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sábado, 28 de março de 2026

Nuremberg: O filme e o livro 22 Cells in Nuremberg

 


Sobre o Autor e o Contexto da Obra 

O livro "22 Cells in Nuremberg", publicado em 1947, foi escrito pelo psiquiatra americano Douglas M. Kelley (1912-1958). Kelley serviu como psiquiatra-chefe na prisão de Nuremberg durante os julgamentos dos criminosos de guerra nazistas, sendo responsável por avaliar a sanidade mental dos 22 réus para garantir que estivessem aptos a serem julgados. Antes de sua designação em Nuremberg, Kelley serviu na Segunda Guerra Mundial como psiquiatra-chefe do 30º Hospital Geral e, após o conflito, tornou-se professor associado de psiquiatria no Wake Forest College . 

A obra surgiu da experiência direta de Kelley, que passou meses entrevistando os líderes nazistas — incluindo Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop e Alfred Rosenberg — em suas celas, aplicando testes psicológicos como o Rorschach (o teste das manchas de tinta) e observando seus comportamentos. 

O contexto histórico é fundamental: Kelley testemunhou um momento único em que a comunidade internacional optou por "justiça em vez de vingança", estabelecendo um precedente legal para o julgamento de crimes de guerra. 

 

Estrutura e Conteúdo do Livro 

O livro é estruturado em capítulos relativamente curtos, cada um dedicado a um perfil psicológico individual de um dos 22 réus de Nuremberg. Kelley também dedicou um capítulo final a Adolf Hitler, cujo perfil foi construído com base em entrevistas com seus antigos associados. 

Principais Perfis Psicológicos 

Hermann Göring: Kelley descreve Göring como o mais complexo e carismático dos réus. O psiquiatra relata encontros em que Göring o recebia com um largo sorriso e um aperto de mão, sentando-se ao seu lado para responder perguntas. Göring é apresentado como um homem de inteligência elevada, imaginação aguçada, educação sólida e grande poder de persuasão, mas com "completo desrespeito pela vida humana". Kelley observou suas características narcisistas, sua necessidade de atenção e sua capacidade de visualizar objetivos claros, estando disposto a alcançá-los independentemente dos custos. 

Rudolf Hess: Kelley diagnosticou Hess como um indivíduo altamente introvertido, que sofria de uma "verdadeira psiconeurose" do tipo histérico, sobreposta a uma personalidade paranoide e esquizoide. Kelley notou que Hess via Hitler como uma figura paterna e entrou em colapso psicológico ao perceber que o Führer não era um deus, mas um destruidor cruel. Sobre sua amnésia, Kelley concluiu que era "parte genuína e parte fingida". 

Julius Streicher: Kelley considerou o antissemitismo de Streicher como uma reação paranoica genuína, um diagnóstico que, segundo críticos da época, pode ter sido simplista. 

Albert Speer e Karl Dönitz: Kelley descreveu Speer como de natureza "sensível, juvenil e sincera", e Dönitz como "essencialmente uma pessoa ética" que acreditava sinceramente que Hitler era um cavalheiro bondoso. Essas avaliações, que contrastavam fortemente com os crimes cometidos por ambos, geraram controvérsia. 

Adolf Hitler (perfil indireto): Kelley diagnosticou Hitler como um indivíduo que sofreu frustrações na juventude e desenvolveu uma supercompensação que o levou à crença em sua própria divindade. Ele notou padrões de perseguição paranoica e observou que os associados de Hitler descreviam alguém que mudava de personalidade conforme o interlocutor: amigável com Göring, intelectual com Dönitz, dominador com Schirach e um pai/mestre com Ribbentrop . 

 

A Tese Central: A Banalidade do Mal Antes do Conceito 

A conclusão mais perturbadora e central do livro de Kelley é que os líderes nazistas não eram clinicamente insanos. Após aplicar testes psicológicos e conduzir entrevistas aprofundadas, Kelley chegou à conclusão de que aqueles homens não sofriam de doenças mentais que os tornassem incapazes de distinguir o certo do errado. 

Kelley descobriu que os réus eram, em sua maioria, inteligentes, ambiciosos, disciplinados e, em muitos aspectos, surpreendentemente ordinários. Eles não eram monstros em um sentido psiquiátrico, mas sim indivíduos cujas consciências haviam sido subjugadas pela obediência cega à autoridade, pela ideologia e pela busca de poder. Esta ideia antecipa em décadas o conceito de "banalidade do mal" popularizado por Hannah Arendt. 

"Estou convencido de que há pouco na América hoje que poderia impedir o estabelecimento de um estado semelhante ao nazista." 
— Douglas M. Kelley  

 

Críticas e Controvérsias 

1. O Debate com G. M. Gilbert 

A principal crítica ao trabalho de Kelley veio de seu colega em Nuremberg, o psicólogo Gustave Mark Gilbert. Enquanto Kelley trabalhava diretamente para o exército americano, Gilbert atuava como psicólogo para a acusação. Os dois tiveram interpretações radicalmente opostas sobre os mesmos testes psicológicos. 

Gilbert acreditava haver um traço comum de psicopatologia nos réus, enquanto Kelley insistia na normalidade dos perfis. A controvérsia persistiu por décadas na comunidade acadêmica, com estudos subsequentes ora apoiando um lado, ora outro. Uma pesquisa do final da década de 1990 tendeu a concordar com Kelley, sugerindo que não havia diferenças significativas nos testes de Rorschach dos nazistas em comparação com grupos de controle normais. 

2. Críticas Contemporâneas (The New York Times) 

Em uma resenha publicada no The New York Times em 2 de fevereiro de 1947, o psiquiatra Frederic Wertham fez duras críticas ao livro. Wertham elogiou a sobriedade de Kelley em contraste com especulações psicanalíticas anteriores, mas apontou falhas significativas: 

  • Diagnósticos questionáveis: Wertham discordou que Rosenberg fosse apenas um "pensador confuso" ou que a invasão da Rússia pudesse ser atribuída a "cãibras estomacais de Hitler". 

  • Ingenuidade: Criticou Kelley por classificar Speer (que usou centenas de milhares de trabalhadores escravos) como "sincero" e Dönitz como "ético". 

  • Reducionismo: Questionou o diagnóstico de "reação paranóica" para Streicher, apontando que suas visões antissemitas não eram delírios particulares, mas compartilhadas por muitos. 

Apesar das críticas aos diagnósticos específicos, Wertham concordou veementemente com a tese mais ampla de Kelley sobre os perigos do autoritarismo nos Estados Unidos, chamando-a de a parte em que Kelley "se eleva a uma estatura maior". 

3. O Fim Trágico de Kelley 

Um dos aspectos mais sombrios da história envolve o próprio destino de Kelley. Em 1º de janeiro de 1958, doze anos após sua experiência em Nuremberg, Kelley cometeu suicídio utilizando cianeto de potássio — o mesmo veneno que Hermann Göring usou para escapar da forca. 

Especula-se que Kelley, que na época sofria de alcoolismo, problemas conjugais e sobrecarga de trabalho, tenha sido profundamente marcado pela relação com Göring. Kelley não havia previsto o suicídio de Göring e ficou chocado quando ocorreu. Acredita-se que, consciente ou inconscientemente, Kelley tenha imitado o gesto teatral de desafio de Göring, fazendo um "statement grandioso" ao escolher o mesmo método e um local público para morrer. A ironia trágica é que o psiquiatra que estudou a mente nazista sucumbiu de forma tão similar ao seu principal "paciente". 

 

A Atualidade e o Alerta para o Presente 

O livro tem ganhado renovada atenção, especialmente após o lançamento do filme Nuremberg (2025) e sua republicação em 2026. Leitores e críticos contemporâneos têm destacado o capítulo final como "assustadoramente presciente". 

Kelley, ao retornar aos Estados Unidos, ficou alarmado ao encontrar os mesmos tipos de preconceitos e discursos que ouvira nos corredores da prisão de Nuremberg. Ele alertou que as condições que permitiram a ascensão do nazismo não eram exclusivas da Alemanha: 

"Podemos encontrar as mesmas ideias veladamente em nossa imprensa pública hoje. Ainda pior, encontramos alguns de nossos principais políticos, membros de nossos mais altos órgãos governamentais, fazendo declarações que fariam crédito a Rosenberg, Hitler ou Goebbels". 

Observadores modernos apontam que Kelley descreveu um processo de "desengajamento moral", erosão das liberdades civis, uso de "grandes mentiras", supressão da imprensa e apelos emocionais ao nacionalismo — elementos que, para eles, ecoam em figuras políticas contemporâneas. 

 

Conclusão: Por que Ler Este Livro 

"22 Cells in Nuremberg" é mais do que um registro histórico; é um estudo sobre a natureza humana e a fragilidade das democracias. A principal contribuição de Kelley não está nos diagnósticos individuais, por vezes contestados, mas na demolição do mito de que o mal extraordinário requer mentes monstruosas. 

Ao demonstrar que homens comuns, em circunstâncias específicas, podem se tornar cúmplices de atrocidades em massa, Kelley oferece um alerta intemporal. Sua obra nos força a confrontar a questão incômoda de como sociedades educadas e modernas podem sucumbir à barbárie quando a responsabilidade moral é entregue à autoridade e à propaganda. 

O livro foi descrito por Lewis M. Terman, professor emérito de psicologia da Universidade de Stanford, como "um dos três ou quatro livros mais importantes que surgiram da Segunda Guerra Mundial". A relevância do texto, infelizmente, parece não diminuir com o passar das décadas. 

 Referências principais: 

Kelley, Douglas M. 22 Cells in Nuremberg. Greenberg Publishers, 1947 / Suricata, 2026.  

 

 

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