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segunda-feira, 30 de março de 2026

Propaganda nas escolas russas é tema de filme ganhador de Oscar — mas ela funciona?

 

Adolescentes russos com bonés vermelhos participam de cerimônia de ingresso em um movimento patriótico de cadetes do Exército da Juventude

Crédito,AFP via Getty Images

    • Author,Olga Prosvirova
    • Role,BBC News
    • Author,Nataliya Zotova
    • Role,BBC News Rússia
  • Tempo de leitura: 6 min

Quando sua filha de sete anos precisou aprender um poema sobre o "glorioso exército" da Rússia para um evento escolar, Nina, de Moscou, achou que aquilo era demais.

Ela lutava para proteger sua filha de um número cada vez maior de lições e atividades "patrióticas".

O aumento da propaganda de guerra dirigida às crianças russas foi retratado para o público global no filme Um Zé Ninguém Contra Putinganhador do Oscar de Melhor Documentário deste ano.

O documentário, co-produzido pela BBC, foi baseado nas filmagens do cinegrafista Pavel Talankin, coordenador de eventos de uma escola primária, na pequena cidade provincial de Karabash, nos montes Urais (divisa entre a Europa e a Ásia).

O que mais preocupa Nina é que sua filha gosta de participar do programa patriótico estatal. O seu nome e o de outras pessoas mencionadas nesta reportagem foram alterados para sua segurança.

"Ela gosta do professor, gosta dos colegas de classe — ela se sente parte daquilo", descreve Nina.

A mãe receia que se opor abertamente às atividades escolares pode isolar socialmente sua filha. E, certa vez, quando ela a manteve em casa para evitar um evento escolar patriótico, a menina ficou abalada.

"Não quero que ela se sinta como se não pertencesse", afirma Nina.

Livros reescritos

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O filme de Talankin documenta como ele foi atraído relutantemente para a máquina de propaganda de Putin, após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Foram criadas cerimônias de hasteamento de bandeiras e lições patrióticas obrigatórias, ensinando aos estudantes a visão do governo sobre valores russos e eventos mundiais.

Livros de história foram reescritos e atualizados com desenvolvimentos recentes, incluindo a "operação militar especial" realizada na Ucrânia.

As imposições continuam até hoje. Ainda no mês passado, o Ministério da Educação da Rússia anunciou planos de criação de uma lista de brinquedos e jogos aprovados pelo Estado para as creches, promovendo os "valores tradicionais russos".

As mensagens que o governo quer que as crianças absorvam são claras: a invasão é uma guerra defensiva e o patriotismo significa lealdade inquestionável. Mas, em casa, algumas delas encontram opiniões diferentes.

Maksim, de oito anos, relaciona tudo o que aprendeu nas suas aulas de educação patriótica: grandes poetas e pintores russos, amizade e como evitar brigas.

Ele fica mais animado quando relembra as discussões sobre robôs, tanques e pistolas a laser.

"Eles nos disseram que é assim que se prepara para a guerra", ele conta.

Como Nina, a mãe de Maksim, Marina, também se opõe à invasão russa. Mas ela evita discutir o assunto diretamente na frente do seu filho, para que ele não repita em público o que ela diz.

"Uma posição ativa contra a guerra poderá atrair atenção indesejada", declarou Marina à BBC.

Definir uma linha entre as mensagens da escola e o que eles dizem em casa é difícil, segundo a psicoterapeuta Anastasia Rubtsova.

"A criança precisa viver neste ambiente, comparecer à escola e fazer parte deste grupo", explica ela.

"Isso não significa que os pais devem concordar com a propaganda. Mas não há necessidade de assumir uma posição política em frente ao seu filho."

A psicoterapeuta sugere que os pais se concentrem em valores universais, como a importância da vida humana, e na ideia de que os conflitos devem ser sempre resolvidos pacificamente, em vez de confrontar diretamente a narrativa da escola.

Crianças gritam enquanto seguram espingardas de brinquedo, durante o jogo militar-patriótico 'Zarnitsa' no jardim da infância em Stavropol, no dia 5 de junho de 2015

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Mesmo antes da invasão da Ucrânia, crianças russas já recebiam armas de brinquedo para participar de um jogo militar patriótico no jardim da infância

Estudos demonstram que as crianças mais jovens são particularmente receptivas às mensagens de figuras de autoridade.

"Se você disser a uma criança pequena que a guerra é boa, ela irá aceitar", explica Rubtsova.

Para a pesquisadora de genética comportamental Emily Willoughby, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, a infância e a adolescência fornecem uma verdadeira janela de oportunidade para modelar os comportamentos.

A questão principal é se esses comportamentos serão mantidos e é aqui que o mundo social mais amplo do indivíduo tem participação fundamental.

"Quando os pais discordam ativamente das mensagens institucionais, a influência da família normalmente prevalece a longo prazo", segundo ela.

Mas, quando o Estado controla a maior parte das fontes de informação e as narrativas alternativas são limitadas, é mais difícil prever o resultado. E é o que ocorre na Rússia.

Um conhecido estudo da educação na era nazista concluiu que a doutrinação na escola pode ter efeitos duradouros, principalmente quando é reforçada pelo ambiente social como um todo.

A implementação das orientações do governo russo apresenta grandes variações.

Algumas escolas as adotam entusiasticamente, enquanto outras as evitam ou suavizam. Os professores podem adaptar, diluir ou resistir silenciosamente à difusão das mensagens.

Homem de suéter rosa segura uma câmera em frente a uma fotografia do presidente russo, Vladimir Putin

Crédito,BBC/Made in Copenhagen/František Svatoš

Legenda da foto,Pavel Talankin saiu de Karabash em 2024 para o exílio, por sua própria segurança

Em uma cena do filme de Talankin, crianças da cidade russa de Karabash recebem bandeiras do país, enquanto se reúnem no salão da escola para ouvir Putin anunciar a criação de um movimento infantil, reminiscente da organização Jovens Pioneiros, da era soviética.

Em outra, a classe é alertada que o inimigo irá tentar recrutá-los nas suas comunidades e espalhar propaganda para vencê-los pelo lado de dentro.

As aulas de educação patriótica são conhecidas em russo como "Conversas sobre Coisas Importantes".

Maia tem 14 anos e é de São Petersburgo. Ela se queixa que as aulas são maçantes.

"Ninguém participa da discussão", ela conta. "Simplesmente nos sentamos ali e ouvimos o professor, depois vamos embora."

"Forçar os cidadãos a participar de apresentações públicas de patriotismo é uma forma de relembrá-los do poder esmagador do regime", explica o professor de estudos russos Paul Goode, da Universidade Carleton, no Canadá.

Esta percepção é reforçada pela imprensa estatal, pelas pesquisas de opinião pública encomendadas pelo Estado e pela fraude das eleições, segundo ele.

Em 2023, para aproveitar ao máximo a "educação patriótica" nas escolas, autoridades russas facilitaram a entrada de recém-formados no Exército do país. Alguns foram atraídos por altos pagamentos para inscrição e outros foram simplesmente convencidos a participar do esforço de guerra.

Como seus pais, Maia acredita que a guerra da Rússia é errada, mas não discute isso na escola, nem sabe o que pensam seus colegas de classe.

"No início, fiquei preocupada porque eu não poderia ser amiga daqueles que apoiam a guerra e Putin", relembra ela. "Mas, agora, todos se comportam de forma tão neutra que tudo parece normal."

Um Zé Ninguém Contra Putin está disponível no Filmelier e na Amazon Prime Vídeo.

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