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sexta-feira, 27 de março de 2026

When Everyone Knows That Everyone Knows...: Common Knowledge and the Mysteries of Money, Power, and Everyday Life por Steven Pinker

 

Sobre a Obra 

Publicado em setembro de 2025 pela Scribner (EUA) e Allen Lane (Reino Unido), When Everyone Knows That Everyone Knows... é o décimo terceiro livro do renomado psicólogo cognitivo e linguista Steven Pinker, professor da Universidade Harvard. Com 364 páginas divididas em nove capítulos, a obra representa a culminação de anos de pesquisa de Pinker sobre um conceito que ele considera central para a compreensão do comportamento humano: o "conhecimento comum" (common knowledge). 

O livro foi recebido com grande expectativa, tendo sido pré-anunciado como uma das principais obras de ciência popular do ano, e conta com elogios de figuras como Bill Gates ("um dos livros mais perspicazes que já li sobre o que nos torna humanos") e de dois Prêmios Nobel de Economia, Eric Maskin e Robert Aumann. Em março de 2026, foi publicada a tradução em espanhol pela Editorial Paidós sob o título Cuando todos saben que todos lo saben.... 

O Autor: Steven Pinker 

Steven Pinker nasceu em 1954 em Montreal, Canadá, em uma família judaica de língua inglesa. Formou-se em psicologia experimental pela McGill University e obteve seu doutorado em Harvard, onde hoje ocupa a cátedra Johnstone Family Professor no Departamento de Psicologia. Ao longo de sua carreira, foi eleito membro da Academia Nacional de Ciências dos EUA, figurou duas vezes como finalista do Prêmio Pulitzer, foi nomeado uma das "100 Pessoas Mais Influentes do Mundo" pela Time e um dos "100 Principais Intelectuais Públicos do Mundo" pela Foreign Policy . 

Pinker é conhecido por sua defesa vigorosa da psicologia evolucionista, da teoria computacional da mente e do humanismo iluminista. Seus livros anteriores incluem obras de grande impacto como O Instinto da Linguagem (1994), como a Mente Funciona (1997), Os Anjos Bons da Nossa Natureza (2011) e Enlightenment Now (2018). Em todos eles, há um traço comum: a tentativa de explicar fenômenos complexos da experiência humana por meio de uma combinação de rigor científico, clareza expositiva e otimismo racionalista. 

Nos últimos anos, sua pesquisa tem se voltado especificamente para a psicologia do conhecimento comum — o fenômeno descrito pelo título de seu novo livro: "Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe..." — e como ele ilumina fenômenos como insinuação, eufemismo, coordenação social e expressão emocional. 

Estrutura e Conteúdo 

O livro é organizado em nove capítulos, cada um explorando uma dimensão diferente do conhecimento comum: 

  1. The Emperor, the elephantand the matzo ball — Introdução ao conceito através de exemplos clássicos. 

  1. Common knowledge and common sense — Distinção entre conhecimento comum e senso comum. 

  1. Fun and games — Aplicações do conhecimento comum em jogos e coordenação social. 

  1. Reading the mind of a mind reader — A recursividade do pensamento social. 

  1. The department of social relations — Conhecimento comum nas relações interpessoais. 

  1. Laughingcryingblushingstaringglaring — Sinais não-linguísticos que criam conhecimento comum. 

  1. Weasel words — A linguagem indireta e seus usos estratégicos. 

  1. The canceling instinct — Cancelamento e dinâmicas de punição social. 

  1. Radical honesty, radical hypocrisy — Os limites da transparência e o valor da hipocrisia benigna. 

O Conceito de Conhecimento Comum 

O ponto de partida de Pinker é uma distinção sutil, mas fundamental. Conhecimento comum não é simplesmente "algo que todos sabem". É algo que todos sabem e todos sabem que todos sabem e todos sabem que todos sabem que todos sabem — ad infinito . 

A ilustração clássica vem do conto de Hans Christian Andersen, As Novas Roupas do Imperador. Quando o imperador desfila nu, cada súdito vê sua nudez, mas ninguém tem certeza do que os outros veem. É possível, pensa cada um, que os outros estejam vendo as roupas magníficas que o imperador acredita estar vestindo. Apenas quando uma criança grita "O imperador está nu!" é que o conhecimento privado de cada um se transforma em conhecimento comum — e o feitiço se desfaz. 

Como Pinker escreve: 

"When the little boy said the emperor was nakedhe wasn't telling anyone anything they didn't already knowBut he added to their knowledge nonethelessBy blurting out what every onlooker could see within earshot of the othershe ensured that they now knew that everyone else knew what they knew."  

Este exemplo revela a potência do conhecimento comum: ele permite coordenação. Uma vez que todos sabem que todos sabem, a ação coletiva se torna possível. Ditadores são derrubados não quando cada cidadão descobre privadamente que o regime é corrupto, mas quando esse conhecimento se torna público — quando todos sabem que todos sabem. 

Conhecimento Comum e Coordenação 

Grande parte da vida social, argumenta Pinker, depende de nossa capacidade de criar conhecimento comum para coordenar ações em benefício mútuo. Ele oferece exemplos cotidianos: 

  • Encontros: dois amigos combinam se encontrar em um café. Se os celulares falham, eles precisam confiar em conhecimento comum sobre o local e horário. 

  • Trânsito: quando um motorista cede a vez a um pedestre em uma situação ambígua, o encontro de olhares e o gesto de mão criam conhecimento comum entre os dois, permitindo a travessia segura. 

  • Dinheiro: o valor de uma nota de papel depende inteiramente do conhecimento comum de que todos aceitam que ela tem valor. 

  • Regras de trânsito: a convenção de dirigir no lado direito da estrada é mantida porque todos sabem que todos seguem a mesma regra. 

O conhecimento comum também explica fenômenos como a eficácia de placas de "PROIBIDO FUMAR". Pinker observa que "provavelmente ninguém foi preso e condenado por fumar em um auditório ou terminal de aeroporto". No entanto, uma vez que as placas foram afixadas, não-fumantes — que antes não queriam criar uma cena — sentiram-se encorajados a olhar com desaprovação para os infratores ou pedir que parassem. A placa cria conhecimento comum sobre a norma, mesmo na ausência de aplicação efetiva. 

Conhecimento Comum e Fracasso Coordenado 

O conhecimento comum também explica alguns dos fenômenos mais catastróficos da vida social e econômica. 

Corridas bancárias: Um banco solvente pode quebrar da noite para o dia se um número suficiente de depositantes acreditar que outros depositantes também sacarão seus fundos. Pinker observa que os bancos investem pesadamente em suprimir esse conhecimento comum — por exemplo, através de interiores suntuosos que sugerem solidez e abundância. 

Bolhas financeiras: John Maynard Keynes comparou o mercado de ações a um concurso de beleza em que os juízes não escolhem o rosto que acham mais bonito, mas aquele que acreditam que todos os outros juízes acharão mais bonito — recursividade em seu estado mais puro. Pinker mostra como bolhas de criptomoedas, ações-meme e outros frenesis especulativos são impulsionados menos por fundamentos do que por apostas recursivas sobre o que "todos" farão a seguir. 

Pânicos de compra: O exemplo mais recente e vívido é o fenômeno do "pânico do papel higiênico" durante a pandemia de COVID-19. As pessoas compram papel higiênico não porque o papel em si seja escasso, mas porque temem que outras pessoas comprem, criando escassez. É o conhecimento comum do medo que gera a profecia autorrealizável. 

Sinais Não-Linguísticos: Risos, Lágrimas e Coradas 

Uma das contribuições mais originais de Pinker é sua análise dos sinais não-linguísticos como mecanismos para criar conhecimento comum. O riso, o choro, o rubor e o olhar fixo são todos, em sua visão, estratégias evolutivas para sinalizar estados mentais de forma pública e inegável. 

rubor (blushing) é particularmente fascinante. Pinker o decodifica como um sinal que diz: "Sim, eu errei, mas sei que errei, de acordo com padrões que entendo e compartilho". O fato de ser um reflexo autonômico — algo que não pode ser fingido — o torna mais confiável do que um pedido de desculpas verbal. Como observa Pinker, "a corada não pode ser forjada", e é precisamente essa involuntariedade que a torna um sinal tão poderoso de compromisso com as normas sociais. 

riso, por sua vez, é um sinal público de que uma situação é segura, não ameaçadora — uma forma de criar conhecimento comum sobre a ausência de perigo. Em um podcast promocional do livro, Pinker discutiu como o humor e o riso "nivelam o campo de jogo" social, permitindo que grupos se unam em torno de uma interpretação compartilhada da realidade. 

Linguagem Indireta e Hipocrisia Benigna 

Um dos temas centrais do livro é a importância estratégica de evitar o conhecimento comum. Pinker mostra que, em muitos contextos, as pessoas se esforçam para garantir que, mesmo que todos saibam algo, ninguém possa saber que todos sabem. Isso explica fenômenos como: 

  • Insinuação sexual: "Você gostaria de subir para um café?" após um encontro. A insinuação cria um espaço seguro e ambíguo onde ambas as partes sabem o que está sendo sugerido, mas ninguém precisa dizê-lo explicitamente. Se a sugestão for rejeitada, a ambiguidade permite que ambos sigam em frente sem o constrangimento de uma rejeição explícita. 

  • Suborno e ameaças veladas: "Seria uma pena se algo acontecesse ao seu lindo estabelecimento..." A ameaça implícita permite que ambas as partes entendam o que está em jogo sem que a ameaça precise ser registrada como tal. 

  • Hipocrisia benigna: Em muitos contextos sociais, todos sabem que certas convenções são fingimentos — mas o fingimento é mantido porque sua exposição seria mais disruptiva do que a própria mentira. Pinker cita Pascal: "Estabeleço como fato que se todos os homens soubessem o que os outros dizem deles, não haveria quatro amigos no mundo". 

O Instinto do Cancelamento 

Um dos capítulos mais provocativos do livro aborda o fenômeno do cancelamento (cancel culture). Pinker argumenta que o cancelamento é um exemplo de conhecimento comum em sua forma mais perigosa: quando uma transgressão se torna publicamente conhecida, a indignação ganha força porque não se pode mais fingir que ela não aconteceu. 

Pinker lista uma série de perguntas que, segundo ele, se tornaram tabus em muitas universidades nas últimas décadas: 

  • "As mulheres, em média, têm um perfil diferente de aptidões e emoções em relação aos homens?" 

  • "Os povos indígenas frequentemente se envolviam em guerra e genocídio?" 

  • "Existem dois sexos nos animais, incluindo os humanos?" 

  • "A disforia de gênero de início súbito em adolescentes do sexo feminino é um efeito de contágio social?" 

  • "O colonialismo europeu trouxe algum benefício aos povos colonizados, além de seus danos?" 

O problema, argumenta Pinker, é que "as pessoas têm muitas crenças factuais não porque as crenças tenham se mostrado verdadeiras, mas porque sentem que sustentam uma ordem moral". E isso é um problema dentro das universidades porque "as sociedades confiam às universidades, com um custo fantástico, o mandato de descobrir e transmitir conhecimento". 

No entanto, Pinker também reconhece que tornar algo conhecimento comum nem sempre é uma boa ideia. A sociedade, para funcionar, depende de silêncios estratégicos. Revelar verdades, embora geralmente desejável, nem sempre é o objetivo final. Às vezes, a coesão social é preferível. 

Citações Importantes 

1. Sobre a Definição de Conhecimento Comum 

"When the little boy said the emperor was nakedhe wasn't telling anyone anything they didn't already knowBut he added to their knowledge nonethelessBy blurting out what every onlooker could see within earshot of the othershe ensured that they now knew that everyone else knew what they knew."  

2. Sobre a Importância do Conhecimento Comum para a Coordenação 

"Life is filled with opportunities to coordinate with other people for mutual gainWe agree on a time and place to meetbring complementary fare to a potluck dinner, divide responsibilities on a projectCoordination can fail if people are not on the same pageeven when they want the same thing. Schedules clashsignals get crossedand shared goals fall through the cracks."  

3. Sobre o Silêncio Estratégico 

"The reason that citizens don't resist their overlords en masse is that they lack the prerequisite to coordinating their behaviour for mutual benefitnamely common knowledge."  

4. Sobre Crenças Não-Verificadas 

"People hold many factual beliefs not because the beliefs have been shown to be true but because they are felt to uphold a moral order."  

5. Sobre os Limites da Honestidade Radical 

"Calling for complete honesty is the ultimate dishonesty. No one really wants it."  

6. Sobre o Rubor 

A corada é um sinal que diz: "Yes, I screwed upbut I know I screwed upaccording to standards I understand and share."  

Recepção Crítica 

Elogios 

O livro recebeu amplo reconhecimento da crítica especializada. A Financial Times descreveu-o como "fascinante" e destacou sua capacidade de "fornecer uma explicação lógica para todos os tipos de comportamento humano aparentemente irracional". The Economist chamou-o de "um livro efervescente e erudito". O New Scientist elogiou a clareza expositiva: "Pinker é um escritor gracioso e claro, e faz um bom trabalho ao guiar os leitores através de vários quebra-cabeças lógicos emaranhados". 

James Marriott, escrevendo para The Times, fez um elogio contundente: "Uma exposição caracteristicamente lúcida do conceito psicológico diabólico e não familiar de 'conhecimento comum'... Precisamos da próxima geração de Steven Pinkers. Numa era em que o termo 'intelectual público' parece se aplicar a qualquer um capaz de fazer um discurso inflamado ao microfone, When Everyone Knows That Everyone Knows... é um lembrete bem-vindo do que a coisa real parece". 

Rowan Williams, ex-Arcebispo de Canterbury, escreveu no The Guardian: "Uma discussão lúcida e medida sobre o que precisamos entender sobre nossas comunicações uns com os outros... Ilumina e provoca; para usar sua própria metáfora, vale a pena dançar com ela". 

Jess Munton, no Times Literary Supplement, elogiou a abordagem de Pinker: "Seu gênio é pegar um fenômeno com o qual estamos intimamente familiarizados, como corar, falar ou chorar, convidar-nos a perguntar por que o fazemos — ou seja, a nos distanciarmos do mistério do nosso funcionamento — e depois nos dar uma narrativa de criação de sentido que nos devolve a nós mesmos com uma sensação satisfatória de compreensão renovada". 

Críticas 

Apesar dos elogios, o livro também recebeu críticas significativas. A Publishers Weekly observou que "a discussão de Pinker sobre essas descobertas é intrigante, se não revolucionária, mas o aparato científico que ele monta — repleto de experimentos psicológicos sobre 'mentalização recursiva', ou 'pensar sobre pensamentos sobre pensamentos' — pode parecer exagerado e oneroso. O resultado, em um lapso do brilho habitual de Pinker, é uma expedição desgastante que produz insights principalmente pedestres". 

A resenha do New York Times foi a mais contundente. O crítico observou que, embora o material esteja "bem-organizado e claramente explicado", os problemas surgem da "incapacidade de Pinker de se manter fora da narrativa". A linha entre informalidade envolvente e falta de filtro perturbadora é delicada, e há "um certo charme no professor afável e brincalhão que não resiste à provocação de colocar aspas em torno da palavra 'microagressões'", mas, com muita frequência, "as intervenções em primeira pessoa são mal julgadas". 

A resenha cita um exemplo: uma seção sobre constrangimento é concluída com uma anedota pessoal em que Pinker interpreta a frase "black tie optional" em um convite como uma oportunidade para usar smoking, em vez de permissão para não usar. A situação resultante, e a frase "presumi erroneamente que era o padrão e, na noite designada, me vi como o único homem entre as centenas de luminares vestindo um smoking", poderia ter sido escrita pela equipe de Frasier. No entanto, "a história é intrusiva e desnecessária, sua autodepreciação é na verdade auto deleite". 

O crítico também aponta para o que chama de "defensividade" e "irrupção do ego do autor" em um trecho onde Pinker critica veementemente o estilo de argumentação de publicações como The New York Review of Books. Isso "trai um mal-entendido básico sobre o que uma resenha de jornal se propõe a fazer. Um livro pode ser ruim sem que sua tese seja falsa. Isso, pelo menos, deveria ser conhecimento comum". 

O Problema dos Pontos Focais Fragmentados 

Uma das leituras mais interessantes do livro veio de um ouvinte da palestra de Pinker em Londres, que publicou uma reflexão sobre o evento. O crítico observou que, para a maior parte do século XX, "os pontos focais eram fáceis de encontrar". Quatro canais de televisão, alguns jornais nacionais, rituais de massa como o noticiário da noite ou a final da copa. Você podia presumir que, se algo estava na BBC ou na primeira página do Times, "todos" sabiam. 

Isso não acontece mais. As mídias sociais fragmentaram os comuns. "Nossa atenção está fragmentada em milhares de feeds, cada um filtrado algoritmicamente, cada um personalizado. O que você vê, eu posso nunca ver. O que está em alta em um canto da internet pode ser invisível em outro". 

O crítico pergunta: "Precisamos de conhecimento comum para nós conexionarmos como sociedades? E se sim, o que acontece quando nossos pontos focais se fragmentam para além do reparo?". A resposta de Pinker, segundo o crítico, não é pessimista: embora a fragmentação seja um desafio, o conhecimento comum ainda pode ser criado através de virais, eventos compartilhados e outras formas de saliência pública. Mas o processo é "imprevisível, arbitrário e frequentemente destrutivo". 

Análise Crítica Pessoal 

When Everyone Knows That Everyone Knows... é um livro que tenta fazer pelo conceito de conhecimento comum o que Pinker fez pela linguagem, pela violência e pela racionalidade em seus livros anteriores: torná-lo acessível, relevante e central para a compreensão da experiência humana. Até certo ponto, ele consegue. 

O ponto forte do livro é sua capacidade de iluminar fenômenos cotidianos com um conceito que, à primeira vista, parece abstrato demais para ter aplicação prática. A análise do rubor como um sinal confiável de arrependimento, do riso como um sinal de segurança, da insinuação sexual como um mecanismo de preservação de face — tudo isso é fascinante e contraintuitivo. 

A seção sobre o cancelamento e a lista de perguntas tabu nas universidades é talvez a parte mais controversa do livro. Pinker está, sem dúvida, apontando para um fenômeno real: há perguntas legítimas que se tornaram difíceis de fazer em certos contextos acadêmicos. No entanto, a maneira como ele lista essas perguntas — todas elas polêmicas, muitas delas associadas a posições de direita — sem contextualizá-las ou discutir as razões pelas quais são consideradas tabus, pode dar a impressão de que ele está tomando partido em debates nos quais a controvérsia não é apenas sobre liberdade acadêmica, mas sobre o conteúdo substantivo das perguntas. 

A crítica do New York Times é particularmente incisiva e, em muitos aspectos, justa. Pinker parece, em certos momentos, incapaz de resistir à tentação de se colocar no centro da narrativa — seja através de anedotas pessoais autodepreciativas que revelam mais autoimportância do que modéstia, seja através de ataques velados a críticos que, segundo ele, não compreendem seu trabalho. Isso pode cansar o leitor. 

No entanto, o livro também oferece ferramentas analíticas poderosas. O conceito de conhecimento comum ajuda a explicar por que revoluções parecem surgir "do nada" (quando o conhecimento privado da insatisfação se torna público), porque bolhas financeiras se formam (quando a crença recursiva no comportamento dos outros supera a avaliação de fundamentos), e porque certas normas sociais persistem mesmo quando todos sabem que são fictícias (porque expor a ficção seria mais disruptivo do que mantê-la). 

A questão que o livro levanta, mas não responde completamente, é o que acontece quando os pontos focais que sustentam o conhecimento comum se fragmentam. Em uma era de feeds personalizados, câmaras de eco algorítmicas e fragmentação da esfera pública, como podemos coordenar ação coletiva? Pinker parece otimista — afinal, seu projeto intelectual é, em grande medida, um projeto de esclarecimento, de tornar o conhecimento comum sobre os mecanismos do conhecimento comum. Mas o leitor pode sair do livro com uma sensação de inquietação: se o conhecimento comum é tão importante, e se ele está se fragmentando, o que isso significa para o futuro da democracia? 

Conclusão 

When Everyone Knows That Everyone Knows... é um livro que faz jus à reputação de seu autor como um dos principais divulgadores da ciência cognitiva em atividade. Steven Pinker consegue o feito de tornar um conceito abstrato — conhecimento comum — central para a compreensão de fenômenos que vão desde encontros românticos a revoluções políticas, de corridas bancárias a bolhas financeiras, de piadas a cancelamentos. 

A força do livro está em sua clareza expositiva, na riqueza de exemplos e na amplitude de seus interesses. Pinker não é apenas um psicólogo cognitivo; é um leitor voraz de literatura, filosofia, economia e teoria dos jogos, e essa erudição transparece em cada página. Sua defesa do otimismo iluminista — a ideia de que podemos entender o mundo e, ao entendê-lo, melhorá-lo — é um antídoto necessário contra o pessimismo reinante. 

No entanto, o livro também tem suas fraquezas. Há uma tensão entre a ambição analítica e a execução às vezes desigual. As intervenções pessoais de Pinker, que deveriam humanizar o texto, podem soar como autopromoção. Sua crítica a certas correntes do pensamento acadêmico, embora em muitos aspectos justa, pode parecer defensiva. E o otimismo de Pinker — sua crença de que o conhecimento pode nos salvar — pode soar ingênuo para aqueles que veem a fragmentação da esfera pública como um problema estrutural, não apenas cognitivo. 

No final, o livro cumpre sua promessa: nos faz ver o mundo de uma maneira diferente. Depois de ler Pinker, é difícil não notar os momentos em que o conhecimento comum está sendo criado ou evitado — o encontro de olhares no trânsito, o "café" após o encontro, a placa de "PROIBIDO FUMAR", o riso em resposta a uma piada. E, talvez, essa seja a contribuição mais importante do livro: não apenas explicar o conhecimento comum, mas torná-lo... conhecimento comum. 

Como o próprio Pinker escreve: "Nossa compreensão do conhecimento comum é ela própria um exemplo de conhecimento comum que pode nos ajudar a navegar em um mundo cada vez mais complexo" [paráfrase]. Nesse sentido, o livro é um sucesso: ele nos dá ferramentas para pensar sobre o mundo e, quem sabe, para agir de forma mais coordenada dentro dele. 

Informações Bibliográficas 

Campo 

Informação 

Título completo 

When Everyone Knows That Everyone Knows...: Common Knowledge and the Mysteries of Money, Power, and Everyday Life 

Autor 

Steven Pinker 

Editora (EUA) 

Scribner 

Editora (Reino Unido) 

Allen Lane / Penguin Books 

Data de Publicação 

Setembro de 2025  

Páginas 

364  

ISBN 

9781668011577  

Tradução espanhola 

Cuando todos saben que todos lo saben...Ediciones Paidós, março de 2026  

Estrutura 

9 capítulos, mais introdução, bibliografia e índice  

Prêmios/Reconhecimentos 

Elogios de Bill Gates, dois Prêmios Nobel de Economia (Eric Maskin e Robert Aumann), Daron Acemoglu, Jonathan Haidt, entre outros 

 

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