir do mundo para uma contemplação eterna; é justamente no ato de cuidar do outro — muitas vezes interrompendo nossa própria "espiritualidade" — que encontramos o ápice da vontade divina.

O Rabino Nilton Bonder comenta sobre isso ao falar da "ética do cuidado". Para ele, a missão divina não está no grande espetáculo, mas na capacidade de estar presente no detalhe, de fazer do "outro" uma prioridade, mesmo que isso exija pausar o nosso próprio êxtase espiritual.

Os Sete Dons da Terra e a Sustentação da Missão

A própria natureza é um presente que sustenta nossa capacidade de cumprir a missão. A Torá descreve a Terra de Israel como uma terra de שבעת המינים (Shivat HaMinim — as Sete Espécies): trigo, cevada, videira, figueira, romã, oliveira e tamareira (Devarim 8:8). A Cabalá associa cada uma dessas espécies a uma Sefirá (atributo divino):

  • O trigo representa o Chesed (bondade).

  • A cevada, mais rústica, remete à Gevurá (disciplina).

  • As uvas simbolizam a Tiferet (harmonia).

  • Os figos, a Netzach (perseverança).

  • As romãs, a Hod (esplendor e gratidão).

  • As azeitonas, o Yesod (fundação).

  • As tâmaras (mel), a Malchut (realeza/presença imanente).

Estes não são apenas alimentos; são canais de energia espiritual. Quando cumprimos a missão de sustentar o necessitado, não estamos apenas oferecendo pão; estamos oferecendo o aspecto do Chesed que existe dentro do trigo. A missão divina, portanto, é também ecológica e cósmica: nós abençoamos a Deus ao usar os dons da criação para abençoar os outros.

O Dom da Escolha e a Força do Início 

Talvez a maior bênção e o maior dom que Deus nos concede seja a capacidade de iniciar. Um ensinamento profundo do Targum (tradução aramaica da Torá) sobre o versículo “E será, se ouvires a voz do Eterno” (Devarim 28:1) interpreta “se ouvires” como “se aceitares”.

A metáfora utilizada é a de um homem do século XVI vendo um caminhão mover centenas de quilos com um simples movimento do pé no acelerador. Assim é o mundo espiritual: quando um ser humano decide, com todo o coração e alma, aceitar a missão divina, ele aciona "forças poderosas" nos mundos superiores que o impulsionam em direção à perfeição. A missão que Deus nos dá é como a centelha que acende o motor. Nossa parte é o primeiro passo, a aceitação total. A partir daí, Deus nos dá o "dom" do impulso, da ajuda celestial que nos carrega para níveis que jamais alcançaríamos sozinhos. 

Conclusão: A Sinergia da Missão

Em síntese, as missões que Deus nos dá — seja através do Chesed de Abraão, da justiça da Tzedakah, ou do cuidado com os sete frutos da Terra — nos revelam um padrão: somos agentes ativos. Não somos meros receptáculos de bênçãos; somos canos por onde as bênçãos fluem. A bênção só se completa quando se transforma em dom, e o dom só se santifica quando é colocado a serviço da missão.

O Rabino Nilton Bonder nos alerta que a grande tragédia espiritual é o "acúmulo", achar que recebemos os dons para nós mesmos. A missão é o movimento contrário: é a generosidade que quebra a inércia do ego. Ao aceitarmos ser shlichim (enviados) de Deus, descobrimos que a própria força para cumprir a jornada já nos foi dada de antemão, como um presente que aguarda apenas o nosso "sim".

Que possamos ter a clareza de Abraão para ver as necessidades à nossa frente, a coragem de interromper nossa própria zona de conforto para atender ao chamado, e a fé de que, ao darmos o primeiro passo, Deus nos dá o impulso para transformar o mundo em um lugar mais justo, bondoso e repleto de Sua presença.

 

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