SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 28 de março de 2026

Pois que se foda este contrato de morte que nos impõem! Por Egídio Guerra.

 



Essa tem sido minha vida lutar juntos para mantermos a sensibilidade e o pensar vivo na cultura e na cura das dores que podemos transformar na alegria de existir! Mas não me venham com a doce ilusão de que o sofrimento é pedagógico ou que a tragédia é um acidente de percurso. Algumas coisas ruins acontecem e podem ficar piores — e viram tragédias com consequências irreversíveis. Não se trata de pessimismo, mas de constatação clínica: o que não é enfrentado com consciência vira repetição. E a repetição, sem consciência, em um mundo caótico, destrói o próprio ser. Perde-se o controle ou, pior, acredita-se controlar com delírio de poder.

Somos fabricados. Impostos de fora, nos moldam em monstros dóceis que repetem bebidas, drogas, sexo, consumo, violência. Entramos nesse mundo vazio onde cada ato, em vez de curar, aprofunda o abismo. A cultura nos ordena: vá à academia, molde o corpo, porque o corpo é mercadoria e no mercado da vida quem não tem valor definido não existe. Novas drogas, sexo que aprisiona em rituais vazios — ali, um plástico tem mais valor que a alma.

E quando algo grave acontece — um colapso, um grito abafado — as forças para despertar já foram engolidas pela máscara sem destino nem amor que assumimos com medo e tristeza. A máscara que nos fez esquecer a beleza de viver e sonhar de verdade. Mas eu continuo apostando no amor na roleta da vida. Na inocência rara que cria outros tipos de cura e cultura. Porque há um fio que une essas palavras: amor, inocência, cura, cultura. Todas elas exigem presença. Todas elas se opõem ao mecanismo da repetição.

A psicologia já nos mostrou, desde Freud, que a pulsão de repetição (Wiederholungszwang) é o retorno do não simbolizado — aquilo que não foi vivido conscientemente se repete como destino, como sintoma, como compulsão. Lacan dirá: o que não se inscreve no simbólico retorna no real, como gozo mudo que destrói o sujeito. E aí está o ponto: a busca pelo poder, as vaidades, o sexo transformado em objeto de consumo — tudo isso produz transtornos que não são meramente individuais, mas fabricados, reforçados pela cultura e pela comunicação de uma época.

Nietzsche já denunciava o niilismo ativo como a vontade de poder que, não encontrando sentido, se volta contra a própria vida. E Adorno, com Horkheimer, mostrou como a indústria cultural transforma o desejo em farsa, em repetição programada. Hoje, as redes sociais são o ápice desse mecanismo: multiplicam gozos e prazeres vazios em forma de curtidas — sem presença, sem o grito de êxtase, sem a catarse que transforma. Somos espectadores de nós mesmos, fantoches de um gozo solitário que aplaude o vazio.

E a literatura? Clarice Lispector chamava isso de "a hora da estrela": a vida reduzida a um brilho falso que logo se apaga. Dostoiévski, em Memórias do Subsolo, nos deu o homem que se debate no delírio de poder sobre si mesmo e termina paralisado, incapaz de vida autêntica. E Kafka mostrou o monstro que a cultura fabrica: o ser que acorda metamorfoseado em algo que repete, obedece, consome e morre sem ter vivido.

Mas houve sociedades onde viver não era morrer repetindo o vazio e o éter até que a consequência destruísse a própria vida. Os gregos antigos tinham o thumos — o ânimo, o ímpeto vital — e o bios como algo a ser cultivado na pólis, entre iguais, com presença. Os povos originários mantinham o ritual como experiência de cura coletiva, onde o êxtase não era uma curtida, mas um encontro com o sagrado. Os orientais, com suas tradições de cuidado da respiração e da mente, sabiam que a repetição sem presença é morte.

Essas culturas foram soterradas. E agora, no lugar delas, temos a repetição dos corpos nas academias como se fossem peças de reposição, o sexo como performance de plástico, a alma como resquício incômodo.

Mas ainda há quem aposte no amor. Quem gira a roleta da vida com a ficha rara da inocência — aquela que não é ingenuidade, mas coragem de ver o mundo sem se render ao que ele tem de doentio. Essa inocência que cria outros tipos de cura e outras culturas, porque sabe que a verdadeira revolução não está no poder, mas na presença; não na repetição, mas no ato que rompe o ciclo.

A rebeldia de viver e se curar de verdade, neste mundo e cultura doentios, é recusar ser mais um produto. É encarar o caos sem se tornar ele. É deixar de repetir a morte em pequenas doses diárias — drogas, consumo, violência, corpos fabricados — e assumir o risco de sonhar de verdade.

Porque a tragédia não é o sofrimento. A tragédia é sofrer sem que isso transforme nada. É repetir até que a repetição se torne a única identidade. É morrer sem nunca ter dito "não" ao que nos fabrica.

Eu digo não.

Aposto no amor na roleta da vida. E aposto que ainda há tempo — porque enquanto houver um grito de êxtase que não caiba numa curtida, enquanto houver um corpo que não seja plástico e uma alma que insista, a cura será possível. E será feita de presença, de cultura reinventada, de inocência rara — a única força capaz de desmascarar o mundo e nos devolver a beleza de viver de verdade.

Mas não me venham com anestesia. Não me venham com atalhos.

Não há fuga. Não há desvio. O preço da vida cobra pesado em consequências — cada ato repetido sem consciência deixa sua cicatriz, cada máscara vestida com medo exige um preço que o corpo e a alma pagam em parcelas que às vezes se tornam impagáveis. A psicanálise nos lembra: o que é recalcado retorna. O que não é vivido vira sintoma. O que não é enfrentado vira destino.

E que ninguém confunda tragédia com fim.

Porque nem toda tragédia é trágica. Há tragédias que são apenas repetição — mortes em vida, vazios maquiados de plenitude, gritos que nunca encontraram voz. Essas são trágicas no pior sentido: não ensinam nada, não transformam nada, apenas consomem o ser até que ele se torne irreconhecível.

Mas há outra espécie de tragédia — aquela que, como na Antígona de Sófocles, ou no Édipo que Freud leu como fundador do sujeito, ou ainda na Peste de Camus, onde a peste era também a metáfora do fascismo e da repetição cega — há aquela tragédia que, ao nos levar ao fundo, revela o caminho da cura.

Porque a cura não é a ausência da dor. A cura é a presença do real que a dor escancara. 

Quando o mundo desaba, quando o corpo grita, quando o gozo vazio não mais sustenta — aí, na fratura, pode surgir o que Lacan chamou de passagem ao ato: não a repetição autômata, mas o ato verdadeiro, aquele que rompe com a programação, que recusa o papel de monstro dócil fabricado pela cultura. É aí que a inocência rara — que não é ignorância, mas coragem de ver sem máscara — pode florir.

Assim como na alquimia, que tanto fascinou Jung: a nigredo, a escuridão total, não é o fim. É o início da transmutação. É no fundo do cadinho que o chumbo começa a se tornar ouro. É no despedaçar das máscaras que a alma, por fim, respira. 

Portanto, não peçam anestesia. A anestesia é o que nos mantém repetindo a morte. O desvio é o que nos mantém perdidos no labirinto do consumo e do gozo sem presença. 

O preço da vida é pesado — sim, cobra-se em consequências, em perdas, em dores que não podem ser apagadas com uma curtida. Mas que ninguém tema o preço a ponto de aceitar viver sem pagá-lo. Porque viver sem pagar o preço é viver de aluguel, é existir como eco, é repetir o vazio até que ele se torne a única paisagem. 

E aí, sim, temos a verdadeira tragédia: a que não revela nada, apenas consome. 

Mas a tragédia que arranca as máscaras, que queima os rituais de plástico, que faz o corpo tremer e a alma gritar — essa tragédia é o parto da cura. É o grito de êxtase que nenhuma rede social pode conter. É a catarse que Aristóteles já sabia ser necessária para purificar o espírito. É o momento em que, como ensina a sabedoria ancestral dos povos que ainda resistem, a morte simbólica antecede o renascimento. 

Então que venham as consequências. Que venha o preço para todos! 

Devemos pagá-lo com a alma inteira a viver na eterna prestação do vazio. 

Eu continuo apostando no amor na roleta da vida — não porque o amor seja fácil, mas porque é o único movimento que não se repete como autômato. O amor é o ato que instaura, não o que obedece. É a cura que não vem de fora, mas que nasce da coragem de desmoronar sem máscara e, no desmoronamento, encontrar o chão firme de uma cultura reinventada, de uma presença verdadeira, de uma inocência rara que ousa dizer: 

— Não serei mais um produto. Não repetirei a morte. Pagarei o preço, ainda que seja pesado, porque viver de verdade não tem preço que se compare à condenação de jamais ter começado a viver. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário