SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 26 de março de 2026

A literatura que nos ensina o presente e sobre quem somos no Século XXI em épocas de IA! Por Egidio Guerra.


O Romance como Diagnóstico de uma Época.

Quando Edwin Frank, editor da NYRB Classics e autor de Mais estranho que a ficção, propôs que o romance do século XX foi definido pela perda do equilíbrio entre o self e a sociedade, ele apontou para um fenômeno que se aprofunda, não se resolve, nas décadas seguintes. Se os modernistas do início do século responderam à fragmentação do mundo com a fragmentação da forma, os escritores que emergiram após 1945 herdaram não apenas um mundo em ruínas, mas também a consciência de que essas ruínas eram, em grande medida, obra da própria civilização que se pretendia civilizada. 

Este ensaio propõe uma leitura da literatura do pós-guerra até o ano de 2026 a partir de uma premissa metodológica inspirada por Frank: o romance contemporâneo se constitui como um diagnóstico do presente — uma forma que, ao narrar, também interpreta, questiona e, em alguns casos, antecipa as transformações de nosso modo de estar no mundo. Partindo de Philip Roth e Jenny Erpenbeck como figuras centrais, mas estendendo a análise a outras vozes que definem a literatura do nosso tempo, buscarei mostrar como a ficção pós-1945 se tornou o espaço privilegiado para a reflexão sobre as feridas que não cicatrizam, as identidades que se fragmentam e os futuros que se anunciam como catastróficos ou, talvez, ainda salvadores. 

 

Parte I: Philip Roth e a Desconstrução do Sonho Americano 

A Virada do Século: Pastoral Americana (1997) 

Publicado em 1997, Pastoral Americana de Philip Roth marcou uma virada decisiva na literatura americana do pós-guerra. O romance, que o crítico David Gooblar identifica como o início da "última fase" da carreira de Roth, inaugurou uma trilogia dedicada à desconstrução do mito fundador dos Estados Unidos: o sonho americano como promessa de mobilidade social e integração. 

A escolha do título é, ela própria, uma ironia amarga. "Pastoral" evoca um gênero clássico de idealização da vida rural, da harmonia entre homem e natureza, da inocência perdida. Mas o que Roth oferece é, nas palavras da crítica Cristina Chevereșan, "uma imagem desencantada da América, onde o idealismo e o radicalismo se chocam contra o pano de fundo dos anos 1960 ideologicamente fraturados". Seymour "SwedeLevov, o protagonista, parece inicialmente incorporar o sonho americano em sua forma mais pura: atleta brilhante, herdeiro de uma fábrica de luvas em Newark, casado com uma ex-miss Nova Jersey, pai de uma filha adorada. Mas é precisamente essa perfeição aparente que se revela como a fonte de sua ruína. 

O romance captura o momento em que "Americana" — a paisagem idealizada do meio-oeste, o consenso do pós-guerra, a crença na mobilidade social — é substituída por "real time" — a violência dos anos 1960, o terrorismo doméstico, a fragmentação política que define o presente. A filha de LevovMerry, explode uma bomba no correio local, matando um médico, e desaparece na clandestinidade. O pai que tudo fez para se integrar à sociedade americana vê sua criação se rebelar contra tudo o que ele representa. 

Chevereșan observa que o romance é "um exemplo clássico de transmissão cultural fracassada: a transferência e transformação de valores, ideias e informações nas vidas de Seymour Levov, sua família, sua comunidade mostram-se governadas por perdas, representações equivocadas e gradual declínio na desordem". A passagem emblemática que ela destaca resume a encruzilhada moral do romance: "Talvez o melhor fosse esquecer de ter razão ou não sobre as pessoas e apenas aproveitar a viagem". É uma frase que, em sua aparente resignação, esconde uma sabedoria amarga: a impossibilidade de conciliar as verdades conflitantes que dividem uma família, uma nação, uma época. 

A Crítica do Liberalismo Americano 

Pastoral Americana não é apenas um romance sobre uma família em crise; é também uma crítica contundente do liberalismo americano do pós-guerra. Andy Connolly, em Philip Roth and the American Liberal Tradition, argumenta que o romance expõe os limites de uma visão de mundo que acreditava que o progresso social poderia ser alcançado através do trabalho árduo, da assimilação cultural e da confiança nas instituições. Seymour Levov é o liberal na acepção clássica do termo: acredita na meritocracia, no diálogo, na capacidade de superar diferenças através do entendimento mútuo. O que ele não consegue compreender é que sua filha — e a geração que ela representa — rejeita esses valores não por ignorância, mas por convicção. 

A crítica Brett Ashley Kaplan, em Jewish Anxiety and the Novels of Philip Roth, acrescenta uma dimensão adicional: a identidade judaica de Levov é, ao mesmo tempo, o segredo de seu sucesso (a ética de trabalho, o empreendedorismo) e a fonte de sua insegurança. Ele se esforça para ser "apenas americano", para abandonar as marcas do gueto judeu de Newark, mas é precisamente essa tentativa de apagamento que sua filha — que se torna radical de extrema-esquerda e depois terrorista — rejeita com violência. 

Roth e o Século XXI: Uma Herança Amarga 

A obra de Roth, que se estende até seu último romance, O Complexo de Portnoy (1969), Pastoral Americana (1997), A Marca Humana (2000) e A Conspiração Contra a América (2004), antecipa muitas das questões que definem a literatura do século XXI: a polarização política, o colapso da esfera pública, a dificuldade de narrar uma identidade nacional em um país que parece ter perdido qualquer consenso sobre o que significa ser americano. 

O crítico Peter Boxall, em Twenty-First-Century Fiction: A Critical Introduction, observa que Roth é um dos autores que melhor captura "o sentimento de que algo fundamental mudou na cultura americana após os anos 1960 — que o otimismo liberal do pós-guerra foi substituído por uma sensação de exaustão e cinismo". Essa sensação de esgotamento — política, cultural, existencial — define não apenas a obra de Roth, mas grande parte da ficção que lhe sucede. 

 

Parte II: Jenny Erpenbeck e a Memória da Europa Oriental 

Kairós: Amor e Poder nos Últimos Anos da RDA 

Em maio de 2024, a alemã Jenny Erpenbeck tornou-se a primeira escritora alemã a ganhar o International Booker Prize, por seu romance Kairós. O prêmio, concedido a obras de ficção traduzidas para o inglês, consagrou uma autora que já vinha sendo reconhecida pela crítica como uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea. 

O título do romance remete ao conceito grego de kairos — o deus do momento oportuno, descrito como tendo um tufo de cabelo na testa (para ser agarrado) e a nuca lisa (impossível de segurar quando já passou). É uma metáfora que percorre todo o romance: o instante fugidio do encontro amoroso, o momento histórico que se perde para sempre. 

Kairós narra a história de Katharina, uma jovem estudante de design cenográfico em Berlim Oriental, e Hans, um escritor 53 anos, casado, que trabalha na rádio estatal. O romance se passa entre 1986 e 1990, abrangendo os últimos anos da República Democrática Alemã e sua súbita dissolução com a queda do Muro em 9 de novembro de 1989. 

A presidente do júri do International Booker Prize, Eleanor Wachtel, descreveu o livro como "uma evocação ricamente texturizada de um amor atormentado, o emaranhamento de transformações pessoais e nacionais". E acrescentou: "Como a RDA, [o livro] começa com otimismo e confiança, depois se desfaz terrivelmente". 

A Escrita como Arqueologia 

O que torna Kairós notável é a maneira como Erpenbeck entrelaça a história pessoal dos amantes com a história coletiva da Alemanha Oriental. Não se trata de uma alegoria simples onde Hans "é" a RDA e Katharina "é" o povo oprimido. Em vez disso, Erpenbeck constrói correspondências estruturais: o controle exercido por Hans sobre Katharina ecoa o controle exercido pelo Estado sobre seus cidadãos; a súbita dissolução do relacionamento se espelha na súbita dissolução da RDA. 

A própria autora, nascida em Berlim Oriental em 1967, falou sobre o que a motivou a escrever o romance: "A única coisa que todo mundo sabe é que eles tinham um muro, estavam aterrorizando todos com a Stasi, e é só isso. Isso não é tudo". Sua intenção era mostrar que havia mais na vida no país extinto do que a imagem unidimensional de vigilância e opressão. 

Erpenbeck também comentou sobre o significado da queda do Muro para sua geração: "O que me interessou é que se libertar não é a única coisa que pode ser contada em uma história dessas. Há anos antes e anos depois". Essa percepção — de que a história não se divide em capítulos limpos, mas persiste em camadas sobrepostas — é central para sua obra. 

Camadas de História, Camadas de Solo 

Uma das passagens mais citadas de Kairós revela a relação de Erpenbeck com a história alemã e o Holocausto. Katharina reflete: 

"Ela sabe que apenas uma camada muito fina de terra está espalhada sobre os ossos, as cinzas das vítimas incineradas, que não há outra maneira de andar, nunca, para um alemão, senão sobre crânios, olhos, bocas e esqueletos, que cada passo agita essas profundezas, e essas profundezas são a medida de cada caminho, quer se queira ou não." 

Esta passagem ecoa um tema recorrente na obra de Erpenbeck: a geografia como registro de violência, a impossibilidade de escapar do passado. Seus romances anteriores, Visitation (2008) e The End of Days (2012), já exploravam a história alemã do século XX como um palimpsesto de camadas sucessivas de ocupação, expropriação e violência. 

A Literatura Europeia do Leste no Século XXI 

Erpenbeck não está sozinha. A coletânea After Memory: World War II in Contemporary Eastern European Literatures, organizada por Matthias Schwartz, Nina Weller e Heike Winkel, documenta um fenômeno mais amplo: o retorno à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto na literatura da Europa Oriental nas últimas décadas. O volume reúne ensaios sobre autores da Polônia, Hungria, República Tcheca, Romênia, Sérvia, Croácia, Letônia, Estônia e Ucrânia, mostrando como a ficção contemporânea na região está reimaginando o passado em um novo contexto político e cultural. 

Os organizadores argumentam que, mesmo 75 anos após o fim da guerra, as culturas comemorativas na Europa Central, Oriental e Sudeste estão longe de estar fixadas. A literatura, como meio, pode nos ajudar a entender as mudanças de atitude em relação à guerra e ao Holocausto na Europa pós-comunista nos últimos anos. Essas mudanças apontam para novas culturas comemorativas que se formam "após a memória" — após o fim das narrativas de testemunho da geração que viveu os eventos. 

 

Parte III: O Romance no Século XXI — Entre a Fragmentação e a Esperança 

A Virada Especulativa 

Se Roth e Erpenbeck representam, cada um a seu modo, a continuidade de uma tradição realista (ainda que deformada pela consciência da fragmentação), grande parte da ficção do século XXI tem seguido um caminho diferente. A crítica Dunja Mohr identifica uma "virada especulativa" na literatura do novo milênio, muitas vezes dentro de um imaginário cultural distópico, com uma abordagem eco crítica proeminente. 

Essa virada, argumenta Mohr, está associada a desenvolvimentos teóricos como o Novo Materialismo, o Pós-humanismo e os Estudos do Antropoceno — correntes que problematizam as relações entre humano, não humano, inumano, máquinas e outras formas de vida, removendo a humanidade do centro exclusivo da narrativa. O resultado é uma ficção que enfatiza interconexões entre todas as materialidades, em um movimento que alguns críticos chamam de "sonho planetário". 

Os exemplos de Mohr incluem a trilogia MaddAddam de Margaret Atwood (2003-2013), a trilogia Southern Reach de Jeff VanderMeer (2014) e Borne (2017), além de romances de Larissa Lai. Essas obras usam transgressão, escorregamento e alinhamentos realinhados para destacar emaranhamentos, minando a própria noção de singularidade. 

"Critical Hope": Uma Nova Ética da Ficção 

Um dos conceitos mais interessantes que emergem da crítica contemporânea é o de "esperança crítica" (critical hope), proposto pela pesquisadora Maria Ojala e retomado por Mohr . Trata-se de uma esperança inspirada não apenas pelo "sonho social" em um sentido disciplinar amplo, mas por um tipo de realismo especulativo e fantástico que se estende a um sonho planetário. 

Esta esperança, ao contrário do otimismo ingênuo, reconhece a gravidade dos problemas que enfrentamos — mudanças climáticas, colapso ecológico, desigualdade crescente, erosão democrática — mas insiste que a imaginação literária pode abrir espaços para pensar de outra forma. Não se trata de oferecer soluções (o romance não é um manual político), mas de expandir o imaginário, de nos permitir conceber relações com o mundo e com os outros que não sejam puramente instrumentais ou predatórias. 

A Literatura e a Crise do Presente 

Peter Boxall, em seu estudo sobre a ficção do século XXI, observa que "o uso generalizado da comunicação eletrônica no início do século XXI criou um contexto global para nossas interações, transformando as formas como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros". O romance contemporâneo responde a essa transformação desafiando noções estabelecidas de democracia, humanidade e soberania nacional e global. 

Boxall identifica um conjunto de autores que definem este novo território: além de Roth, ele menciona Don DeLillo, Margaret Atwood, J.M. Coetzee, Marilynne Robinson, Cormac McCarthy, W.G. Sebald, David Mitchell, Chimamanda Ngozi Adichie, Dave Eggers, Ali Smith, Amy Waldman e Roberto Bolaño . O que une esses escritores, apesar de suas diferenças estilísticas e temáticas, é um compromisso comum com a tarefa de narrar a vida cultural compartilhada no novo século — uma tarefa que se tornou extraordinariamente difícil em um momento em que a própria ideia de "compartilhado" parece estar em crise. 

 

Parte IV: A Literatura e o Nosso Tempo — Leituras para 2026 

O que a Ficção nos ensina sobre Quem Somos 

Chegando ao ano de 2026, podemos perguntar: o que a literatura das últimas oito décadas nos ensina sobre o que significa ser humano no mundo em que vivemos? 

Uma primeira lição, oferecida por Roth e Erpenbeck em registros muito diferentes, é que somos seres históricos — não apenas no sentido trivial de que existimos no tempo, mas no sentido mais profundo de que as catástrofes do passado moldam as possibilidades do presente. Seymour Levov não pode escapar da sombra do Newark de sua infância nem da violência dos anos 1960, assim como Katharina não pode se separar da Berlim Oriental que a formou. A tentativa de escapar da história é, nos dois romances, a fonte da tragédia. 

Uma segunda lição é que somos seres relacionais — constituídos por nossos vínculos com os outros, mesmo quando esses vínculos são destrutivos. A relação entre Katharina e Hans em Kairós é, por todos os critérios objetivos, abusiva. E, no entanto, Erpenbeck se recusa a reduzi-la a uma simples história de vítima e algoz. Há amor ali, há desejo, há uma complexidade que desafia o julgamento moral rápido. O mesmo poderia ser dito da relação de Levov com sua filha Merry: ele não pode deixar de amá-la, mesmo depois que ela se torna uma assassina. 

Uma terceira lição, talvez a mais perturbadora, é que somos seres capazes de esquecer — e que esse esquecimento é, ao mesmo tempo, uma condição de sobrevivência e uma fonte de perpetuação do mal. A passagem de Erpenbeck sobre a camada de terra sobre os ossos das vítimas incineradas é uma modulação sobre o que significa ser alemão depois de Auschwitz. Mas poderia ser lida também como uma meditação sobre o que significa ser humano em qualquer lugar depois do século XX. 

As Vozes que Definem a Literatura do Nosso Tempo 

Além de Roth e Erpenbeck, outros autores têm definido a literatura do século XXI até 2026: 

  • Olga Tokarczuk (Polônia): vencedora do Prêmio Nobel de 2018, autora de Os Livros de Jakub e Sobre os Ossos dos Mortos. Sua obra é uma exploração da memória histórica da Europa Central e da relação entre humanos e não-humanos. 

  • Annie Ernaux (França): vencedora do Prêmio Nobel de 2022, cuja obra autobiográfica explora as dimensões de classe, gênero e memória na França do pós-guerra. 

  • Javier Marías (Espanha, 1951-2022): autor de Coração Tão Branco e Berta Isla, cujos romances são meditações sobre segredo, culpa e a impossibilidade de conhecer verdadeiramente o outro. 

  • Rachel Cusk (Reino Unido): cuja trilogia EsboçoTrânsito e Kudos reinventou o romance autobiográfico para o século XXI, dissolvendo as fronteiras entre ficção, memória e ensaio. 

  • Jon Fosse (Noruega): vencedor do Prêmio Nobel de 2023, cuja prosa minimalista explora a experiência humana em sua dimensão mais fundamental. 

  • Hernán Díaz (Argentina/Estados Unidos): autor de Fortuna, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2023, cujo romance sobre a ascensão de um financista americano é também uma meditação sobre a própria forma do romance. 

  • Kairos de Erpenbeck, vencedor do International Booker Prize em 2024, já é reconhecido como um dos romances definidores da década. 

O Romance em 2026: Tendências e Perspectivas 

À medida que avançamos em 2026, várias tendências na literatura contemporânea merecem destaque: 

  1. O retorno ao realismo histórico: depois de décadas de domínio do pós-modernismo e da autoficção, há um movimento crescente em direção a romances que se engajam diretamente com a história do século XX. Kairós e Pastoral Americana são exemplos, assim como Os Livros de Jakub de Tokarczuk e The MANIAC de Benjamin Labatut. 

  1. A ficção climática (cli-fi): a emergência do Antropoceno como tema central da ficção, em obras como MaddAddam de Atwood, O Ministério para o Futuro de Kim Stanley Robinson, e Bewilderment de Richard Powers. Esses romances exploram não apenas os efeitos físicos das mudanças climáticas, mas também suas dimensões psicológicas e espirituais. 

  1. A reconfiguração do humano: a ficção especulativa e o pós-humanismo têm questionado os limites do humano, em obras que exploram inteligência artificial, engenharia genética, simbiose com outras espécies e a própria possibilidade de um futuro para a humanidade. 

  1. A literatura da migração: a crise dos refugiados e a reconfiguração global das populações têm gerado uma rica literatura sobre deslocamento, pertencimento e identidade. Autores como Viet Thanh Nguyen, Valeria Luiselli e Jenny Erpenbeck (em Go, Went, Gone) têm explorado essas questões. 

  1. A escrita do eu: a autoficção, que dominou a literatura das últimas duas décadas, continua a evoluir, com autores como Rachel Cusk, Sheila Heti e Karl Ove Knausgård expandindo as possibilidades do gênero. 

 

Conclusão: Escrever o Humano no Século XXI 

O romance do pós-Segunda Guerra Mundial até 2026 é, acima de tudo, uma forma de resistência. Resistência ao esquecimento (contra o qual Roth e Erpenbeck escrevem), resistência à simplificação (contra a qual a complexidade formal da ficção moderna se ergue), resistência ao fim da própria ideia de humano (contra a qual a ficção especulativa insiste em redefinir, não abandonar, essa categoria). 

Philip Roth nos ensinou que o sonho americano era, em grande medida, uma ilusão — mas uma ilusão pela qual valia a pena lutar, mesmo quando ela se desfazia em nossas mãos. Jenny Erpenbeck nos ensina que a história não termina quando um muro cai; ela persiste, em camadas, sob nossos pés, a cada passo que damos. E os escritores do século XXI — de Tokarczuk a Cusk, de Díaz a Fosse — nos lembram que a tarefa do romance não é oferecer respostas, mas formular perguntas com precisão suficiente para que elas ressoem em nós muito depois de fecharmos o livro. 

Em um mundo cada vez mais dominado por telas, algoritmos e narrativas simplificadoras, o romance permanece como um espaço onde a complexidade pode florescer. Onde a contradição pode ser explorada, não apagada. Onde o humano — em toda a sua fragilidade, sua crueldade, sua capacidade de amar e de destruir — pode ser retratado sem redução. 

A literatura do nosso tempo, de 1945 a 2026, é o registro de uma espécie que aprendeu, da pior maneira possível, que não há garantias. Nem de progresso, nem de redenção, nem mesmo de sobrevivência. Mas também é o registro de uma espécie que, apesar de tudo, continua a contar histórias. E é nessa persistência — na recusa em parar de narrar, de questionar, de imaginar — que talvez resida nossa melhor esperança. 

 

Referências 

  1. CBC Books. (2024). German author Jenny Erpenbeck wins International Booker Prize 

  1. Chevereșan, C. (2024). "Goodbye, Americana, Hello Real Time": The Death of Idealism in Philip Roth's American PastoralStudia Universitatis Babeș-Bolyai Philologia, 69(3), 101–120.  

  1. Schwartz, M., Weller, N., & Winkel, H. (Eds.). (2021). After Memory: World War II in Contemporary Eastern European Literatures. De Gruyter.  

  1. Mohr, D. (2021). *Critical hopeRelationalities in 21st-century speculative fiction*. In Relationalities in the 21st Century. Taylor & Francis.  

  1. The Booker Prizes. (2024). The International Booker Prize 2024 

  1. Boxall, P. (2013). Twenty-First-Century Fiction: A Critical Introduction. Cambridge University Press.  

  1. BSS News. (2024). German love story 'Kairoswins International Booker Prize. 

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