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domingo, 29 de março de 2026

Conatus em Rede: Spinoza, a Internet e a Potência de Resistência no Mundo Digital por Egidio Guerra





Introdução: Dois Paradigmas em Confronto

O que acontece com a potência de existir — com o conatus spinoziano — quando o ambiente no qual essa potência se expressa é a internet? A pergunta não é trivial. De um lado, Nicholas Carr, em The ShallowsWhat the Internet Is Doing to Our Brains, oferece um diagnóstico sombrio: a tecnologia digital estaria literalmente "reconfigurando" nossos cérebros, induzindo à superficialidade, à distração crônica e ao enfraquecimento da capacidade de concentração e contemplação. De outro, filósofos como Laurent Bove, ao recuperarem o conceito de conatus como "esforço para perseverar no ser", e pesquisadores contemporâneos que aplicam a filosofia spinoziana ao ciberespaço sugerem uma possibilidade alternativa: a rede pode ser compreendida como um campo de afetos, um território de encontros onde o conatus se afirmar, se expande ou, ao contrário, se fragmenta.

Este texto propõe um diálogo entre essas perspectivas. Argumentarei que a internet não é, em si mesma, nem a "máquina de entorpecimento" que Carr descreve nem o espaço de libertação absoluta que alguns entusiastas imaginam. Ela é, sobretudo, um ambiente — e como tal, opera como um dispositivo que modula a potência de agir de seus usuários. A questão, formulada em termos spinozianos, é: sob quais condições a experiência digital constitui um encontro que aumenta nosso conatos (produzindo alegria, criatividade, expansão da potência) e sob quais condições ela o diminui (produzindo passividade, distração, enfraquecimento)?


1. Nicholas Carr e o Diagnóstico do Esvaziamento: The Shallows

1.1 Resumo e Argumentos Centrais

Publicado em 2010 e finalista do Prêmio Pulitzer, The Shallows parte de uma pergunta que Nicholas Carr formulou em um influente artigo da Atlantic Monthly: "O Google está nos tornando estúpidos?". A resposta, desenvolvida ao longo do livro, é uma investigação profunda sobre como as tecnologias cognitivas moldam o cérebro humano.

Carr apoia-se em descobertas da neurociência, particularmente os estudos de Michael Merzenich e Eric Kandel, para demonstrar a plasticidade neural: nosso cérebro se reorganiza constantemente em resposta às experiências que vivenciamos. A tese central é que a internet, como ferramenta cognitiva dominante de nosso tempo, está promovendo um tipo específico de reorganização neural — uma que favorece o escaneamento rápido, a mudança constante de foco e o processamento fragmentado de informações em detrimento da leitura profunda, da concentração sustentada e da contemplação.

Carr contrasta a "ética intelectual" do livro impresso com a da internet. O livro, argumenta ele, nos ensinou a atenção linear e a imersão prolongada em um único fluxo de pensamento. A internet, ao contrário, opera segundo a lógica do industrialismo: velocidade, eficiência, otimização da produção e consumo de bits de informação. Sua arquitetura — hiperlinks, notificações, múltiplas abas — é uma máquina de distração projetada para nos manter em estado de alerta perpétuo, mas jamais de aprofundamento.

1.2 Críticas e Limitações da Perspectiva de Carr

A força de Carr está em seu alerta lúcido sobre os custos cognitivos da hiperconectividade. No entanto, sua perspectiva não escapa de críticas. Em primeiro lugar, há um certo determinismo tecnológico em sua análise: a internet aparece como uma força quase autônoma que age "sobre" os usuários, restando a estes apenas a passividade ou a resistência nostálgica (como sugerem os elogios ao livro como um "Silent Spring para a mente literária").

Em segundo lugar, Carr tende a naturalizar um modo específico de cognição — o da leitura linear e contemplativa associada ao livro — como o padrão de "pensamento profundo" legítimo, sem considerar suficientemente que diferentes formas de cognição podem coexistir ou que novas formas de inteligência (como a multitarefa estratégica ou o pensamento em rede) podem emergir das práticas digitais.

Por fim, e mais relevante para nosso propósito, Carr opera com uma concepção implícita de sujeito que é passiva. O que falta em The Shallows é uma teoria da potência — uma compreensão de como os indivíduos não são meramente afetados pela tecnologia, mas podem também agir sobre ela, usando-a para expandir sua capacidade de pensar, criar e se relacionar. É nesse ponto que o conatus spinoziano se torna um contraponto filosófico necessário.

2. O Conatus Spinoziano: Afirmação, Resistência e Potência

2.1 O Conceito de Conatus na Ética de Espinosa

O conceito de conatus é central na filosofia de Baruch Spinoza. Na Ética, ele o define como o "esforço pelo qual cada coisa se esforça por perseverar no seu ser" (Ética, III, Prop. 6). Esse esforço não é meramente conservador; ele é a própria essência atual do ser, sua potência de existir e de agir. Como Laurent Bove demonstra em A Estratégia do Conatus, esse conceito tem raízes em discussões estoicas sobre oikeiosis — o "tornar-se familiar" ou "apropriar-se" de si mesmo —, mas Spinoza o radicaliza ao desvinculá-lo de qualquer teleologia e inscrevê-lo no plano imanente da natureza.

Para Spinoza, o conatus se expressa como desejo (cupiditas) quando acompanhado de consciência. E o desejo, crucialmente, pode ser aumentado ou diminuído pelos encontros que o corpo realiza. Quando encontramos algo que aumenta nossa potência de agir, experimentamos alegria (laetitia); quando encontramos algo que a diminui, experimentamos tristeza (tristitia). A vida ética, nessa perspectiva, é a arte de organizar os encontros de modo a maximizar as alegrias e a potência de existir.

2.2 Conatus e Resistência: A Dimensão Política do Esforço

Bove avança ao mostrar que o conatus não é apenas um princípio de autopreservação individual, mas também uma estratégia de resistência contra as formas de poder que buscam diminuir a potência dos corpos. Em contextos de opressão — sejam políticos, econômicos ou, poderíamos acrescentar, tecnológicos — o conatus se manifesta como a capacidade de os corpos se organizarem, de afirmarem sua potência contra as forças que buscam subjugá-los.

Essa dimensão política é fundamental para pensarmos a internet. Se a arquitetura das plataformas digitais pode operar como um dispositivo que captura a atenção e produz passividade, ela também pode se tornar, nas mãos de sujeitos ativos, um campo de afirmação e resistência. O conatus não é uma força que se exerce no vazio; ele sempre se manifesta em relação, em encontro, em meio a afetos.

3. O Conatus em Rede: Mediações e Potência no Ciberespaço

3.1 A Internet como Campo de Afetos e Encontros

Uma pesquisa publicada na Revista Manuscritica (USP) em 2021 oferece um exemplo concreto de como o conceito spinoziano pode ser aplicado à análise das experiências digitais. Uillian Trindade Oliveira investiga o "Sarau Virtual Mande Notícias", um evento interativo de múltiplas artes realizado durante a pandemia de Covid-19. Utilizando os conceitos de conatus, afetos e percepções de Spinoza, bem como os conceitos deleuzianos de rizoma e território, Oliveira analisa como o ciberespaço se tornou, para os participantes, um "poder criativo e expositivo para afetar e ser afetado".

O estudo mostra que, em condições de isolamento e confinamento, o espaço virtual não foi meramente um substituto empobrecido do encontro presencial. Foi, antes, um território de desterritorialização — um ambiente onde os participantes puderam ressignificar suas existências por meio de atos potentes em fluxo constante. O conatus, aqui, não é diminuído pela mediação digital; ao contrário, encontra na rede um campo de expansão, onde a criação artística e o afeto compartilhado se tornam possíveis mesmo à distância.

Essa pesquisa sugere uma correção importante ao pessimismo de Carr: o que importa não é a tecnologia em si, mas o uso que dela se faz e o contexto afetivo no qual ela se insere. A internet não é uma força externa que nos determina; ela é um meio no qual o conatus pode se afirmar ou se perder, dependendo das formas de uso e dos encontros que ela viabiliza.

3.2 Pesquisas Educacionais: Entre a Captura e a Autonomia

A literatura sobre neurociência aplicada à educação e os impactos das tecnologias digitais nos processos de aprendizagem tem avançado em direções que corroboram essa visão mais matizada. Um estudo recente de Nascimento et al. (2026) investiga os "fundamentos neurocientíficos da aprendizagem mediada por tecnologias digitais", considerando processos cognitivos, plasticidade cerebral e implicações para práticas pedagógicas.

Os resultados indicam que o uso de tecnologias digitais na educação não produz automaticamente nem melhora nem deterioração cognitiva. A chave está na articulação entre fundamentos neurocientíficos, design de tecnologias educacionais e práticas pedagógicas. Em outras palavras, a potência (ou impotência) do dispositivo digital depende de como ele é agenciado — de como se organizam os encontros entre alunos, professores, conteúdos e interfaces.

Uma pesquisa ainda mais elucidativa vem de Kim et al. (2025), publicada na Educational Technology Research and Development. O estudo investigou como diferentes formas de busca online afetam a curiosidade e a recordação de informações. Foram comparados dois grupos: um que, antes de pesquisar, tinha que primeiro gerar ou adivinhar respostas ("pensar antes de googlar"), e outro que iniciava a busca imediatamente.

Os resultados são reveladores: o grupo que "pensou antes" demonstrou curiosidade significativamente maior e melhor desempenho de recordação em comparação com o grupo que foi direto à busca. No entanto, não houve diferenças significativas na autoestima cognitiva e na estimativa de desempenho.

Essa pesquisa é um exemplo perfeito do que significa exercer o conatus no ambiente digital. O ato de pensar antes de buscar — de mobilizar a própria potência de investigação antes de recorrer ao dispositivo — é uma estratégia de resistência contra o que poderíamos chamar de "uso passivo" da internet. Ele transforma a relação de captura (o usuário que é levado de um link a outro sem direção) em uma relação de afirmação (o usuário que usa a rede como extensão de sua própria investigação).

4. Síntese: Conatus, Poder e Resistência na Era Digital

4.1 A Falha de Imaginação de Carr à Luz de Spinoza

Se retomarmos o "Problema de Lucrécio" mencionado na análise anterior sobre Fire Weather — a falha humana de acreditar no que não foi experimentado —, podemos aplicá-lo à própria análise de Carr. O que Carr diagnostica como um empobrecimento inevitável do pensamento pode ser, na verdade, uma falha de imaginação sobre o que a cognição digital pode se tornar. Sua visão é a de um conatus diminuído, capturado pelas forças do dispositivo.

Spinoza nos ensina, no entanto, que a potência não é fixa. Ela é sempre o resultado de encontros. Se a internet, em seus usos mais passivos, nos coloca em encontro com a distração, a fragmentação e o consumo compulsivo, ela também pode nos colocar em encontro com coletivos de criação, com redes de aprendizado colaborativo, com formas de organização política e cultural que expandem nossa potência de existir.

4.2 A Dimensão Política do Conatus Digital

A obra de Laurent Bove sobre a "estratégia do conatus" adquire aqui sua relevância plena. Para Bove, o conatus não é apenas conservação, mas afirmação — e afirmação implica resistência às formas de poder que buscam reduzir a potência dos corpos.

No contexto digital, essas formas de poder são múltiplas: algoritmos que capturam a atenção para fins comerciais, plataformas que extraem dados e produzem comportamentos previsíveis, arquiteturas de interface que privilegiam o consumo rápido sobre a criação lenta. Resistir, do ponto de vista spinoziano, não é abandonar a tecnologia, mas usá-la de modo a afirmar a própria potência — como no "pensar antes de googlear" da pesquisa de Kim et al., ou como na criação artística coletiva do Sarau Virtual estudado por Oliveira.

4.3 Por uma Pedagogia do Conatus Digital

As pesquisas educacionais que articulam neurociência e tecnologias digitais apontam para uma conclusão crucial: não há tecnologia boa ou ruim em si; há usos que aumentam ou diminuem a potência dos sujeitos. Isso implica uma agenda pedagógica clara: é preciso ensinar não apenas a usar as ferramentas digitais, mas a agenciá-las — a compreender seus efeitos afetivos e cognitivos, a escolher quando e como usá-las, a cultivar a atenção como uma prática ética e não apenas como um recurso a ser otimizado.

Uma pesquisa publicada em 2026 na revista Ciencia y Educación reforça essa perspectiva ao analisar os dispositivos digitais como "mediações informacionais normativas, estruturadas por expectativas implícitas relativas às formas de aprender, informar-se e produzir sentido escolar". Os autores mostram como esses dispositivos podem gerar "mal-entendidos informacionais e cognitivos", contribuindo para a reconfiguração das desigualdades de aprendizagem. A conclusão é que não basta oferecer acesso; é preciso compreender criticamente os modos de mediação que os dispositivos instauram.

5. Conclusão: O Conatus como Chave para uma Ética Digital

A comparação entre o diagnóstico de Nicholas Carr e a filosofia spinoziana do conatus nos permite superar um falso dilema. Não se trata de escolher entre um otimismo ingênuo que vê na internet a promessa de libertação total e um pessimismo nostálgico que a vê como máquina de entorpecimento.

Trata-se, antes, de recusar a posição passiva de quem se vê apenas como afetado pela tecnologia e assumir a posição ativa de quem se pergunta: como posso organizar meus encontros com o ambiente digital de modo a aumentar minha potência de pensar, de criar, de me relacionar, de resistir?

Carr tem o mérito de nos alertar para os riscos. O The Shallows é um livro que nos força a olhar para o que estamos perdendo — a capacidade de concentração, de contemplação, de mergulho profundo em um pensamento. Mas sua análise, por não dispor de uma teoria da potência, tende a naturalizar a passividade e a nostalgia.

conatus spinoziano, tal como desenvolvido por Bove e aplicado às pesquisas contemporâneas, oferece um caminho mais frutífero: a questão não é "o que a internet está fazendo conosco?", mas "o que podemos fazer com a internet — e contra seus usos mais deletérios — para afirmar nossa potência?".

A pesquisa sobre o Sarau Virtual mostrou que, mesmo em condições de isolamento, o ciberespaço pode ser um território de criação e afeto. A pesquisa sobre busca online mostrou que a curiosidade e a memória podem ser preservadas quando cultivamos o hábito de "pensar antes de googlar". Os estudos em neurociência educacional mostram que o impacto das tecnologias depende fundamentalmente de como elas são mediadas pedagogicamente.

Esses achados são, em termos spinozianos, evidências de que o conatus não é uma força que pode ser meramente "capturada" pelas máquinas. Ele é, antes, a expressão de uma potência que sempre pode, em meio às condições mais adversas, encontrar modos de se afirmar. 

A internet não é o livro, e não precisa ser. O desafio do nosso tempo não é voltar a um mundo sem telas, mas aprender a habitar o mundo digital como sujeitos ativos, capazes de distinguir os encontros que aumentam nossa potência daqueles que a diminuem. O conatus é, nesse sentido, não apenas um conceito filosófico, mas uma estratégia prática para a vida na era digital. 

 Referências 

BOVE, Laurent. A Estratégia do Conatus: Afirmação e Resistência em Espinosa. (Obra de referência, sem dados de publicação nos resultados de busca). 

CARR, Nicholas. The ShallowsWhat the Internet Is Doing to Our Brains. W. W. Norton & Company, 2010.  

KIM, Ju Ae; KIM, Jiwon; KIM, Sung Il; BONG, Mimi. How mindful and mindless online searching affects curiosity and information recall. Educational Technology Research and Development, 2025.  

NASCIMENTO, Ana Lucia Ferreira Cruz et al. Neurociência aplicada à educação e impactos das tecnologias digitais nos processos de aprendizagem. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 12, n. 2, p. 1–9, 2026.  

OLIVEIRA, Uillian Trindade. Sarau Virtual: Conceitos Spinozianos e Deleuzeanos no Ciberespaço como Potência Criativa e Afetiva na Pandemia de Covid-19. Manuscritica: Revista de Crítica Genética, n. 44, p. 82-91, 2021.  

SPINOZA, Baruch. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. 

El aprendizaje en la era de los dispositivos digitalesMediacióncomunicación y desigualdades en el aprendizajeCiencia y Educación, v. 7, n. 1, 2026.  

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