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sábado, 28 de março de 2026

Nosso futuro que construiremos—com as mãos, com o coração e com a coragem de desobstruir os caminhos! Por Egidio Guerra



O futuro, como categoria de pensamento, oscila entre a projeção calculista e o desejo profundo. Três obras recentes—Hope Dies Last de Alan WeismanHuman Nature de Kate Marvel e Abundance de Ezra Klein com Derek Thompson—oferecem um painel abrangente e, em muitos aspectos, complementar, sobre como podemos conceber e construir o amanhã. Cada uma parte de um diagnóstico distinto sobre o presente, mobiliza uma força motriz específica (esperança, emoção, capacidade de construção) e aponta para caminhos que, embora distintos, convergem para a necessidade de ação diante de crises existenciais. Juntas, elas desenham um mapa para navegarmos um futuro que já não será o que esperávamos, mas que ainda pode ser moldado. 

I. Hope Dies Last: A Esperança que se encontra nas Trincheiras 

Alan Weisman, autor do best-seller The World Without Us, retorna com uma obra que é, em sua essência, uma investigação sobre a tenacidade humana. Em Hope Dies LastVisionary People Across the World, Fighting to Find Us a FutureWeisman viaja pelo globo para documentar não a catástrofe em si, mas a resposta a ela. O título, extraído de um provérbio atribuído a militantes trabalhistas, estabelece o tom: a esperança não é um otimismo ingênuo, mas a última força a sucumbir, mesmo diante das piores probabilidades. 

A estrutura do livro é um testemunho dessa busca. Weisman nos leva das ilhas Marshall, ameaçadas pela elevação do nível do mar, aos pântanos do Iraque, onde um engenheiro desafia a lógica da destruição ao reconstruir o que muitos consideravam perdido. Ele visita as zonas desmilitarizadas da Coreia, que se tornaram santuários involuntários para a vida selvagem, e os esforços nos Países Baixos para repensar a convivência com as águas. Não se trata de um catálogo de soluções tecnológicas abstratas, mas de um mosaico de histórias humanas. O livro perfila desde cientistas do MIT até membros da nação Ojibwe lutando contra oleodutos, passando por empresas em Bangladesh que transformam plástico reciclado em jeans. 

A força narrativa de Weisman reside em sua capacidade de mostrar que a esperança não é um sentimento passivo, mas um pré-requisito para a coragem. Uma das frases mais marcantes do livro, repetida como um mantra, é uma constatação que serve tanto como advertência quanto como chamado à ação: "Não existe Planeta Dois" (There is no Planet Two). Diante dessa verdade incontornável, Weisman não se permite o luxo do desespero. Em vez disso, ele encontra nos visionários que retrata uma lição fundamental: o "impossível" muitas vezes é apenas uma máscara para a falta de imaginação. A esperança, para Weisman, não é a crença de que tudo ficará bem, mas a força motriz que permite que pessoas comuns se tornem agentes de restauração, reconstruindo pântanos, recriando habitats e resistindo a forças aparentemente invencíveis. Seu livro é um antídoto contra a paralisia do medo, um lembrete de que, mesmo quando passamos de um ponto de não retorno climático, a ação humana continua sendo o fator mais decisivo. 

 

II. Human Nature: A Força Motriz das Nove Emoções 

Se Weisman nos mostra a esperança em ação, Kate Marvel, climatologista de renome, nos convida a uma jornada interior. Em Human Nature: Nine Ways to Feel About Our Changing Planet, ela propõe uma abordagem radicalmente diferente para o engajamento com a crise climática: em vez de suprimir as emoções em nome de uma suposta objetividade científica, precisamos abraçá-las. 

A estrutura do livro é, em si, uma declaração de método. Dividido em nove capítulos, cada um é batizado com um sentimento: Admiração, Raiva, Culpa, Medo, Luto, Surpresa, Orgulho, Esperança e Amor. Marvel argumenta que não há uma única maneira correta de se sentir sobre um planeta em transformação. A ansiedade climática, muitas vezes tratada como um transtorno a ser gerenciado, é, na verdade, uma resposta racional a uma ameaça existencial. O erro, segundo ela, seria tentar silenciar essa cacofonia emocional. 

Marvel utiliza cada emoção como uma lente para explorar a ciência. A admiração, por exemplo, é o sentimento adequado diante dos modelos climáticos—ferramentas que, segundo ela, nos permitem entender o passado do planeta com tanta precisão que "temos mais certeza de que os gases de efeito estufa estão aquecendo o planeta do que temos de que o cigarro causa câncer". A raiva é uma resposta justificada àqueles que lucraram conscientemente com a destruição ambiental. O luto é uma homenagem ao que está sendo perdido. Mas Marvel não se detém na escuridão. Ela encontra espaço para a esperança ao relembrar sucessos coletivos do passado, como o combate à chuva ácida e a recuperação da camada de ozônio—evidências de que a humanidade, quando age em conjunto, é capaz de reverter danos. 

O que torna Human Nature singular é sua reivindicação de que precisamos de toda a gama de emoções que pudermos reunir para nos importarmos o suficiente e tomarmos decisões melhores. Ao entrelaçar mitologia, física, memórias pessoais e até mesmo roteiros de cinema imaginários, Marvel demonstra que a ciência, para ser eficaz, não pode ser apenas comunicada; ela precisa ser sentida. Em última análise, seu livro é um chamado para transformar sentimentos poderosos em ações poderosas, reconhecendo que a luta contra as mudanças climáticas é também uma luta pela integridade de nossa experiência humana. 

 

III. Abundance: O Futuro Como um Projeto de Construção Coletiva 

Se Weisman nos oferece o testemunho e Marvel nos oferece a catarse, Ezra Klein e Derek Thompson, em Abundance, nos oferecem um diagnóstico político e uma prescrição prática. O ponto de partida do livro é uma pergunta incômoda: como pode o país mais rico e tecnologicamente avançado do mundo ser tão inepto na construção de coisas que outros países fazem com eficiência? Por que a Califórnia, um símbolo de progresso, não consegue construir um trem de alta velocidade após décadas de planejamento?  

A resposta, segundo Klein e Thompson, está na ascensão de uma mentalidade de escassez (scarcity mindset), que pressupõe que os recursos são limitados, que a capacidade está no limite e que o papel das instituições é, acima de tudo, racionar e proteger contra riscos. Essa mentalidade, enraizada em um emaranhado de regulamentações bem-intencionadas, mas disfuncionais—leis de zoneamento, revisões ambientais intermináveis, processos de licenciamento que duram anos—criou um ambiente de paralisia. O que era para ser uma salvaguarda contra abusos tornou-se um obstáculo intransponível para a ação. O resultado é uma "política do tudo-ao-mesmo-tempo" (everything-bagel liberalism), que impõe tantas camadas de revisão que o governo se torna incapaz de agir de forma consequente. 

Em contrapartida, os autores propõem uma mentalidade de abundância (abundance mindset), que parte do princípio de que a capacidade pode ser expandida, que a inovação pode desbloquear novas ofertas e que a "torta" pode crescer. Não se trata de um liberalismo ingênuo que ignora os riscos, mas de um "liberalismo que constrói" (liberalism that builds). A promessa da abundância é que podemos ter mais moradias acessíveis, mais energia limpa e mais inovação científica se desmontarmos as barreiras processuais que nos impedem de construir. 

A Crítica e o Debate: A proposta de Abundance, no entanto, não ficou sem críticas contundentes. Christopher F. Jones, na Los Angeles Review of Books, argumenta que a visão dos autores é excessivamente tecnocrática e ignora as dimensões políticas e econômicas mais profundas. Jones aponta que o sucesso da ferrovia transcontinental no século XIX, citado pelos autores como exemplo de capacidade construtiva, veio acompanhado de trabalho escravo chinês, genocídio de nativos americanos e corrupção desenfreada. A pergunta incômoda que fica é: como recriar a capacidade de construir sem repetir os mesmos horrores? 

Além disso, críticos na Boston Review questionam a premissa de que o zoneamento e as revisões ambientais são os principais vilões da crise habitacional, apontando para fatores como altas taxas de juros, custo da terra e a própria lógica do investimento privado como causas igualmente ou mais relevantes. Há também uma crítica ao que se considera uma fé excessiva na tecnologia (techno-solutionism), que subestima os custos ambientais e sociais da mineração e produção em massas necessárias para viabilizar a transição energética. 

Apesar dessas críticas, a força de Abundance está em deslocar o debate do "se devemos fazer" para o "como fazemos". Ele desafia tanto a direita, que desconfia do Estado, quanto a esquerda, que frequentemente se apega a processos que resultam em imobilismo. O futuro, segundo Klein e Thompson, não será decidido apenas por boas intenções, mas pela nossa capacidade coletiva de desobstruir os canais da ação. 

Conclusão: Um Futuro Tecido em Três Fios 

Em conjunto, os três livros oferecem um retrato tridimensional do nosso tempo e das possibilidades que se abrem à nossa frente. Weisman nos dá a base: a esperança não é um luxo, mas um recurso necessário, encontrado nas ações concretas de pessoas que se recusam a desistir diante do "impossível". Marvel nos dá o motor psicológico: para sustentar essa esperança e agir, precisamos dar espaço a todas as emoções—da raiva ao luto, do orgulho ao amor—que nos conectam ao mundo que buscamos proteger. Klein e Thompson nos dão o instrumental político: uma vez mobilizados e emocionalmente engajados, precisamos desmantelar as estruturas que nos impedem de construir as soluções que já conhecemos ou que podemos inventar. 

Não há uma receita única. A jornada descrita por essas obras sugere que o futuro será forjado na tensão entre a perseverança de Weisman, a integridade emocional de Marvel e a pragmática obstinação construtiva de Klein e Thompson. Se a crise ecológica e política nos ensina algo, é que não podemos mais nos dar ao luxo da separação. A esperança que persiste precisa se alimentar da emoção, e ambas precisam se traduzir em projetos concretos. O futuro não será um lugar aonde chegaremos, mas algo que construiremos—com as mãos, com o coração e com a coragem de desobstruir os caminhos. 

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