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domingo, 29 de março de 2026

O Desafio Economia Ecológica 6 entre a Água, o Fogo e o Poder por Egidio Guerra

 



Os três livros analisados — The Water Will Come de Jeff GoodellFire Weather de John Vaillant e Everyone Who Is Gone Is Here de Jonathan Blitzer — compõem um retrato sombrio e interconectado do mundo contemporâneo. Cada um, a seu modo, investiga como as crises ecológicas e políticas estão reconfigurando a vida humana. Goodell documenta a inevitável ascensão dos mares, Vaillant narra o poder devastador dos incêndios florestais na era do aquecimento global, e Blitzer revela como as intervenções geopolíticas dos Estados Unidos na América Central geraram ondas migratórias que hoje chegam à sua fronteira sul.

Juntos, esses trabalhos oferecem uma tríade analítica: a água, o fogo e o poder. O argumento central que emerge dessa leitura conjunta é que as crises ecológicas não são fenômenos naturais isolados, mas sim produtos de decisões políticas, interesses econômicos e uma falha estrutural de imaginação — uma incapacidade humana de conceber e agir diante de ameaças que transcendem a experiência individual.


1. The Water Will Come: A Inevitabilidade da Água

Resumo e Principais Argumentos

Jeff Goodell, jornalista científico, inicia The Water Will Come com uma premissa que já está em seu título: a água virá. Diferentemente de muitos livros sobre mudanças climáticas que ainda se perguntam "o que podemos fazer para parar isso?", Goodell reformula a questão para "como será?" e "o que faremos a respeito?". O livro opera, portanto, no terreno da adaptação, não mais da mitigação.

Goodell estrutura sua narrativa jornalística visitando lugares na linha de frente do avanço do mar: Miami, Veneza, Lagos, Nova York e as Ilhas Marshall. Em Miami, ele descreve uma cidade construída sobre calcário poroso, onde a água do oceano já aflora pelas galerias de esgoto em dias de maré alta. O autor cita o prefeito de South Miami, Philip Stoddard, que sobre a usina nuclear Turkey Point — situada ao sul da cidade, em área vulnerável — faz uma afirmação contundente: "É impossível imaginar um lugar mais estúpido para construir uma usina nuclear do que Turkey Point". A citação exemplifica uma tese recorrente no livro: a negação e o planejamento míope colocam infraestruturas críticas em risco catastrófico.

Em Nova York, Goodell descreve os debates pós-furacão Sandy sobre como proteger Manhattan. Um dos planos mais inovadores é o "Big U" — um projeto que propõe criar uma barreira de proteção contra enchentes disfarçada de parque público. Goodell observa que "projetos como este são matizados, complexos e caros, tornando-os difíceis de vender como uma solução rápida". Essa dificuldade de comunicação política contrasta com a urgência científica.

A narrativa também visita Veneza, onde o sistema de comportas MOSE — um projeto bilionário de barreiras móveis — exemplifica a tentativa de proteger um patrimônio cultural "precioso demais para perder". A pergunta que Goodell levanta é incômoda: até onde iremos para preservar cidades que o oceano reclama?

Críticas e Limitações 

Jessica Lamond, na Science Magazine, aponta uma limitação significativa: embora o livro reconheça a inequidade dos impactos climáticos como um fio condutor, Goodell favorece uma perspectiva americana e do mundo desenvolvido. Lagos e as Ilhas Marshall aparecem como contrapontos, mas o centro gravitacional da narrativa permanece nas grandes cidades ocidentais.

Outra crítica implícita na obra é o fatalismo. Ao focar quase exclusivamente na adaptação, Goodell dedica menos atenção às possibilidades de mitigação radical que ainda poderiam reduzir a magnitude do problema. O livro conclui com uma mensagem ambígua de fatalismo e esperança, levantando mais perguntas do que respostas.

Um leitor na plataforma StoryGraph resume o impacto emocional: "Este livro não me faz sentir particularmente otimista sobre o futuro, mas aprendi muito". O mesmo leitor destaca uma citação que ecoa a tese central da inevitabilidade: "vamos ter que viver de forma diferente no futuro".

 

2. Fire Weather: A Autonomia do Fogo 

Resumo e Principais Argumentos

John Vaillant, autor de The Tiger, constrói Fire Weather em torno de um evento específico: o incêndio florestal que destruiu Fort McMurray, Alberta, em maio de 2016. O que começou como um fogo modesto transformou-se em um inferno que forçou a evacuação de 88 mil pessoas em poucas horas e continuou queimando por quinze meses.

Vaillant descreve a ciência por trás do desastre com precisão narrativa. O ponto crítico foi um fenômeno meteorológico chamado "crossover", quando a temperatura ambiente ultrapassa a umidade relativa do ar. Nesse momento, explica Vaillant"o ambiente se torna um aliado atendendo a todas as necessidades do fogo: altas temperaturas, baixa umidade, combustível seco e vento". O fogo deixa de lutar contra seu ambiente e passa a ser alimentado por ele.

Uma das contribuições conceituais mais importantes do livro é a aplicação do "Problema de Lucrécio" para entender a falha de resposta. Titus Lucretius Carus, poeta e filósofo romano do século I a.C., identificou uma falha na percepção humana: há um abismo entre a experiência individual e o que é realmente possível. Vaillant argumenta que isso explica por que autoridades e cidadãos não conseguiram compreender a escala da ameaça — eles simplesmente nunca haviam experimentado algo assim e, portanto, não conseguiam imaginá-lo. O autor cita o relatório da Comissão do 11 de Setembro para ecoar essa ideia: "A falha mais importante foi uma falha de imaginação".

Vaillant também recupera uma história esquecida da ciência climática: em 1856, a cientista americana Eunice Foote demonstrou que o dióxido de carbono retém calor. Seu experimento com dois cilindros de vidro — um com ar comum, outro com CO₂ adicional — mostrou que o segundo "ficou muito mais aquecido [...] e demorou muitas vezes mais para esfriar". O conhecimento sobre o aquecimento global causado pelo carbono existe há mais de 160 anos.

Críticas e Limitações

O livro não escapa de críticas. Tony, em sua resenha no Goodreads, observa que Vaillant se torna "preachy and politicalangry even" (predicador e político, até raivoso) na terceira parte. O revisor aponta que o autor faz conexões que considera forçadas — como comparar a autoregulação dos mercados financeiros à recuperação ecológica após um vulcão, concluindo que "Facebook e Amazon são mais destrutivas que Krakatoa".

Outra crítica recorrente é a ausência de notas de rodapé no texto (apenas notas ao final) e a falta de mapas que ajudassem o leitor a visualizar a geografia do incêndio. Um revisor também questiona o tratamento dado ao papel da China e da Índia nas emissões globais, sugerindo que Vaillant atribui a responsabilidade quase exclusivamente ao Ocidente.

O impacto emocional do livro, no entanto, é inegável. Um leitor descreve a sensação de ler Fire Weather como "estar em Pompéia antes da erupção", questionando se estamos próximos de um colapso cultural e social.


3. Everyone Who Is Gone Is Here: O Poder e a Produção da Crise 

Resumo e Principais Argumentos

Jonathan Blitzer, jornalista da The New Yorker, oferece algo diferente dos dois livros anteriores: uma história política e humana da crise migratória na fronteira sul dos Estados Unidos. O título — Everyone Who Is Gone Is Here — captura a paradoxal presença da ausência: aqueles que partiram de suas terras natais estão agora "aqui", nos Estados Unidos, mas carregam consigo as histórias de tudo o que ficou para trás.

Blitzer argumenta que a crise não é um fenômeno recente, mas o resultado de décadas de políticas equivocadas e corrupção generalizada, profundamente enraizadas na intervenção dos EUA na América Central durante a Guerra Fria. O livro alterna entre narrativas pessoais de migrantes — como Juan Romagoza, que sobreviveu à tortura nas mãos de ditaduras militares em El Salvador apoiadas pelos EUA, passando 48 horas escondido em um caixão — e análises das políticas americanas que moldaram o sistema de imigração.

Uma das teses centrais de Blitzer é que "a política de imigração é governada por uma política de crise permanente, com a fronteira como seu palco". Ele descreve como o princípio da dissuasão — a ideia de que desviar pessoas suficientes fará com que outros parem de tentar vir — é fundamentalmente falho e persiste sob administrações democratas e republicanas.

O livro expõe contradições cruciais. O Refugee Act de 1980 deveria padronizar o direito de asilo, mas paradoxalmente "forneceu ao governo um pretexto legal para emitir negações". Os resultados são arbitrariamente inconsistentes: entre 2013 e 2017, 40% dos solicitantes de asilo obtiveram alívio nos tribunais de imigração em todo o país, mas em El Paso, Texas, a taxa de concessão foi de apenas 3%.

Blitzer também documenta a política de separação familiar do governo Trump através da história de Keldy Gonzales de Zuniga, uma mãe hondurenha que fugiu após quatro de seus irmãos serem mortos. A cena em que agentes arrancam seus filhos dela enquanto as crianças gritam é descrita em prosa direta e devastadora: "As crianças levantaram-se e se agarraram às grades da cela. [...] Todos estavam gritando. Keldy ficou de pé enquanto seu corpo era disputado".

Críticas e Limitações

O livro recebeu aclamação quase unânime da crítica. A Publishers Weekly o chamou de "uma acusação poderosa da política de imigração dos EUA". Jill Lepore o descreveu como "um relato penetrante, dilacerante e magistralmente reportado" da crise humanitária.

No entanto, é possível apontar que Blitzer, ao focar nas histórias humanas e nas políticas americanas, dedica menos espaço às agências dos próprios migrantes e às estruturas sociais na América Central que antecedem a intervenção dos EUA. Além disso, como observa um revisor do Washington Times, o livro deixa claro que "ninguém emerge como vencedor" — uma conclusão poderosa, mas que pode deixar o leitor sem um sentido claro de caminhos políticos viáveis.

4. Síntese: Água, Fogo e Poder

A leitura simultânea dessas três obras revela um diagnóstico comum, embora com ênfases distintas.

4.1 A Falha de Imaginação

Tanto Vaillant quanto Goodell apontam para uma mesma falha cognitiva. Vaillant a nomeia explicitamente como o "Problema de Lucrécio": a incapacidade humana de acreditar em algo que não foi experimentado. As autoridades de Fort McMurray não conseguiam imaginar um fogo que queimasse uma cidade inteira; os incorporadores imobiliários de Miami não conseguem imaginar ruas permanentemente alagadas.

Goodell captura a mesma dinâmica ao descrever a resistência a projetos complexos de adaptação. Em uma citação marcante, ele observa que tais projetos "exigem que as pessoas reconheçam que o mundo está mudando rapidamente e que terão que viver de forma diferente no futuro". Essa exigência é precisamente o que a psique coletiva resiste em aceitar.

4.2 A Materialidade das Crises

Há uma distinção importante entre os três livros. Goodell e Vaillant lidam com agentes não humanos — água e fogo — que adquirem quase uma agência própria. Vaillant, em particular, descreve o fogo como algo que "tem sua própria agência que se manifesta como algo próximo à vontade". A água de Goodell também tem sua inevitabilidade geofísica; ela simplesmente virá, independentemente do que desejemos.

Blitzer, por outro lado, mostra como o poder humano — exercido através de políticas, intervenções militares e sistemas legais — produz e agrava crises. A água e o fogo são fenômenos naturais amplificados pelo aquecimento global; o poder, no entanto, é uma construção humana que pode ser desconstruída.

4.3 A Conexão Ecológico-Política 

Uma citação de Blitzer oferece a ponte entre os três livros. Ao citar um migrante centro-americano, ele registra: "As pessoas dizem que essa caravana é sobre política? Bem, claro, se por política você quer dizer fome". A frase desconstrói a falsa dicotomia entre crises "naturais" e "políticas". A fome é resultado de secas (água), de incêndios que devastam plantações (fogo) e de décadas de políticas econômicas e militares que desestabilizaram regiões inteiras (poder). 

Os três livros, considerados em conjunto, revelam que não há crise ecológica que não seja também uma crise política, e não há crise política que não tenha suas raízes em relações de poder que moldam a relação da humanidade com o planeta. O "desafio ecológico entre a água, o fogo e o poder" é, em última instância, o desafio de reconhecer que estamos todos imersos em um mesmo sistema. 

 5. Conclusão 

Os três livros compartilham um tom que varia entre o sombrio e o urgente. Goodell termina seu livro com imagens de cidades submersas; Vaillant descreve um mundo onde o fogo adquiriu autonomia catastrófica; Blitzer documenta a transformação de vidas humanas em exceções legais e estatísticas. 

Há, no entanto, diferenças importantes de ênfase. Goodell é o cronista da adaptação necessária, mostrando como cidades ricas constroem muralhas contra o mar enquanto comunidades pobres já estão sendo deslocadas. Vaillant é o arqueólogo do conhecimento perdido, recuperando a descoberta de Eunice Foote e a história de como a indústria de combustíveis fósseis ignorou advertências por mais de um século. Blitzer é o historiador do poder, mostrando como as decisões tomadas em Washington durante a Guerra Fria continuam a produzir efeitos nas fronteiras do presente. 

O que une esses livros é a convicção de que a separação entre "crise ecológica" e "crise política" é artificial. A água e o fogo são os agentes de um planeta em desequilíbrio, mas o poder humano — corporativo, estatal, militar — determinou a magnitude desse desequilíbrio e continua a determinar quem sofre suas consequências. 

Como Goodell escreve, e todos os três livros ecoam: "a água virá". E o fogo também. E aqueles que já se foram — os deslocados, os refugiados climáticos, os que fogem da fome e da violência — já estão aqui. A questão, para usar a formulação de Vaillant, é se nossa falha de imaginação persistirá até o ponto em que não haja mais como imaginar uma saída. 

Referências 

BLITZER, Jonathan. Everyone Who Is Gone Is Here: The United States, Central Americaand the Making of a CrisisPenguin Press, 2024. 

GOODELL, Jeff. The Water Will Come: Rising Seas, Sinking Citiesand the Remaking of the Civilized World. Little Brown, 2017. 

VAILLANT, John. Fire Weather: On the Front Lines of a Burning World. 2024. 

 

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