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sábado, 28 de março de 2026

28 de MARÇO- NO KINGS USA ! Reconstruindo a Democracia Americana: Entre a Raiz e a Ruptura

 



Há uma floresta que se ergue onde a democracia americana deveria florescer — mas suas árvores são silenciosas, suas raízes, cortadas. Harriet Rix, em The Genius of Trees, nos ensina que as árvores são "agentes engenhosos e surpreendentemente inventivos em uma grandiosa narrativa ecológica". Elas moldam o solo, regulam a água, influenciam o clima, constroem ecossistemas do zero. "Árvores manipulam elementos fundamentais, plantas, animais, bactérias, fungos e até mesmo a humanidade para alcançar seus objetivos". Se ao menos a democracia tivesse a resiliência das sequoias da Califórnia, que transformam microclimas com sua mera presença. Se ao menos o tecido cívico americano ainda possuísse a arquitetura subterrânea das redes de raízes que Rix descreve — esses sistemas vivos que conectam carvalhos em Devon, Inglaterra, em simbiose com fungos, criando comunidades de interdependência. 

Mas o que encontramos, quando escavamos o solo da vida pública americana, é um deserto. 

Alexis de Tocqueville, ao percorrer a América jacksoniana na década de 1830, vislumbrou algo que ele acreditava ser a pedra fundamental da democracia: a associação voluntária. Para ele, essas associações — não necessariamente políticas, mas fontes de significado e engajamento social — serviam a um duplo propósito. Elas protegiam a liberdade individual contra os poderes coercitivos do Estado e, simultaneamente, "mitigavam os perigos do individualismo desenfreado dentro da comunidade política". Tocqueville compreendeu que "a democracia não poderia sobreviver a menos que os cidadãos continuassem a participar ativamente, unindo-se a outros de mente e interesses semelhantes para tratar de questões de interesse comum". 

O que ele testemunhou foi a vitalidade de uma nação que se associava: igrejas, sociedades de benefício mútuo, grupos cívicos, sindicatos, grêmios literários — uma tapeçaria de engajamento que transformava estranhos em concidadãos. 

O que restou disso? 

Robert Putnam documentou, em Bowling Alone, o colapso silencioso dessa tradição. "Putnam traçou famosamente o declínio da demanda americana por engajamento cívico na segunda metade do século XX — e o colapso comunitário que ele produziu". As evidências são devastadoras: em 2008, quase dois terços dos lares americanos doavam para instituições de caridade. Em 2018, menos da metade o fazia. O americano que outrora integrava ligas de boliche, participava de reuniões de pais e mestres, engajava-se em sociedades fraternais, agora assiste, solitário, ao espetáculo da política pela tela de um smartphone. 

Theda Skocpol, em Diminished Democracy, aprofunda o diagnóstico. A partir da década de 1960, as associações voluntárias nacionais, federadas, interclassistas e movidas por voluntários — que por décadas estruturaram a vida cívica americana — entraram em colapso. Em seu lugar, surgiram "grupos de defesa de causas liderados por profissionais em Washington, D.C.". A participação tornou-se passiva: membros são reduzidos a endereços em listas de mala direta, enquanto funcionários assalariados gerenciam o trabalho. A conclusão de Skocpol é inquietante: "os elos vitais da vida associacional da nação se desgastaram, e precisamos encontrar maneiras criativas de reparar esses elos se a América quiser evitar se tornar um país de gerentes e espectadores manipulados, em vez de uma comunidade nacional de concidadãos democráticos". 

É nesse terreno árido — de raízes cortadas e solo empobrecido — que Nicholas F. Jacobs e Daniel M. Shea plantam sua análise em The Rural Voter: The Politics of Place and the Disuniting of America. Eles documentam uma fratura que não é apenas política, mas ontológica: "a divisão entre a América rural e urbana é vasta e crescente. Mapas eleitorais separando vermelhos profundos de azuis vívidos expõem não apenas divisões políticas, mas uma nação à beira da desunião". 

Os dados que mobilizam são impressionantes: duzentos anos de padrões de votos, informações censitárias, e a maior pesquisa já realizada com americanos rurais — 10.000 entrevistados, confrontados com 5.000 não-rurais. Sua descoberta central desafia narrativas simplistas: "os americanos rurais hoje não são inerentemente conservadores. Em vez disso, seu voto é a consequência de um ressentimento cultural distinto". Os eleitores rurais, argumentam, acreditam ser "os últimos guardiões de um modo de vida exclusivamente americano, uma cultura enraizada no trabalho duro, na família, no amor ao país e ao lugar". 

Não se trata, portanto, de ideologia no sentido tradicional. Trata-se de identidade sitiada. 

 

Para compreender a natureza dessa ferida — e porque ela sangra em votos republicanos consistentes, apesar das evidências de que as políticas desse partido frequentemente prejudicam as comunidades rurais — precisamos adentrar o território que Arlie Russell Hochschild explora em Strangers in Their Own Land: Anger and Mourning on the American RightHochschild passou cinco anos imersa na Louisiana, o coração do petróleo e da indústria química, um estado que figura consistentemente entre os piores do país em saúde, educação, expectativa de vida e bem-estar infantil. 

Ela descobriu que a adesão ao Tea Party e à direita radical não era primariamente uma questão de política econômica ou mesmo de religião, embora esses fatores importassem. Era, fundamentalmente, uma questão de história profunda (deep story) — "uma história de 'como se sente'. Como um sonho, é contada na linguagem dos símbolos. Remove o julgamento. Remove o fato. Diz-nos como as coisas se sentem". 

Hochschild construiu essa história profunda para representar "as esperanças, medos, orgulho, vergonha, ressentimento e ansiedade na vida daqueles com quem conversei". E testou com seus amigos do Tea Party, que confirmaram: essa era a experiência deles. 

Qual é essa história profunda? 

É a história de esperar em uma fila. Você trabalhou a vida inteira, seguiu as regras, jogou o jogo. Mas agora, pessoas que você sente que não seguiram as regras — minorias, imigrantes, refugiados — estão furando a fila. E o governo federal, que deveria proteger a fila, está ajudando-os a furar, enquanto os ignora. A indignação não é apenas por recursos; é por honraHochschild observa: "Os adeptos do Tea Party pareciam chegar à sua antipatia pelo governo federal por três vias: através de sua fé religiosa (o governo cerceava a igreja, sentiam), através do ódio aos impostos (que viam como muito altos e progressivos demais), e através de seu impacto em sua perda de honra". 

O que Hochschild revela é um paradoxo trágico: os mesmos eleitores que se beneficiam diretamente de programas governamentais — muitas vezes vitais para sua sobrevivência em regiões empobrecidas — sentem-se roubados por esses programas. "Virtualmente todo advogado do Tea Party que entrevistei para este livro se beneficiou pessoalmente de um grande serviço governamental ou tem familiares próximos que se beneficiaram". No entanto, eles votam consistentemente contra o Estado que os mantém vivos. 

Por quê? 

Porque, como explica Hochschild, "o direito busca libertação das noções liberais do que eles deveriam sentir — felizes pelo recém-casado gay, tristes pela situação do refugiado sírio, não ressentidos em pagar impostos. A esquerda vê preconceito". A direita sente que há uma "cobertura PC" (politicamente correta) de sua história real, uma tentativa liberal de ditar não apenas o que pensar, mas como sentir. 

Essa dinâmica emocional não é acidental. Ela é fabricada, amplificada e instrumentalizada por atores com interesses profundos em manter a divisão. E aqui o argumento retorna ao ponto de partida: a destruição das associações civis que Tocqueville tanto valorizava deixou um vácuo que está sendo preenchido não por comunidades orgânicas, mas por máquinas de comunicação de massa e interesses econômicos concentrados. 

Hochschild documenta como, na Louisiana, o desastre ambiental causado pela indústria petroquímica — a perda de um campo de futebol de pântano a cada hora, a contaminação do ar e da água, os índices alarmantes de câncer — foi transformado em uma narrativa de agravamento contra o governo federal. Os eleitores que vivem em "condados com maior exposição à poluição tóxica" são mais propensos a acreditar que os americanos "se preocupam demais" com o meio ambiente e que os EUA estão fazendo "mais do que suficiente" sobre isso. Eles também são mais propensos a se descrever como republicanos ferrenhos. 

O que explica essa dissonância cognitiva? Parte da resposta está em um fenômeno que Hochschild chama de "muro de empatia" (empathy wall) — "um obstáculo para a compreensão profunda de outra pessoa, que pode nos fazer sentir indiferentes ou mesmo hostis àqueles que têm crenças diferentes ou cuja infância está enraizada em circunstâncias diferentes". Mas parte também está na captura do Estado por interesses privados que, como as oligarquias no texto anterior, veem na divisão um instrumento de dominação. 

A história que Jindal esmaga, que a indústria reescreve, que a mídia conservadora amplifica, é a história de que os verdadeiros responsáveis pela devastação — as empresas petroquímicas que poluíram o ar, envenenaram a água, e destruíram as zonas úmidas — são os mesmos que patrocinam a narrativa de que o governo é o inimigo. Em 2014, quando a Comissão de Controle de Enchentes do Sudeste processou 97 empresas petroquímicas por não cumprirem sua obrigação contratual de reparar os danos ambientais, o governador Jindal esmagou a comissão, removeu seus membros e, em um movimento sem precedentes, a legislatura votou para anular retroativamente o direito de processar. Os custos dos reparos foram transferidos para os contribuintes. 

 

A democracia americana não está sendo destruída apenas pela polarização ou pela desinformação. Está sendo destruída porque o solo no qual ela deveria florescer foi envenenado. As raízes que Tocqueville identificou como essenciais — as associações civis que forjam cidadãos, que ensinam a arte de deliberar com estranhos, que criam confiança e capital social — foram arrancadas. Putnam documentou o colapso. Skocpol mostrou a substituição do voluntariado por profissionalização e passividade. 

O que resta é uma paisagem onde os cidadãos, desprovidos dos laços comunitários que outrora mediavam sua relação com o poder, tornam-se presas fáceis de histórias profundas que os mobilizam pela raiva e pelo ressentimento. Histórias que os convencem de que seu verdadeiro inimigo não é o poluidor que destrói seu ambiente, mas o imigrante que fura a fila. Não é o bilionário que compra leis, mas o funcionário público que recebe seu salário. Não é a indústria que contamina seu ar, mas o governo que tenta regulá-la. 

Hochschild captura essa ironia com precisão cirúrgica: "A escolha não é, argumenta Reich, entre um mercado governado e um mercado não governado, mas entre um mercado governado por leis que favorecem empresas monopolistas e um governado por aquelas que favorecem pequenas empresas". A direita vê na regulação a tirania; não vê que a ausência de regulação é apenas uma forma diferente de tirania — a dos interesses privados sobre o bem comum. 

No início deste texto, evoquei as árvores de Harriet Rix: seres que "manipulam elementos fundamentais" e "constroem ecossistemas inteiros do zero". Rix nos lembra que "compartilhamos um mundo com as árvores e uma necessidade de sobrevivência". Mas o que aprendemos com as árvores, se estivermos dispostos a ouvir, é que a sobrevivência não é individual. É ecossistêmica. As raízes das sequoias se entrelaçam sob a terra. Os carvalhos se comunicam através de redes de fungos. A floresta não é uma coleção de indivíduos solitários competindo por recursos; é uma comunidade de interdependência. 

A democracia, Tocqueville nos ensinou, é precisamente isso: uma floresta de associações, uma teia de compromissos mútuos, um ecossistema de confiança. 

O que estamos testemunhando nos Estados Unidos hoje é o desmatamento sistemático desse ecossistema. E, como Rix documenta, quando a floresta morre, o solo morre. Quando o solo morre, a água não se regula. Quando a água não se regula, o clima muda. Quando o clima muda, todos perecem. 

A pergunta que ecoa tanto na Louisiana de Hochschild quanto na América rural de Jacobs e Shea é a mesma que ressoava no texto anterior: quem tem o direito de contar a história? Para os eleitores do Tea Party, a história que contam a si mesmos é a de traídos — traídos por um governo que os abandonou, por uma elite que os despreza, por uma esquerda que dita o que devem sentir. Mas essa história foi escrita por aqueles que mais se beneficiam com sua raiva: as indústrias que poluem seu ar, os bilionários que compram suas leis, os estrategistas políticos que transformam ressentimento em votos. 

Há uma resposta possível, e ela está na metáfora com que começamos. As árvores, escreve Rix, não são "vítimas de nossa negligência". São agentes. Moldam ativamente seu ambiente. Constroem ecossistemas. Se a democracia americana será destruída ou reconstruída depende de se os cidadãos — rurais e urbanos, de direita e de esquerda — se reconhecerão não como competidores na fila, mas como raízes entrelaçadas na mesma floresta. 

A história não se apaga, não se compra, não se enterra. Os que hoje lucram com a divisão também serão escritos — e não como heróis. Serão registrados como aqueles que, tendo o exemplo da floresta diante de si, escolheram o deserto. Que, tendo as ferramentas para construir comunidade, preferiram a solidão. Que, tendo a chance de semear democracia, optaram pelo veneno. 

Resta-nos a pergunta final, a mais urgente de todas: se as árvores podem, em seu silêncio, construir florestas, por que os humanos, em sua fúria, só sabem destruí-las? E o que acontecerá quando aqueles que foram silenciados — os poluídos, os esquecidos, os que esperam na fila — finalmente perceberem que sua raiva foi comprada, sua história foi roubada, e sua voz foi o único instrumento que sempre lhes pertenceu? 

Talvez, então, a verdadeira floresta comece a crescer. 

 

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