Publicado em junho de 2024 pela Penguin Press, Night Flyer é o primeiro volume da série "Significations", um megaprojeto intelectual liderado por Henry Louis Gates Jr. que reúne autores contemporâneos para analisar a vida e o significado de figuras da cultura negra sob uma ótica moderna . A obra chega precedida pela reputação de sua autora, Tiya Miles, historiadora da Universidade de Harvard, MacArthur Fellow e vencedora do National Book Award por seu livro anterior, All That She Carried .
O grande diferencial de Night Flyer está em sua proposta metodológica. Miles não pretendeu escrever mais uma biografia tradicional de Harriet Tubman — figura que já foi exaustivamente documentada por autoras como Kate Larson e Catherine Clinton . Em vez disso, ela construiu o que denomina uma "biografia espiritual" ou "narrativa eco-espiritual", focada em dois pilares fundamentais da experiência de Tubman que haviam sido negligenciados pela historiografia convencional: sua fé cristã profunda e sua relação íntima com o mundo natural .
Como a própria autora revela, sua intenção inicial era escrever uma biografia de viés ambiental, explorando a consciência ecológica dos escravizados. No entanto, ao revisitar as fontes primárias — os relatos de vida registrados por abolicionistas brancas no final do século XIX —, Miles foi "derrubada" pela centralidade da espiritualidade na vida de Tubman. "Se há uma coisa que podemos realmente saber sobre Tubman, é que ela era uma mulher de fé profunda", afirma a autora .
Estrutura e Abordagem Metodológica
O livro está organizado em torno de elementos simbólicos que orientaram a trajetória de Tubman: a água, as estrelas, o deserto, os sonhos, o voo, a libertação e o cuidado . Essa estrutura poética reflete a decisão de Miles de não impor uma narrativa cronológica rígida, mas sim seguir os contornos temáticos da própria experiência de sua protagonista.
Uma das estratégias mais inovadoras de Miles é situar Tubman dentro de uma "cultura de fé feminina negra" mais ampla . Ao longo do livro, ela estabelece paralelos entre a experiência de Tubman e os relatos espirituais de outras mulheres negras evangelistas da época — Old Elizabeth, Jarena Lee, Zilpha Elaw e Julia Foote — todas nascidas na escravidão, todas portadoras de algum tipo de sofrimento físico que catalisou suas experiências espirituais, e todas chamadas por Deus para pregar e agir contra a opressão . Essa abordagem permite a Miles combater a representação isolada e "mágica" de Tubman que prevalece no imaginário popular, mostrando que ela pertencia a uma tradição coletiva de resistência feminina negra.
Miles também enfrenta honestamente o desafio metodológico imposto pelo analfabetismo de Tubman. Como ela observa, todas as fontes disponíveis são "fontes alagadas" — registros produzidos por mulheres brancas abolicionistas que, apesar de bem-intencionadas, "não podiam contar a história de Tubman com a plenitude, clareza e profundidade filosófica que Tubman teria se a tivesse escrito ela mesma" . A autora opta por não ignorar essa mediação, mas sim por trabalhar com ela criticamente, reconhecendo as limitações do arquivo enquanto extrai dele o que é possível saber sobre a interioridade de sua protagonista.
Principais Temas e Citações
1. A Infância e as Origens da Fé
Miles dedica atenção significativa aos primeiros anos de Tubman, nascida como Araminta "Minty" Ross em 1822, em Dorchester County, Maryland, filha de Harriet "Rit" Green e Ben Ross, ambos escravizados em plantações vizinhas . A autora pinta um quadro comovente das experiências formativas de Minty: desde os quatro ou cinco anos, ela foi "alugada" para trabalhar em outras propriedades, separada de sua mãe, submetida a condições brutais .
"Quando ela era enviada para longe, Minty orava. Na segunda casa para onde foi enviada como trabalhadora infantil forçada, ela estava aterrorizada de estar naquela casa grande com pessoas brancas, até mesmo de aceitar um copo de leite que lhe ofereciam. Em vez de aceitar o leite — mesmo estando com sede — ela se escondia na arquitetura da casa e orava" .
Essas experiências precoces de separação e vulnerabilidade, argumenta Miles, não apenas forjaram o caráter de Tubman, mas também estabeleceram o padrão de sua relação com Deus como um refúgio constante . Seus pais, ambos cristãos devotos, foram modelos nesse processo, ministrando a ela ensinamentos sobre uma relação com Deus que ajudava a discernir o certo do errado .
2. O Trauma e a Transformação Espiritual
O evento central da juventude de Tubman — e um dos pontos mais discutidos por Miles — foi o traumatismo craniano sofrido na adolescência. Enquanto acompanhava uma cozinheira a uma loja, Tubman testemunhou um feitor perseguir um menino escravizado. Quando o feitor atirou um peso de duas libras em direção ao menino, Tubman instintivamente interpôs-se e foi atingida na cabeça, fraturando o crânio .
As sequelas foram permanentes: desmaios súbitos, dores de cabeça intensas e episódios de narcolepsia que os médicos da época não conseguiam explicar. Sintomas consistentes com o diagnóstico moderno de epilepsia do lobo temporal . No entanto, em vez de interpretar essa condição apenas como uma deficiência debilitante, Miles mostra como ela "supercarregou sua vida espiritual" .
A "capacidade física diminuída coincidiu com 'antenas espirituais' extremamente afinadas" .
Tubman passou a ter visões, sonhos proféticos e conversas com Deus que, para ela, eram tão reais quanto o mundo físico. Em um dos episódios mais notáveis, ela sonhou que voava "sobre campos, cidades, rios e montanhas, olhando para eles como um pássaro" — um sonho que prefigurava com precisão as paisagens geográficas de Maryland que ela ainda não havia visto fisicamente . Essa experiência de "voar" à noite — que inspirou o título do livro — tornou-se uma metáfora central para sua existência como condutora da Underground Railroad.
Miles estabelece um paralelo crucial com outras mulheres negras da época: Zilpha Elaw sobreviveu milagrosamente a uma queda que resultou em sua capacidade de ter conversas diretas com Deus; Julia Foote perdeu um olho, o que a levou a um "lugar secreto de oração" e à conversão espiritual profunda . Em todas essas trajetórias, o sofrimento físico não é negado ou romantizado, mas compreendido como um terreno no qual a experiência espiritual floresce.
3. A Oração como Ação Política
Um dos episódios mais contundentes narrados por Miles envolve a oração de Tubman pelo proprietário que planejava vendê-la. Edward Brodess, doente e impaciente com a recuperação de Tubman após sua lesão, decidiu vendê-la para o sul, o que significava separação definitiva de sua família .
Tubman, segundo seu próprio relato registrado por Sarah Bradford, inicialmente orou pela conversão de Brodess:
"Eu não fazia nada além de orar pelo velho patrão. 'Oh, Senhor, converta o velho patrão. Mude o coração daquele homem e faça dele um cristão.' Logo ouvi que, assim que eu pudesse me mover, eu seria enviada com meus irmãos na corrente de grilhões para o extremo sul. Então mudei minha oração, e disse: 'Senhor, se você nunca vai mudar o coração daquele homem, mate-o, Senhor, e tire-o do caminho...' A próxima coisa que soube foi que ouvi que ele estava morto" .
Edward Brodess morreu em 7 de março de 1849, aos 47 anos . Para Tubman, esse evento não foi uma coincidência, mas uma resposta divina que consolidou sua crença na eficácia da oração e em seu papel como instrumento da vontade de Deus. Miles trata esse episódio com a delicadeza que ele exige, recusando-se a reduzi-lo a "magia" ou a explicá-lo inteiramente — deixando em aberto a questão que ela mesma formula: "se a morte de Brodess foi a vontade de Deus ou o cumprimento de uma maldição" .
4. A "Pragmática Luminosa": Fé e Conhecimento do Mundo Natural
Uma das contribuições conceituais mais originais de Miles é o termo "pragmática luminosa" (luminous pragmatism), que captura a dupla natureza da ação de Tubman .
A "luminosidade" refere-se à dimensão espiritual: a sensação de luz, de elevação acima das circunstâncias, a comunicação direta com Deus que guiava suas decisões. A "pragmática" refere-se à competência terrena: a capacidade de ler paisagens, encontrar água e alimento, entender para onde as trilhas e estradas levavam, navegar pelos pântanos e florestas .
Miles atribui essa competência ecológica à formação de Tubman com seu pai, Ben Ross. Após obter sua liberdade em 1840, Ben contratou sua filha adolescente para trabalhar em sua equipe de extração de madeira . Foi nesse contexto que Araminta absorveu:
"novas informações sobre árvores, plantas, clima e comportamento animal, enquanto aprimorava suas habilidades de leitura de paisagens e pessoas" .
Para Tubman, a floresta não era apenas um espaço de fuga, mas um "refúgio espiritual" — um lugar onde "ela podia se sentir mais livre" . Essa conexão com a natureza era também uma rejeição ao trabalho doméstico, que a fazia sentir-se "sufocada, tolhida e tratada com condescendência" .
5. A Minoria na Underground Railroad
Miles enfrenta a dimensão mais lendária da vida de Tubman — seus 13 retornos ao Sul para libertar aproximadamente 70 pessoas — com um olhar que combina admiração e honestidade intelectual. Ela reconhece que as fontes disponíveis não permitem explicar completamente como Tubman conseguiu nunca perder uma única pessoa sob sua condução .
Em um episódio particularmente tenso, Tubman e seu grupo perceberam que caçadores estavam diretamente em seu rastro. Sua resposta imediata foi ordenar uma pausa para oração. Depois de ouvir, ela se lembrou subitamente de um local próximo onde poderiam se esconder . Para Miles, esses momentos revelam:
"não apenas quão potente era sua vida interior com Deus, mas também que ela estava trazendo outras pessoas para essa vida interior, mostrando-lhes nesses momentos de perigo máximo: 'Devemos nos voltar para Deus, e haverá proteção, e haverá ajuda'" .
A historiadora admite francamente sua dificuldade com esse aspecto da narrativa:
"Como historiadora, eu luto com isso. Como tudo isso pôde acontecer? Não fazia sentido. […] Eu nunca consegui encontrar uma maneira de perfurar o mistério do que ela fez. Só posso dizer que ela disse que era de Deus, e ela nunca perdeu uma única pessoa que estava trabalhando para ajudar a libertar" .
Ao optar por "deixar que o mistério permaneça como mistério" , Miles faz uma escolha metodológica significativa: ela recusa a tentação de desencantar a narrativa ou de reduzir a experiência religiosa de Tubman a um fenômeno sociológico explicável. Essa decisão tem sido interpretada por alguns críticos como uma recusa em classificar a experiência de Tubman como meramente "mágica", mantendo-a em sua especificidade histórica e religiosa .
6. A "Mulher Obeah" e a Tradição Afro-Diaspórica
A análise de Miles também incorpora as dimensões sincréticas da espiritualidade de Tubman, que combinava convicção cristã com elementos de tradições religiosas da África Ocidental e nativas americanas . A autora sugere que Tubman pode ser compreendida, em certa medida, como uma "mulher obeah" — praticante de sistemas espirituais crioulos que incluíam o uso de raízes encantadas, saquinhos de terra e outros materiais sagrados como formas de proteção .
Essa tradição, praticada por povos escravizados como forma de resistência à opressão, incluía também o conhecimento de medicina herbal — que Tubman utilizaria mais tarde como enfermeira durante a Guerra Civil, cuidando de soldados negros feridos . Ao trazer essa dimensão à tona, Miles inscreve Tubman em uma linhagem espiritual que transcende o cristianismo institucional sem negar sua identidade cristã fundamental.
7. A Vida Após a Guerra: Cuidado e Comunidade
A narrativa de Miles não termina com a Guerra Civil ou com os feitos heroicos da Underground Railroad. Ela dedica atenção significativa à vida posterior de Tubman, um período frequentemente ofuscado pela fama de suas missões de libertação.
Após a guerra, Tubman estabeleceu-se em Auburn, Nova York, em terras que conseguiu adquirir. Lá, construiu uma casa para acolher idosos negros necessitados — um ato que muitos contemporâneos consideravam "irracional", dada sua própria pobreza . Miles enfatiza que, mesmo nessa fase:
"Tubman nunca estava sozinha. Eles faziam parte de seu círculo de cuidado. Traziam-lhe comida e dinheiro e ajudavam a realizar sua visão" .
A autora também reflete sobre a famosa fotografia de Tubman em idade avançada — uma mulher idosa coberta por um xale, sentada em uma cadeira. Longe de ser uma imagem de fragilidade passiva, Miles interpreta essa fotografia como um documento de "autoposse":
"Uma leitura positiva é que Tubman viveu até uma idade muito avançada, uma mulher muito sábia. Ela está estabelecida e clara sobre si mesma. […] O que não vemos é que ela está sendo fotografada em terras que possui, em frente a uma casa que construiu para cuidar de idosos negros" .
Críticas à Obra
Pontos Fortes
Inovação Metodológica: O grande mérito de Night Flyer é escapar da armadilha de simplesmente repetir os fatos já conhecidos sobre Tubman. Ao construir uma "biografia espiritual" e situar Tubman dentro de uma tradição coletiva de mulheres negras de fé, Miles oferece uma contribuição original que dialoga com os estudos de gênero, religião afro-americana e história ambiental .
Humanização da Figura Lendária: Miles consegue o que poucos biógrafos lograram: trazer Tubman de volta à terra sem diminuir sua grandeza. Ao enfatizar suas vulnerabilidades — a solidão da infância, as sequelas do traumatismo, as dificuldades econômicas, a exaustão —, ela nos apresenta uma figura acessível, cujas conquistas se tornam ainda mais impressionantes porque sabemos o preço que custaram .
Abordagem Interdisciplinar: A combinação de história, estudos ecológicos, análise literária dos relatos de mulheres evangelistas e reflexão teológica faz de Night Flyer um modelo do que os estudos negros podem oferecer quando transitam entre disciplinas .
Tratamento da Espiritualidade sem Reducionismo: Em um meio acadêmico frequentemente cético em relação à experiência religiosa, Miles oferece um modelo de como levar a sério a fé de uma figura histórica sem reduzi-la a epifenômeno social ou psicológico. Ao declarar que "deixou o mistério permanecer", ela honra a integridade da experiência religiosa de Tubman .
Relevância Contemporânea: Como Miles mesma observa, o livro parece "falar ao nosso momento" . Ao retratar uma figura que enfrentou a opressão sistêmica, o colapso de estruturas de proteção e a necessidade de construir comunidades de cuidado, Night Flyer oferece um modelo de resistência e perseverança para um presente marcado por crises múltiplas.
Críticas Possíveis
A Questão das Fontes: Alguns críticos apontam que a dependência de Miles das biografias escritas por mulheres brancas abolicionistas (como Sarah Bradford) coloca um limite inescapável em sua análise. Embora ela reconheça esse problema abertamente, não é possível transcendê-lo completamente — e o leitor fica, em última instância, refém da mediação dessas fontes .
Tensão entre Fé e Análise Histórica: Para leitores secularizados ou céticos em relação à experiência religiosa, a decisão de Miles de não "perfurar o mistério" pode parecer uma evasão analítica. Um crítico mais empirista poderia argumentar que cabe ao historiador buscar explicações naturais para fenômenos como os sucessos de Tubman na Underground Railroad, em vez de deixá-los como "mistérios" inexplicáveis.
Generalização da Categoria "Mulher de Fé": Embora a contextualização de Tubman entre outras mulheres negras evangelistas seja uma contribuição importante, alguns podem questionar se a fé de Tubman — com seus elementos sincréticos, suas visões e sua relação com a natureza — é inteiramente capturada pela tradição do evangelismo feminino negro do século XIX.
Ausência de Análise Crítica da Teologia de Tubman: Miles descreve a fé de Tubman com simpatia, mas não se engaja criticamente com suas dimensões teológicas — por exemplo, a oração pela morte de Brodess levanta questões sobre violência e justiça que poderiam ter sido exploradas mais profundamente.
Estrutura Temática vs. Cronológica: A organização do livro em torno de temas poéticos (a água, as estrelas, o deserto) pode, para alguns leitores, dificultar o acompanhamento da sequência cronológica dos eventos. Embora isso sirva ao propósito de uma "biografia espiritual", pode frustrar quem busca uma narrativa linear.
Conclusão
Night Flyer representa uma contribuição significativa para a vasta bibliografia sobre Harriet Tubman, não porque revela novos fatos sobre sua vida, mas porque oferece uma nova lente através da qual compreendê-la. Ao colocar a fé — em suas dimensões cristãs, sincréticas, ecológicas e comunitárias — no centro da análise, Tiya Miles nos apresenta uma Tubman mais humana e, paradoxalmente, mais extraordinária.
A autora resume sua intenção de forma pungente:
"Tentei segurar Harriet Tubman — com ternura e honestidade — em seu gênio, coragem, vulnerabilidade, fé e falhas. E aqui, no final, liberto sua história de volta para o poço mundial de mulheres sábias, sabendo que ela não tolerará nosso escrutínio por muito tempo" .
Essa passagem captura algo essencial sobre o projeto de Miles: ela não pretende fixar Tubman em um retrato definitivo, mas sim oferecer uma interpretação que reconhece a resistência de sua protagonista a ser completamente capturada pelo olhar histórico.
A pergunta que Miles coloca no início — por que Tubman fazia o que fazia? — recebe uma resposta que desafia tanto a historiografia secular quanto a hagiografia religiosa: Tubman agia porque acreditava que Deus a guiava, porque conhecia a paisagem como poucos, porque pertencia a uma tradição de mulheres negras que transformaram sofrimento em resistência, e porque, acima de tudo, escolhia não agir sozinha. Em um momento de crises múltiplas — ambientais, políticas, sociais —, essa lição sobre a combinação de fé radical, conhecimento do mundo e comunidade de cuidado ressoa como um convite urgente.
Como observou a crítica do BookPage: "Com Night Flyer, Tiya Miles parece transmitir o peso da mão e do coração de sua protagonista" . É essa transmissão — que ultrapassa a informação factual para alcançar uma forma de presença — que faz deste livro uma leitura indispensável não apenas para interessados em Harriet Tubman, mas para todos que buscam compreender como a fé, a resistência e o cuidado podem coexistir em um mesmo modo de estar no mundo.
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