Publicado em 2024 pela Fern Press (Reino Unido) e Farrar, Straus and Giroux (EUA), Mais estranho que a ficção: Vidas do romance no século XX é o primeiro livro do crítico e editor Edwin Frank, figura central da vida literária americana contemporânea. Com 480 páginas, a obra se propõe a fazer pelo romance do século passado o que o aclamado O Resto é Ruído, de Alex Ross, fez pela música do mesmo período: traçar um mapa vívido e acessível de uma forma de arte em transformação radical.
Frank é o diretor editorial da New York Review Books e fundador da aclamada série NYRB Classics, responsável por resgatar do esquecimento obras-primas como Stoner, de John Williams, e por tornar disponíveis em inglês autores como Victor Serge e Vasily Grossman. Sua sensibilidade editorial — a combinação de pluralismo e rigor que define a NYRB Classics — orienta este livro, que é ao mesmo tempo uma história literária, uma coletânea de ensaios críticos e uma declaração de amor apaixonada ao romance como forma.
O livro foi recebido com entusiasmo pela crítica: recebeu resenhas estreladas da Kirkus Reviews e da Shelf Awareness, foi elogiado pelo The Guardian, Los Angeles Times e The Irish Times, e descrito por críticos como "magisterial", "ambitious and intelligent" e "a must-buy for anyone who takes more than a passing interest in fiction writing" .
O Autor: Edwin Frank
Edwin Frank é uma das figuras mais influentes da literatura contemporânea, embora seu trabalho tenha ocorrido majoritariamente nos bastidores, como editor. À frente da NYRB Classics desde sua fundação, há mais de 25 anos, Frank tem um olhar único para identificar obras que merecem uma segunda vida e um talento incomparável para conectá-las a um público mais amplo.
O crítico Mitchell Abidor, escrevendo para o Los Angeles Review of Books, resume a importância de Frank: "A sensibilidade e o julgamento de Frank são inigualáveis". Esta é sua primeira incursão como autor de um livro de crítica literária, e ele traz para a tarefa não apenas a erudição acumulada em décadas de trabalho editorial, mas também uma perspectiva singular sobre a história do romance — perspectiva moldada por sua posição privilegiada como aquele que, por anos, decidiu quais livros do passado mereciam ser trazidos de volta ao presente.
Frank é também poeta, e sua atenção à dimensão granular da prosa — à frase, ao parágrafo, à cadência — é uma das marcas mais distintivas de sua crítica. Como observa um crítico, ele está menos interessado em "ismos" e classificações do que em capturar a experiência viva da leitura, o momento em que uma frase de Kafka ou uma estrutura de Stein nos faz ver o mundo de forma diferente.
Estrutura e Método
O "Longo Século XX" do Romance
Frank organiza seu estudo em três partes, seguindo uma ordem cronológica que abrange o que ele chama de "longo século XX" do romance. O ponto de partida é 1864, com a publicação de Notas do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski. O ponto de chegada é 2001, com Austerlitz, de W.G. Sebald.
A escolha desses dois livros como parênteses não é acidental. Para Frank, Dostoiévski inaugura uma nova concepção de realidade na ficção — "associada à ruptura, mas também à compulsão: isto é escrita real, não literatura, porque não pode ser evitada". E Sebald, por sua vez, representa o esgotamento dessa tradição, o "último romance do século XX" — um livro que olha para trás, para as catástrofes que definiram o período, com uma lucidez elegíaca.
"Crítica Descritiva"
Frank define sua abordagem como "crítica descritiva" (descriptive criticism), uma tradição que ele remonta a críticos como Clement Greenberg, Randall Jarrell, Pauline Kael, Elizabeth Hardwick e Greil Marcus. Trata-se de um método que privilegia a descrição precisa e envolvente do texto em detrimento da teoria abstrata ou da classificação acadêmica. Como um crítico observa, Frank "escreve como um entusiasta tanto quanto como um acadêmico, confiando em seu gosto, sempre vivo às histórias que conta e aos argumentos que faz".
O resultado é um livro que é ao mesmo tempo erudito e acessível, repleto de insights originais, mas livre de jargão. Frank não se furta a fazer afirmações ousadas, mas sempre as ancora em uma leitura cuidadosa das obras.
Os Trinta Romances
Frank analisa cerca de trinta romances, combinando nomes canônicos (Proust, Joyce, Mann, Woolf, Kafka) com autores menos conhecidos que, em sua visão, desempenharam papéis cruciais no desenvolvimento da forma. Entre os trinta, estão :
Autor | Obra | Ano |
Fiódor Dostoiévski | Notas do Subsolo | 1864 |
H.G. Wells | A Ilha do Dr. Moreau | 1896 |
André Gide | O Imoralista | 1902 |
Gertrude Stein | Três Vidas | 1909 |
D.H. Lawrence | Filhos e Amantes | 1913 |
Marcel Proust | Em Busca do Tempo Perdido | 1913-27 |
James Joyce | Ulisses | 1922 |
Thomas Mann | A Montanha Mágica | 1924 |
Virginia Woolf | Mrs. Dalloway | 1925 |
Franz Kafka | Amerika | 1927 |
Italo Svevo | A Consciência de Zeno | 1923 |
Robert Musil | O Homem sem Qualidades | 1930-43 |
Anna Banti | Artemisia | 1947 |
Ralph Ellison | Homem Invisível | 1952 |
Gabriel García Márquez | Cem Anos de Solidão | 1967 |
W.G. Sebald | Austerlitz | 2001 |
A lista também inclui autores como Natsume Sōseki (Kokoro), Chinua Achebe (Things Fall Apart), Jean Rhys (Good Morning, Midnight), Colette (Claudine at School), Georges Perec (A Vida, Modo de Usar), e Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas), entre outros.
Temas Centrais
1. A Perda do Equilíbrio Entre Self e Sociedade
O tema mais recorrente em Mais estranho que a ficção é a tese central de Frank sobre o que distingue o romance do século XX de seu predecessor oitocentista. Enquanto o romance do século XIX, de Balzac a Eliot, "tentava manter um equilíbrio dinâmico entre o self e a sociedade", os escritores do século XX "existem em um mundo onde esse equilíbrio não pode mais ser mantido, nem mesmo como ficção".
A perda desse equilíbrio não é apenas um tema literário, mas uma resposta a transformações históricas concretas: a industrialização acelerada, o advento da psicanálise, as revoluções científicas (Planck, Marconi, os irmãos Wright), e acima de tudo, as duas guerras mundiais. Frank descreve o romance do século XX como "uma forma em explosão em um mundo em explosão" — uma imagem que captura tanto a fragmentação formal quanto a violência histórica do período.
2. A Guerra como Cisão Fundamental
Para Frank, a Primeira Guerra Mundial é o evento que divide o século literário em duas metades. Três livros monumentais — Ulisses de Joyce, Em Busca do Tempo Perdido de Proust, e A Montanha Mágica de Mann — foram concebidos ou iniciados antes de 1914, mas foram radicalmente transformados pela experiência da guerra. O que antes era experimento formal tornou-se, depois da guerra, uma necessidade existencial.
O crítico Tim Adams, no The Guardian, resume bem este aspecto: "Os escritores do século XX são emboscados pela história". A guerra não apenas destruiu impérios e cidades, mas também corroeu a confiança nas estruturas narrativas que antes organizavam a experiência. O romance, para Frank, torna-se o lugar onde essa desintegração é não apenas documentada, mas formalmente incorporada.
3. O Romance como Forma Híbrida
Frank defende uma concepção do romance do século XX como essencialmente híbrido — "uma forma mal-nascida" (misbegotten form), nas palavras de Randall Jarrell que Frank cita com aprovação: "Um romance é uma narrativa em prosa de certa extensão com algo errado".
Longe de ser uma fraqueza, essa hibridez é, para Frank, a força do romance moderno. Ele existe no limiar entre autobiografia e ficção, entre história e mito, entre alta cultura e cultura popular. H.G. Wells, por exemplo, é celebrado não apesar de seu comercialismo, mas por causa dele: foi um "escritor abertamente comercial no início de uma era que seria definida pelo comercialismo crescente", mas também "supremamente acessível" e "supremamente engenhoso".
4. A Frase e o Parágrafo como Unidades Fundamentais
Uma das contribuições mais originais de Frank é sua insistência em olhar para o romance não apenas em sua totalidade estrutural, mas em suas menores unidades constitutivas. Como poeta, ele está atento à frase, ao parágrafo, à cadência — aos elementos que muitos críticos ignoram em favor de temas e estruturas narrativas.
Frank dedica atenção especial a Gertrude Stein, que "descobriu que colocar a frase no centro da escrita — uma frase que pode continuar e continuar ou ser cortada tão curta quanto possível, mas que de uma forma ou de outra, como uma sonda exploratória, tem precedência sobre a ideia da obra como um todo". Kafka, por sua vez, tem suas frases descritas como "todas sobre movimento", capturando "o sentido do tempo — mental, emocional, histórico — em voo".
5. A Ambivalência como Característica Definidora
Frank argumenta que o romance do século XX é marcado por uma ambivalência fundamental — uma oscilação entre desejo e desespero, entre a afirmação da vida e a consciência da morte, entre a experimentação formal e o luto pelo que foi perdido.
Essa ambivalência está presente já em Notas do Subsolo, com sua mistura de autodepreciação cínica e desejo desesperado de conexão. E persiste até o final do século, em livros como O Enigma da Chegada, de V.S. Naipaul, que Frank descreve como uma marcha "algo sombria" em direção a uma "nostalgia traumatizada e uma elegante desilusão".
Principais Análises por Autor
Dostoiévski: O Início do Século
Para Frank, o romance do século XX começa em 1864, com Notas do Subsolo. O livro de Dostoiévski "não se parece com nada tanto quanto um monte de vidro quebrado varrido". Sua estrutura — a primeira metade dominada por pensamentos e ideias do protagonista, a segunda por seu relato humilhante de um encontro com colegas de trabalho — sinaliza o início da fratura da narrativa que caracterizará o século seguinte.
Mas Frank vê mais em Dostoiévski do que apenas inovação formal. O "Homem do Subsolo" é o ancestral de uma linhagem de personagens — Meursault, Malte Laurids Brigge, tantos outros — que povoarão a ficção dos cem anos seguintes: solitários em seus buracos, em desacordo com a sociedade, definidos por sua recusa em se ajustar.
H.G. Wells: O Gênio Comercial
Uma das escolhas mais surpreendentes de Frank é dedicar um capítulo inteiro a H.G. Wells, um autor muitas vezes relegado à categoria de "ficção científica" e tratado com condescendência pela crítica literária. Frank faz uma defesa vigorosa de Wells, argumentando que suas "romances científicos" do início do século — A Máquina do Tempo, A Ilha do Dr. Moreau, O Homem Invisível, A Guerra dos Mundos — não são meros divertimentos, mas obras de crítica social aguda e de genuína profundidade filosófica.
Wells, para Frank, "inventou um novo tipo de ficção e um novo público para a ficção". Suas obras especulativas funcionam como críticas incisivas do mundo real, e seu estilo utilitário e acessível é, em si mesmo, uma conquista — não um fracasso em relação aos padrões de Henry James, mas uma recusa consciente desses padrões. Como Frank observa, Wells criticou James pelo que via como "evasões das realidades sociais (e cósmicas!)" — realidades que Wells abraçou com coragem.
Gertrude Stein: A Revolução da Frase
Frank dedica uma atenção especial a Gertrude Stein, cujo Três Vidas (1909) introduziu uma estrutura inteiramente nova para a frase. Stein, para Frank, é "tanto inventora quanto autora — algo muito americano de se ser".
O que Stein descobriu — e o que Frank articula com clareza — é que a frase poderia se tornar o centro da escrita, uma sonda exploratória que tem precedência sobre a ideia da obra como um todo. Sua técnica de repetição hipnótica dentro do parágrafo mudou a própria natureza da frase, pelo menos na ficção norte-americana. Frank conecta essa inovação a uma condição mais ampla que ele chama de "americanite" (Americanitis) — a inquietação, a provisionalidade, a polifonia que caracterizam a cultura americana como um todo.
Kafka: A Poesia do Movimento
Frank oferece uma leitura original de Kafka, focando menos em seus temas — alienação, burocracia, culpa — e mais em sua prosa em movimento. As frases de Kafka, escreve Frank, "são todas sobre movimento, e é no nível da frase, ou mesmo da oração, que ele opera sua verdadeira magia". Para Frank, o que define o "kafkiano" não são tanto os elementos de enredo, mas "suas frases, que capturam o sentido do tempo — mental, emocional, histórico — em voo e distinguem seu trabalho, tornando-o, pode-se dizer, um gênero de um".
Uma das comparações mais surpreendentes e bem-sucedidas de Frank é entre Kafka e Chaplin. Ambos são hilários e trágicos ao mesmo tempo. Kafka é "tão fluido e implacável em suas frases — o trocadilho é deliberado — quanto Chaplin ou Harold Lloyd enquanto deslizam pelo duto de lixo da história do século XX". Todos têm "a pose de um surfista em uma onda" — a descrição notável de Frank para a escrita de Kafka.
Virginia Woolf e James Joyce: Dois Caminhos
Frank trata Virginia Woolf e James Joyce em relação um ao outro, destacando como Mrs. Dalloway foi, em parte, uma resposta ao que Woolf via como as "vulgaridades" de Ulisses. Para Frank, se Os Mortos de Joyce só poderia ter acontecido em Dublin, Mrs. Dalloway só poderia ter acontecido em Mayfair. No entanto, eles compartilham uma linhagem comum.
Frank também faz uma observação importante sobre o significado de Joyce para a literatura irlandesa: Joyce revolucionou a própria linguagem não apenas porque, como exilado, não tinha mais para onde ir, mas porque "propôs uma nova maneira de falar e de ser irlandês". Leopold Bloom, judeu em Dublin, é contraposto com a selvageria do Ciclope reacionário de Ulisses, e é essa humanidade inclusiva que define o projeto joyciano.
Ralph Ellison: A Alma Existencial
Frank considera Homem Invisível, de Ralph Ellison, o romance que define o século americano. É aqui que Frank não apenas define o romance americano moderno, mas também "toda a história da América".
Ellison lutou para se libertar não apenas das correntes da escravidão, mas também das hipocrisias e mecanismos de controle tanto da esquerda quanto da direita política. Para Frank, o romance do século XX é uma constante afirmação da dignidade do self — e nenhum romance encarna isso mais completamente do que o de Ellison.
Citações Importantes
1. Sobre o Romance como Forma Híbrida
"The novel is a prose narrative of a certain length with something wrong with it." (Randall Jarrell, citado por Frank)
2. Sobre Dostoiévski e a Ruptura
Notas do Subsolo "resembles nothing so much as a swept-up heap of broken glass."
3. Sobre a Condição do Escritor no Século XX
"The writers of the 20th century are ambushed by history. They exist in a world where the dynamic balance between self and society that the 19th-century novel sought to maintain can no longer be maintained, even as a fiction."
4. Sobre a Escrita como Compulsão
Dostoiévski introduces a new conception of reality that is "associated with disruption, but also with compulsion: this is real writing, not literature, because it can't be helped."
5. Sobre Gertrude Stein e a Frase
Stein "putting the sentence at the center of writing, a sentence that can go on and on or be cut as short as can be, but that one way or another, as a kind of exploratory probe, takes precedence over the idea of the work as a whole."
6. Sobre Kafka e Chaplin
Kafka has "the poise of a surfer on a breaker" — uma imagem que captura o equilíbrio precário entre graça e desastre em sua prosa.
Recepção Crítica
Elogios
A recepção de mais estranho que a ficção foi amplamente positiva, com críticos destacando a ambição, a acessibilidade e a originalidade da obra.
The Guardian (Tim Adams) descreveu o livro como "the most engaging imagining of the progress of the 20th-century novel you will read" e elogiou a capacidade de Frank de "vividamente trazer à vida os próprios livros e o tempo e lugar específicos dos indivíduos que os criaram".
Kirkus Reviews concedeu uma resenha estrelada, chamando o livro de "academic yet accessible, with special appeal to avid readers of classic lit" .
Los Angeles Review of Books (Mitchell Abidor) foi ainda mais longe, afirmando que "Frank's sensibility and judgment are unequaled" e que o livro é de "inestimable value" .
Shelf Awareness elogiou a estrutura e a clareza: "Frank's analyses follow a consistent format, offering meaningful plot summary, ample quotation, and biographical material that helps situate the work in the writer's life and times" .
The Irish Times chamou o livro de "magisterial" e "a must-buy for anyone who takes more than a passing interest in fiction writing" .
Book Marks, agregador de resenhas, registrou avaliações positivas de publicações como The Wall Street Journal, The New Yorker, e The Times Literary Supplement .
Críticas e Pontos de Contenção
1. O Tratamento do Pós-Guerra
A crítica mais substancial vem da The Wall Street Journal, que observa que Frank parece "comparativamente pouco entusiasmado sobre as tendências do romance do pós-Segunda Guerra Mundial". Enquanto a urgência dos primeiros modernistas era "empurrar o romance para algum lugar novo e ousado", para os escritores após Auschwitz e o bombardeio de Hamburgo, a tarefa é "principalmente buscar razões para continuar". O crítico sugere que uma abordagem diferente — focada em autores como Thomas Pynchon ou Don DeLillo — poderia ter levado a "uma conclusão diferente e mais revigorada sobre a saúde do romance".
2. O Fim do Século e o Declínio da Centralidade Cultural
Frank conclui seu estudo com uma nota algo sombria: o romance do século XX é também a história de uma forma de arte que inovou brilhantemente em direção à sua própria marginalização. Há "algo essencialmente piririco sobre os triunfos de Ulisses de Joyce e O Homem sem Qualidades de Musil; eles não estabelecem nenhum modelo ou precedente funcional". A pergunta sobre o que aconteceu com o romance no século XXI permanece em aberto, e alguns críticos sentiram que Frank poderia ter abordado mais diretamente essa questão.
3. O Viés Pessoal e as Omissões
Frank é honesto sobre a natureza pessoal de suas escolhas — ele escreve, ele diz, sobre o que gosta. Mas isso inevitavelmente leva a omissões que alguns leitores considerarão problemáticas. A The Wall Street Journal observa que há apenas quatro escritores americanos que fazem "atos principais" no livro: Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Vladimir Nabokov e Ralph Ellison. Onde estão Faulkner? Onde está Toni Morrison? Onde está Philip Roth? A ausência de autores americanos do pós-guerra é uma das críticas mais frequentes.
4. A Questão do "Main Character Syndrome"
Uma crítica no The Common aponta para um problema mais estrutural: a tendência de Frank de tratar o romance como se fosse o único gênero que importava. Embora este seja o escopo declarado do livro, alguns leitores podem sentir falta de uma discussão mais ampla sobre como outras formas artísticas — cinema, música, poesia — interagiram com o romance ao longo do século.
5. A Dificuldade para Não-Iniciados
Embora Frank seja acessível para leitores familiarizados com o cânone, a Shelf Awareness observa que o livro "será mais significativo para leitores que possuem pelo menos alguma familiaridade com os romances que ele discute". Para quem está começando na literatura do século XX, o livro pode ser intimidante.
6. Repetição de Estilo
A Kirkus Reviews nota alguma repetição no estilo de Frank — por exemplo, ele descreve Kipling, Thomas Mann e D.H. Lawrence como "homens inquietos" em sequência. Embora isso seja um detalhe menor, aponta para uma tendência de Frank de usar certos padrões descritivos de forma recorrente.
Análise Crítica Pessoal
Mais estranho que a ficção é um livro que merece o lugar que já conquistou na crítica literária contemporânea. Sua força mais evidente é a capacidade de Frank de tornar acessível um corpo de conhecimento vasto e complexo sem nunca o simplificar ou banalizá-lo. Ele escreve como alguém que passou décadas em diálogo íntimo com esses textos e que agora os compartilha com o leitor como um amigo generoso, não como um professor pedante.
A originalidade de Frank está em seu foco na experiência do texto — na frase de Kafka que "captura o sentido do tempo em voo", no parágrafo de Stein que se torna uma "sonda exploratória". Há uma qualidade fenomenológica em sua crítica: ele nos ajuda a ver como esses livros realmente funcionam, em sua textura mais granular. Em uma era de crítica literária dominada por teoria e contexto, essa atenção à superfície verbal — à arte da frase — é revigorante.
Há, no entanto, tensões não resolvidas no livro. A mais importante é a relação entre o amor de Frank pela experimentação formal e seu reconhecimento de que essa experimentação levou o romance à marginalização cultural. Frank parece ao mesmo tempo celebrar a audácia de Joyce e Musil e lamentar que ela não tenha estabelecido "nenhum modelo ou precedente funcional". Essa ambivalência é honesta, mas permanece não resolvida — talvez porque não haja resolução fácil.
Outra tensão está entre a visão de Frank do romance como "forma em explosão" e seu próprio cânon, que é surpreendentemente convencional. Embora ele inclua autores não-canônicos como Anna Banti e Georges Perec, o coração do livro ainda é composto pelos mesmos nomes que dominam os currículos universitários há décadas: Joyce, Proust, Mann, Woolf, Kafka. Onde estão os romancistas populares? Onde estão os autores de ficção científica (além de Wells)? Onde estão os autores que deliberadamente rejeitaram o modernismo? A resposta de Frank seria que sua definição do romance do século XX é precisamente aquela que se formou em torno desses nomes — mas isso é um argumento circular.
A força mais duradoura do livro, no entanto, pode ser sua capacidade de fazer os leitores correrem para as estantes. Como observa Tim Adams, "não pode haver melhor prova de seu engajamento do que o fato de que ele me fez, capítulo por capítulo, procurar livros que eu não olhava há anos — as histórias de In Our Time de Hemingway, por exemplo, ou A Ilha do Dr. Moreau de H.G. Wells — e relê-los através de seus olhos, antes de me juntar novamente a ele em sua busca". Em uma época em que a crítica literária muitas vezes parece um fim em si mesma, esse entusiasmo contagioso é um dom raro.
Conclusão
Mais estranho que a ficção: Vidas do romance no século XX é um livro que faz jus à reputação de seu autor como um dos editores mais importantes da literatura contemporânea e uma das vozes mais lúcidas da crítica literária atual. Edwin Frank oferece uma visão abrangente, apaixonada e profundamente erudita do que o romance se tornou ao longo de um século de transformações radicais.
A tese central — que o romance do século XX é definido pela perda do equilíbrio entre self e sociedade, por sua resposta às catástrofes históricas, por sua experimentação formal frenética, e por sua ambivalência fundamental — é articulada com clareza e sustentada por análises detalhadas de trinta obras canônicas e menos conhecidas.
O livro não é para todos. Leitores que buscam uma história abrangente do romance no século XX podem sentir falta de discussões sobre autores importantes (Faulkner, Morrison, DeLillo). Leitores sem familiaridade com o cânone modernista podem se sentir perdidos em alguns momentos. E aqueles que preferem a teoria literária à "crítica descritiva" podem achar a abordagem de Frank excessivamente focada no texto em detrimento do contexto.
Mas para o leitor que ama os romances do século passado — ou que deseja amá-los — este livro é um guia incomparável. Frank nos lembra, a cada página, por que esses livros importam: não apenas como documentos históricos ou objetos de estudo acadêmico, mas como experiências vivas que ainda podem nos surpreender, nos perturbar, nos transformar. Como ele escreve, "to read them is to catch them in the act of thinking about the novel in the midst of writing a novel". E é esse ato — o romance pensando sobre si mesmo, refletindo sobre suas possibilidades, empurrando seus próprios limites — que Frank captura com tanta habilidade.
Mais estranho que a ficção é, no final, um livro sobre a persistência. A persistência do romance como forma, mesmo quando tudo conspira contra ele. A persistência da leitura como prática, mesmo quando o mundo parece estar se desfazendo. E a persistência de um crítico apaixonado que, ao longo de décadas de trabalho editorial e agora neste livro magnífico, nos ajuda a ver por que ainda importa.
Informações Bibliográficas
Campo | Informação |
Título original | Stranger Than Fiction: Lives of the Twentieth-Century Novel |
Título em português | Mais estranho que a ficção: O romance no século XX |
Autor | Edwin Frank |
Editora (EUA) | Farrar, Straus and Giroux |
Editora (Reino Unido) | Fern Press |
Data de Publicação | 2024 |
Páginas | 480 |
ISBN | 978-1911717201 |
Prêmios/Reconhecimentos | Kirkus Reviews (resenha estrelada); Shelf Awareness (resenha estrelada); The Guardian Best Books of the Year; The Irish Times Best Books of the Year |
Estrutura | 3 partes, aproximadamente 30 capítulos sobre autores individuais ou pares, mais prólogo e posfácio |
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