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quinta-feira, 26 de março de 2026

Kairós por Jenny Erpenbeck




Kairós é o mais recente romance da aclamada escritora alemã Jenny Erpenbeck, publicado originalmente em alemão em 2021 e traduzido para o inglês por Michael Hofmann em 2023. Em maio de 2024, a obra foi consagrada com o International Booker Prize, um dos mais importantes prêmios literários do mundo, consolidando Erpenbeck como uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea. A edição inglesa, publicada pela New Directions, tem 336 páginas e chegou às livrarias em junho de 2023. 

O título remete ao conceito grego de kairos — o deus do momento oportuno, descrito como tendo um tufo de cabelo na testa que permite ser agarrado, mas a nuca lisa e impossível de segurar quando já passou. Esta metáfora percorre todo o romance: o instante fugidio do encontro amoroso, o momento histórico que se perde para sempre. 

A Autora: Jenny Erpenbeck 

Jenny Erpenbeck nasceu em Berlim Oriental em 1967, filha de uma família de intelectuais. Cresceu no distrito de Pankow, a poucos passos do Muro, e testemunhou aos 22 anos a queda da muralha e o colapso do Estado em que havia sido criada. Esta experiência de transição entre dois mundos — o desaparecimento súbito de um sistema político e o nascimento de outro — é o que, segundo a própria autora, a levou a se tornar escritora. 

Antes de se dedicar à literatura, Erpenbeck formou-se como encadernadora, trabalhou como assistente de produção teatral e estudou direção de ópera, carreira que exerceu com sucesso desde o final dos anos 1990. Seu primeiro romance foi publicado em 1999, e desde então ela construiu uma obra marcada pela reflexão sobre as camadas da história alemã e europeia. Suas principais obras traduzidas para o inglês incluem Visitation (2010), The End of Days (2014, vencedor do Independent Foreign Fiction Prize), Go, Went, Gone (2017, finalista do International Booker Prize) e a coletânea de ensaios Not a Novel (2020). Em 2019, Visitation foi eleito um dos 100 melhores livros do século XXI pelo Guardian. 

Críticos como John Powers, da NPR, já preveem que Erpenbeck será agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura nos próximos anos, tamanha a qualidade e a relevância de sua obra. 

Estrutura e Enredo 

O romance se abre com uma estrutura de flashback: Katharina, agora uma mulher mais velha, recebe a notícia da morte de seu antigo amante, Hans. Dias depois, duas caixas de papelão com os pertences dele são entregues em seu apartamento — cartas, cópias de cartas, bilhetes, agendas, fotografias, recortes de jornal, colagens. São os vestígios materiais de um relacionamento que marcou sua vida para sempre. Ao abri-las, o passado se desdobra diante dela "como um baralho de cartas lançado ao ar". 

A narrativa então recua para Berlim Oriental, 11 de julho de 1986 . Katharina, 19 anos, estudante de design cenográfico, está em um ônibus quando cruza o olhar de um homem mais velho, Hans, que está a caminho do Centro Cultural Húngaro. O encontro fortuito se transforma em um café, depois em um jantar, e finalmente em uma noite de amor — ao som do Requiem de Mozart. 

Hans é um escritor respeitado, trabalha na rádio estatal, tem 53 anos, é casado com Ingrid e tem um filho adolescente, Ludwig. Trinta e quatro anos separam os dois amantes. Mas a atração é imediata e avassaladora. Nos anos seguintes, o relacionamento se desenrola entre encontros clandestinos, passeios por Berlim, discussões sobre arte e música, e a progressiva deterioração do poder entre os dois. 

A estrutura do livro é notável pela forma como alterna os pontos de vista de Katharina e Hans, frequentemente na mesma cena, no mesmo parágrafo, até mesmo na mesma frase — uma técnica que, segundo críticos, "espelha a fusão e a confusão dos amantes". O crítico do Los Angeles Review of Books observa que a prosa de Erpenbeck é "rápida e fluida, mas também densa de significado", com uma "retórica de inteligência e imaginação raras". 

Personagens Principais 

Hans: O Intelectual Marcado pela História 

Hans é um homem de meia-idade, escritor e intelectual, cuja trajetória pessoal espelha as fraturas da história alemã do século XX. Sua família era báltica-alemã, expulsa de Riga e depois de Posen durante as convulsões populacionais da Segunda Guerra Mundial. Quando criança, sofreu surras violentas de um pai nazista cruel — uma experiência que moldou sua personalidade e sua necessidade de controle. 

Aos 18 anos, Hans escolheu deliberadamente se mudar para Berlim Oriental, movido por um sentimento de culpa em relação ao passado alemão e pelo desejo de provar "a si mesmo e à humanidade que teria se comportado de maneira diferente" do que seu pai e sua geração haviam feito. Esta decisão, no entanto, não elimina as ambiguidades de sua posição: ele transita livremente entre Oriente e Ocidente, tem contatos no Ocidente, e seu trabalho na rádio estatal lhe garante privilégios que a maioria dos cidadãos da RDA não possuía. 

No romance, Hans é inicialmente apresentado como um homem sofisticado, culto, dono de um apartamento repleto de discos e livros, capaz de guiar Katharina pelos meandros da música clássica e da arte. Mas logo se revela sua face mais sombria: o ciúme possessivo, a necessidade de controle, o sadismo que se manifesta primeiro como "brincadeira" com o cinto e depois como ritual de humilhação e punição. 

Katharina, ao olhar para trás, resume Hans em uma frase contundente: "No Ocidente... ele poderia ter sido consultor de gestão. Corretor de imóveis. Redator de publicidade". É uma observação que desfaz o mito do intelectual engajado e revela o oportunista por trás da fachada. 

Katharina: A Jovem em Formação 

Katharina é estudante de design cenográfico, vive com a mãe em Berlim Oriental e tem 19 anos quando conhece Hans. Ela é descrita como "sincera, sonhadora, bonita". Nasceu na RDA e conhece apenas a Alemanha dividida — o Muro, para ela, sempre existiu. 

Sua relação com Hans começa como uma descoberta: ele lhe apresenta livros, música, arte, um mundo de cultura que ela ainda está começando a explorar. Ela usa uma fita de veludo preta no cabelo, um detalhe que "o comove, ela parece uma colegial". A diferença de idade e de poder é palpável desde o início. 

À medida que o relacionamento avança, Katharina amadurece. Consegue uma bolsa de estudos em Frankfurt an der Oder, trabalha em um teatro na fronteira com a Polônia, faz amigos de sua idade, desenvolve seus próprios interesses. Quando se envolve com Vadim, um colega mais jovem, Hans reage com fúria e inicia um processo de controle e punição que se estende por meses. 

Apesar da dinâmica abusiva, Katharina não é retratada como vítima passiva. Ela tem agência, faz escolhas — mesmo que algumas delas sejam autodestrutivas. Aos poucos, o relacionamento se transforma em um campo de força onde amor e poder se confundem. Como escreve a crítica Natasha Walter: "Katharina permanece em um relacionamento abusivo porque sente que merece o castigo que ele lhe inflige". 

Temas Centrais 

1. O Amor como Campo de Poder 

A relação entre Katharina e Hans é, em sua essência, uma relação de poder. A diferença de idade (34 anos), de experiência, de status social e de autonomia econômica coloca os dois em posições radicalmente desiguais desde o primeiro encontro. Hans é o guia, o mentor, aquele que sabe; Katharina é a aprendiz, aquela que descobre. 

Mas Erpenbeck não se contenta com essa leitura simples. Ela mostra como o poder no relacionamento muda de mãos ao longo do tempo. Quando Katharina se torna mais independente — estudando em outra cidade, fazendo amigos, começando sua carreira — Hans se vê ameaçado. É nesse momento que sua natureza abusiva se revela com toda a força. 

As cenas de BDSM no romance são particularmente significativas. Hans introduz a "brincadeira" com o cinto, mas o que começa como uma fantasia erótica rapidamente se transforma em ritual de humilhação e controle. Katharina, perplexa, pensa: "Só agora... é que realmente o conheço". O desejo de ter um filho com ele, expresso logo após uma sessão de espancamento, revela a complexidade perturbadora do vínculo que os une . 

2. História e Memória: As Camadas do Solo Alemão 

Se há um tema que percorre toda a obra de Erpenbeck, é a forma como a história se inscreve no solo e nos corpos. Em Kairós, essa preocupação se manifesta em uma passagem que é citada por quase todos os críticos: 

"She knows that only a very thin layer of soil is spread over the bonesthe ashes of the incinerated victimsthat there is no other walkingever, for a German than over skullseyesmouthsand skeletonsthat each step stirs these depthsand these depths are the measure of every path, whether one wants to or not."  

Katharina carrega em si a consciência do passado alemão — o Holocausto, a guerra, a destruição. Para ela, "na Alemanha, a morte não é o fim de tudo, mas o começo". Esta percepção não é apenas histórica, mas também geográfica: Berlim é uma cidade onde cada tijolo, cada praça, cada edifício carrega as marcas de sucessivos regimes e catástrofes. 

A arquitetura da cidade desempenha um papel importante no romance. Há a nova cúpula da catedral, erguida nos anos 1980; o Palast der Republik, centro cultural da RDA, cujas janelas de bronze refletiam a paisagem; o Friedrichstadtpalast, o antigo teatro de 1880 fechado e reconstruído. Cada edifício é uma camada, um estrato de tempo, um testemunho de mundos que já não existem. 

3. O Colapso da RDA e a Unificação Alemã 

O romance acompanha os últimos anos da Alemanha Oriental, entre 1986 e 1990, um período de agitação crescente que culmina com a queda do Muro em 9 de novembro de 1989. Erpenbeck retrata este momento histórico com uma precisão que reflete sua experiência pessoal: o que significou, para quem cresceu na RDA, ver seu país desaparecer praticamente da noite para o dia. 

Um dos momentos mais poderosos do livro é a descrição do que aconteceu com os funcionários da rádio estatal após a reunificação. Todos os 13 mil funcionários foram obrigados a aguardar na fila para entrar em uma sala com uma mesa e um telefone, onde uma voz anônima de Frankfurt decidia quem seria mantido e quem seria demitido. Hans perde seu emprego. O mundo que ele conhecia — com suas certezas, suas rotinas, seu lugar social — desmorona. 

Erpenbeck evita, no entanto, cair na nostalgia ou na "Ostalgie" (a nostalgia da Alemanha Oriental). Ela mostra as contradições do sistema socialista, seu autoritarismo, sua burocracia sufocante, mas também registra o que foi perdido com sua dissolução: um senso de solidariedade, um projeto comum, a certeza de que se pertencia a algo maior do que si mesmo. 

4. Arte e Cultura como Refúgio e como Arma 

A música, a literatura, a pintura ocupam um lugar central em Kairós. O primeiro encontro dos amantes é marcado pelo Requiem de Mozart; ao longo do romance, eles ouvem Chopin, Eisler, Bach, Beethoven. Hans guia Katharina pelo Pérgamo, apontando a batalha entre Éter e o gigante com cabeça de leão: "Veja como eles estão próximos... a intimidade da batalha. Veja como amor e ódio se parecem". 

Mas a arte também é uma forma de poder. Hans usa seu conhecimento para moldar Katharina, para definir o que é "bom" e o que é "ruim", para impor seus gostos e sua visão de mundo. Ele a incentiva a jogar fora os discos de Rachmaninoff e Mendelssohn que ela gosta; sugere que ela deveria estudar artes gráficas em vez de design comercial. É uma forma de controle tão eficaz quanto o cinto. 

5. Tempo: Chronos e Kairos 

O título do romance aponta para uma distinção fundamental entre duas concepções de tempo. Chronos é o tempo cronológico, quantitativo, mensurável, que flui uniformemente. Kairos é o tempo qualitativo, o momento oportuno, a ocasião única que precisa ser agarrada antes que escape para sempre. 

Esta distinção percorre todo o romance. Hans pensa, após o primeiro encontro: "Nunca mais será assim". Katharina pensa: "Sempre será assim". Uma acredita no momento único e irrepetível; a outra, na perpetuidade do sentimento. O desencontro entre essas duas temporalidades é o que, em última instância, condena o relacionamento. 

Erpenbeck também explora o tempo como experiência subjetiva. Em um trecho citado por vários críticos, Katharina reflete: "Estranho, pensa ela, que o tempo, que é invisível, se torne indiretamente visível na infelicidade". 

Citações Importantes 

1. Sobre a Camada de História Sob os Pés 

"She knows that only a very thin layer of soil is spread over the bonesthe ashes of the incinerated victimsthat there is no other walkingever, for a German than over skullseyesmouthsand skeletonsthat each step stirs these depthsand these depths are the measure of every path, whether one wants to or not."  

2. A Definição de Kairos 

"Kairosthe god of fortunate momentsis supposed to have a lock of hair on his foreheadwhich is the only way of grasping hold of himBecause once the god has slipped past on his winged feetthe back of his head is sleek and hairlessnowhere to grab hold of."  

3. A Percepção do Tempo na Infelicidade 

"Strangeshe thinksthat time, which is invisiblebecomes indirectly visible in terms of unhappiness."  

4. O Amor Clandestino 

"Why a love that has to be kept secret can make a person so much happier than one that can be talked about is something she wishes she could understand....Perhaps because a secret is not spent on the presentbut keeps its full force for the future? Or is it something to do with the potential for destruction that one suddenly has?"  

5. A Paisagem em Ruínas 

"Everything is collapsing. The landscape between the old that is being abolished and the new that is yet to be installed is a landscape of ruins."  

Recepção Crítica 

Elogios 

A recepção de Kairós foi amplamente entusiástica, com críticos destacando a ambição, a sofisticação formal e a profundidade temática do romance. 

John Powers (NPR) declarou que Erpenbeck "deve ganhar o Nobel nos próximos cinco anos" e descreveu o livro como "um romance fascinante onde dor e prazer dançam o tango". 

Charles Finch (Los Angeles Times) elogiou a capacidade de Erpenbeck de "fundir o emocional e o histórico de uma forma que sugere um novo caminho para o romance alemão". 

Natasha Walter (The Guardian) chamou Kairós de "um dos romances mais sombrios e belos que já li" e destacou que "passar tempo com a imaginação rigorosa e intransigente de Erpenbeck é revigorante até a última página". 

Adam Begley (The Spectator) observou que o romance é "subtile, ricamente camadas, densamente alusivo e enormemente ambicioso", embora tenha admitido que "respeitou mais do que gostou". 

Dwight Garner (The New York Times) escreveu que Erpenbeck está "entre os romancistas mais sofisticados e poderosos que temos", e que "se agarrando ao chassi de suas frases, como fugitivos, estão intimações da política alemã, da história e da memória cultural". 

John Domini (Los Angeles Review of Books) destacou a qualidade da prosa: "a alacridade da prosa de Erpenbeck nunca vacila... uma retórica de rara inteligência e imaginação". 

Críticas e Controvérsias 

Apesar dos elogios, o romance também gerou críticas e desconfortos. 

A Dinâmica Abusiva: Vários críticos e leitores expressaram desconforto com o retrato do relacionamento abusivo. A crítica do Star Tribune comentou, após a cena do cinto e a sugestão de Katharina de ter um filho: "Ao que o leitor sofisticado só pode dizer: 'Eca'". O mesmo crítico observou que a "união" dos amantes é "claramente desequilibrada por causa da vasta diferença de idade e status". 

A Falta de Simpatia pelos Personagens: Muitos leitores tiveram dificuldade em se conectar com os protagonistas. Uma resenha no The StoryGraph observou que "as escolhas dos personagens eram frustrantes desde o início e certamente não melhoraram". Outro leitor, no blog Books Are My Favourite and Best, escreveu: "não me convenci de que uma jovem de 19 anos se apaixonaria por um homem mais velho que seu pai". 

O Final: Alguns críticos apontaram que o último terço do romance perde energia. Um leitor comentou: "Não amei o final – o último terço do livro perdeu ímpeto em termos de energia". Outro observou que "o modo como grande parte do livro era tão íntimo e focada em detalhes e depois as partes finais simplesmente se esvaíram". 

A Violência Excessiva: O crítico do Spectator escreveu: "À medida que o castigo infligido por Hans à pobre Katharina se arrasta de forma sombria, fiquei impaciente para que o Muro caísse". Esta observação aponta para um possível desequilíbrio entre a atenção dada à dinâmica abusiva e a atenção dada ao contexto histórico. 

Allegoria vs. Realismo: Críticos divergiram sobre a leitura alegórica do romance. Enquanto alguns veem o relacionamento como uma metáfora clara para a RDA e sua relação com a União Soviética (o abuso como figura do controle autoritário), outros, como Adam Begley, argumentam que "uma leitura alegórica estrita não faz justiça ao romance sutil, ricamente camadas, densamente alusivo e enormemente ambicioso de Erpenbeck". 

Prêmios e Reconhecimentos 

Kairós recebeu os seguintes prêmios e honrarias: 

  • International Booker Prize 2024 (vencedor)  

  • National Book Award for Translated Literature 2023 (finalista)  

  • Eleito um dos melhores livros do ano pela Publishers Weekly e pelo The Economist  

Análise Crítica Pessoal 

Kairós é um romance que opera em múltiplos registros: é ao mesmo tempo um estudo sobre a dinâmica de poder em um relacionamento abusivo, um documento histórico sobre os últimos anos da RDA, uma meditação sobre a natureza do tempo, e uma reflexão sobre o que significa ser alemão depois do Holocausto e depois da reunificação. 

O que torna o romance extraordinário é a forma como esses registros se entrelaçam. Não se trata de uma alegoria simples onde Hans "é" a RDA e Katharina "é" o povo oprimido. Antes, Erpenbeck constrói correspondências estruturais: o controle exercido por Hans sobre Katharina ecoa o controle exercido pelo Estado sobre seus cidadãos; a súbita dissolução do relacionamento se espelha na súbita dissolução da RDA; a sensação de Katharina de que seu mundo se desfez em 1989 é a mesma sensação que a autora descreveu em seus ensaios. 

A prosa de Erpenbeck é um dos grandes prazeres do livro — e um desafio. A tradução de Michael Hofmann, poeta renomado, captura a "volatilidade imagética" do original, como observa John Domini: "a agilidade de sua prosa nunca vacila". A técnica de alternar pontos de vista dentro do mesmo parágrafo pode ser desorientadora no início, mas rapidamente se torna uma ferramenta poderosa para expressar a fusão e a confusão dos amantes. 

A maior força do romance talvez seja sua recusa em oferecer respostas fáceis. Katharina não é uma vítima pura; Hans não é um monstro puro. O amor entre eles é real, mesmo quando se torna destrutivo. A RDA não é idealizada nem demonizada; o Ocidente não é celebrado como uma libertação sem ambiguidades. Erpenbeck escreve de um lugar de "luto sem sentimentalismo" (Trauer ohne Sentimentalität), como definiu o compositor Hanns Eisler, cuja música ecoa ao longo do romance. 

A principal fraqueza do livro pode ser sua extensão e seu ritmo. O último terço, que se desenrola após a queda do Muro, é menos tenso do que as seções anteriores. A repetição dos padrões abusivos de Hans pode se tornar, para alguns leitores, excessiva. Como observou o crítico do Spectator, chega-se a um ponto em que se deseja que o Muro caia logo — não apenas para Katharina, mas para o leitor também. 

Outro ponto de controvérsia é a representação do consentimento. As cenas de BDSM são ambíguas: será que Katharina consente genuinamente ou está sendo manipulada? Erpenbeck não responde diretamente, deixando o desconforto como parte da experiência do leitor. Esta ambiguidade é, em si mesma, uma escolha artística poderosa, mas pode frustrar leitores que buscam clareza moral. 

Conclusão 

Kairós é um romance que merece o reconhecimento que recebeu. Jenny Erpenbeck conseguiu o feito raro de escrever um livro que é ao mesmo tempo profundamente pessoal e historicamente abrangente, intimista e épico, belo e perturbador. 

A obra nos confronta com perguntas que não têm respostas simples: o que acontece com o amor quando ele se torna controle? O que se perde quando um mundo inteiro desaparece? Como se vive com a consciência de que cada passo dado na Alemanha é um passo sobre camadas de ossos e cinzas? E como se olha para trás, para um relacionamento que marcou a vida inteira, e se decide o que foi — amor, abuso ou ambos? 

Para os leitores que se sentirem desconfortáveis com a dinâmica entre Katharina e Hans, Erpenbeck oferece uma resposta possível: o desconforto é parte da experiência. Não há alívio fácil, não há redenção garantida. Há, em vez disso, a possibilidade de continuar pensando sobre o livro muito depois de fechá-lo — como muitos leitores relatam. 

A crítica Mandy Wight resume bem o impacto da obra: "Amo a exploração das ondas e camadas da história em ação neste romance. O que me desafiou foi o caso amoroso. Eu simplesmente não estava convencida de que uma jovem de 19 anos se apaixonaria por um homem mais velho que seu pai — o que pode ter levado à minha impaciência com ela sentada ali ouvindo todas aquelas fitas cassete. Isto pode ser só comigo. Se você gosta dos romances de Jenny Erpenbeck, não deixe que isso o desencoraje". 

No final, o que permanece é a imagem de Katharina sozinha diante das caixas de pertences de Hans, décadas depois do fim do relacionamento, tentando juntar os fragmentos de uma história que nunca teve um final limpo. É uma imagem de perda, mas também de persistência — a persistência da memória, da história, daquilo que não pode ser simplesmente descartado. Como escreve Erpenbeck, "o que é passado, o que é presente, e o que persiste são perguntas que assombram Kairós". 

Informações Bibliográficas 

Campo 

Informação 

Título original 

Kairos 

Autora 

Jenny Erpenbeck 

Tradutor (inglês) 

Michael Hofmann 

Editora (EUA) 

New Directions 

Editora (Reino Unido) 

Granta 

Data de Publicação 

Junho de 2023 

Páginas 

336 

ISBN 

9780811229340 

Prêmios 

International Booker Prize 2024 (vencedor); National Book Award for Translated Literature 2023 (finalista); Publishers Weekly Best Book of the Year; The Economist Best Book of the Year 

Idioma original 

Alemão 

 

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