Sinopse e Contexto
Publicado em 2025 pela Polity Press, Ecocide in Ukraine é uma obra que transcende os limites da análise jurídica ou do levantamento de dados para se tornar um testemunho profundamente pessoal e coletivo sobre a destruição ambiental causada pela invasão russa da Ucrânia . A autora, Darya Tsymbalyuk, é uma pesquisadora ucraniana, atualmente professora assistente no Departamento de Línguas e Literaturas Eslavas da Universidade de Chicago, com doutorado pela Universidade de St Andrews .
O livro recebeu o Prêmio Kovaliv de Não-Ficção em 2025, reconhecimento que atesta sua importância no cenário intelectual contemporâneo . Diferentemente de abordagens que se concentram exclusivamente em dados científicos ou aspectos jurídicos da definição de ecocídio, Tsymbalyuk propõe uma investigação sobre "como as experiências de testemunhar e viver o ecocídio mudam a compreensão que se tem dos ambientes e da própria terra natal" .
A obra foi pesquisada e escrita entre 2023 e 2024, período em que Tsymbalyuk retornou à região sul da Ucrânia — onde viveu metade de sua vida — e que se torna o foco espacial de sua narrativa .
Estrutura e Abordagem Metodológica
O livro está organizado em seis capítulos temáticos, cada um dedicado a um elemento fundamental do mundo natural e da experiência humana: ”Water“ (Água), ”Zemlia“ (Terra/Solo), ”Air“ (Ar), ”Plants“ (Plantas), ”Bodies“ (Corpos) e ”Energy“ (Energia) . Essa estrutura reflete a decisão de Tsymbalyuk de não impor uma narrativa cronológica linear, mas sim explorar as interconexões entre diferentes formas de vida e os ecossistemas que as sustentam.
Um dos aspectos mais distintivos da abordagem de Tsymbalyuk é sua recusa em romantizar o estado ambiental da Ucrânia anterior à invasão. Como observa o geógrafo Alexander Vorbrugg em sua resenha acadêmica, o livro:
"não romantiza o estado dos assuntos ambientais antes das invasões russas de 2014 e da invasão em grande escala de 2022. Ela relembra a longa história de guerras ecocidas e genocidas 'que devastaram as terras da Ucrânia e as vidas de seus diversos habitantes' antes, e a história de negligência e degradação ambiental através de indústrias poluentes, agricultura industrial, barragens e outros grandes projetos de infraestrutura que se aceleraram após a era soviética" .
Essa perspectiva histórica inscreve a destruição atual em um contexto mais amplo de colonialismo extrativista, conectando a guerra contemporânea a um padrão mais antigo de violência contra a terra e seus habitantes.
O livro é notavelmente conciso — cerca de 188 páginas —, mas, como observa uma resenha da ECOS, "sua narrativa contém mais insights e impacto do que muitos volumes mais longos" .
Principais Temas e Citações
1. O Conceito de "Episteme da Morte"
Uma das contribuições conceituais mais originais de Tsymbalyuk é o que ela chama de "episteme da morte" (episteme of death) — um "quadro mórbido de aprender sobre a própria terra natal, quando só descobrimos a existência de alguém ou algo quando eles se foram" .
Este conceito captura uma dimensão fundamental da experiência ucraniana durante a guerra: a descoberta tardia, através da destruição, daquilo que antes se dava como certo. Tsymbalyuk reflete sobre como esse quadro mórbido tornou-se central para sua própria maneira de pesquisar, documentar e se relacionar com os mundos vivos ameaçados pela guerra.
No entanto, a autora aponta uma dimensão paradoxal e até mesmo esperançosa desse fenômeno:
"Enquanto a morte conecta 'tudo e todos' na guerra, a episteme da morte é ao mesmo tempo uma episteme da vida, porque cria novos tipos de atenção a aspectos da vida e à existência de espécies ou partes da natureza que a maioria das pessoas não notava antes" .
Essa formulação sugere que, em meio à catástrofe, emerge uma nova forma de ver, uma sensibilidade aguçada para aquilo que estava invisível.
2. A Destruição da Barragem de Kakhovka como Símbolo
A destruição da Barragem Hidrelétrica de Kakhovka pelas forças russas em junho de 2023 ocupa um lugar central no livro. Este evento, que provocou inundações catastróficas no sul da Ucrânia, é tratado por Tsymbalyuk como um exemplo paradigmático de ecocídio . Mais do que isso, a autora situa a barragem em sua história mais ampla: construída na década de 1950 como parte do "Grande Plano de Transformação da Natureza" de Stalin, sua destruição representa uma violência que se inscreve em uma longa história de modificações brutais do ambiente .
A ironia trágica que Tsymbalyuk sugere é que os ecossistemas ribeirinhos originalmente destruídos pela construção da barragem — conhecidos coletivamente como o Grande Prado (Velykyi Luh) — começaram agora a se recuperar através de processos naturais de rewilding .
3. "Zemlia": Terra, Solo e Existência
O segundo capítulo do livro, intitulado "Zemlia" — palavra ucraniana que significa simultaneamente terra, solo, chão e mundo — explora a dimensão existencial da conexão ucraniana com a terra. Tsymbalyuk escreve:
"Em tempos de guerra, o solo e a terra colocam questões profundamente existenciais. A terra está no centro das experiências de guerra e ocupação. A violência da ocupação, o deslocamento de pessoas e outras espécies, bem como a contaminação e destruição do solo, expõem as conexões vitais entre as pessoas e outras criaturas vivas com a terra como abrigo, lar e mundo vivo" .
A autora observa que a palavra "zemlia" é usada por muitas igrejas ucranianas para designar " 'este mundo terreno', o mundo cheio de tristezas terrenas, em oposição ao 'nebo', os céus que guardam a vida eterna" . Numa guerra que tem assumido dimensões religiosas explícitas para ambos os lados, as múltiplas conotações deste termo tornam-se fundamentais para compreender o que está em jogo.
4. Pão, Holodomor e Memória Cultural
Um dos temas mais poderosos do livro — e que também foi publicado como ensaio independente — é a análise do significado cultural do pão e das tradições agrícolas ucranianas . Tsymbalyuk conecta a destruição russa de instalações de grãos e campos agrícolas à memória traumática do Holodomor, a fome artificialmente criada pelo regime soviético entre 1932 e 1933, que matou milhões de ucranianos.
"Entre as imagens mais icônicas da guerra estão as fotos de instalações de grãos bombardeadas, de pilhas de grãos queimados em preto, ou de campos agrícolas em chamas. Ao queimar grãos, a Rússia não apenas ataca a segurança alimentar global e as empresas agrícolas da Ucrânia — ela também ataca o lugar reverenciado do pão na cultura ucraniana, condicionado não apenas pelas antigas crenças, mas também por experiências anteriores de ser morto pela fome" .
A autora compartilha uma memória profundamente pessoal:
"Minha bisavó Darka costumava contar como, uma vez, a caminho de uma feira, ela dormiu perto de um palheiro e acordou ouvindo estranhos dizerem que iriam comê-la. Eu não sabia o que fazer com essa história quando era pequena. Eu não sabia até aprender sobre o Holodomor" .
Essa conexão entre a destruição atual e o trauma histórico transforma o ataque à infraestrutura agrícola em algo mais profundo: um ataque à memória coletiva e à identidade cultural.
5. Corpos, Animais e Sofrimento Compartilhado
Tsymbalyuk expande sua análise para incluir não apenas os corpos humanos, mas também os corpos animais que compartilham o mesmo território minado, as mesmas inundações e os mesmos bombardeios. O capítulo "Bodies" (Corpos) explora como a guerra revela vulnerabilidades e dependências que são, em certa medida, compartilhadas por humanos e animais expostos às mesmas minas terrestres, foguetes e inundações .
A autora também documenta novas formas de solidariedade e cooperação entre humanos e outros seres vivos que emergem diante dessas ameaças. Há uma sensibilidade ecológica profunda em sua abordagem, que vê a guerra não apenas como uma tragédia humana, mas como uma catástrofe multiespécie.
Um exemplo particularmente comovente é a discussão sobre a perda de tradições como a colheita de cogumelos. Tsymbalyuk explica que essa prática, outrora um ritual querido pelas famílias ucranianas, tornou-se perigosa em partes do norte, leste e sul do país, onde as minas terrestres agora infestam as florestas . Como ela argumenta:
"A coleta de cogumelos era uma maneira de familiarizar-se com a terra e de transmitir tal sabedoria através das gerações. Sem ela, os ucranianos não estão apenas perdendo uma tradição — eles estão perdendo uma conexão com a própria terra, um desenraizamento sutil, mas profundo" .
6. Deslocamento Ambiental e Permanência
Tsymbalyuk oferece uma reflexão sofisticada sobre o conceito de deslocamento. Em uma palestra na Universidade de Wisconsin, ela observou:
"Qualquer experiência de deslocamento também está enraizada no ambiente. Você perde o contato com o lugar de onde está vindo. [...] Mesmo que você permaneça no mesmo lugar, perder o acesso às florestas para colher cogumelos, perder o acesso aos rios onde era seguro nadar — esses são tipos de deslocamento" .
Esta formulação amplia a compreensão do deslocamento para além do movimento físico, incluindo o desenraizamento experienciado por aqueles que permanecem fisicamente no lugar, mas veem seu ambiente transformado pela guerra. É um deslocamento sem migração.
7. Ecocídio, Colonialismo e Responsabilidade Global
Tsymbalyuk também situa a destruição ambiental na Ucrânia dentro de um quadro mais amplo de colonialismo e imperialismo. Ela traça paralelos entre a extração de recursos e grãos sob o Império Russo e a União Soviética e a destruição atual . A noção de "breadbasket" (celeiro) da Ucrânia, que a autora problematiza, tem servido historicamente para justificar hierarquias de extração agrícola e dependência.
O livro também aborda as dimensões globais do ecocídio:
"Não apenas a guerra da Rússia contra a Ucrânia resultou em emissões significativas de gases de efeito estufa... ela também levou a um aumento da militarização global, bem como a um aumento da pegada de carbono dos movimentos de refugiados, mudanças nas rotas de voos internacionais e operações logísticas muito além da Ucrânia" .
Tsymbalyuk argumenta que não se pode abordar a crise climática como uma condição global sem incluir as emissões dos aviões de guerra, foguetes e drones que voam sobre a Ucrânia hoje, e sem uma compreensão mais profunda da relação entre a invasão russa e as mudanças climáticas .
Críticas à Obra
Pontos Fortes
Inovação Metodológica e Conceitual: O maior mérito do livro é sua abordagem original. Ao focar na experiência vivida do ecocídio em vez de se ater estritamente aos aspectos jurídicos ou à catalogação de dados, Tsymbalyuk oferece uma contribuição única para os estudos ambientais e os estudos de guerra. O conceito de "episteme da morte" é uma ferramenta analítica poderosa para compreender como a destruição ambiental altera fundamentalmente a relação de um povo com sua terra.
Escrita Poética e Acessibilidade: Múltiplas resenhas destacam a qualidade literária da prosa de Tsymbalyuk. O geógrafo Alexander Vorbrugg observa: "Nem sempre aprecio estilos artísticos na escrita acadêmica. No entanto, estou impressionado com a poética na escrita de Tsymbalyuk, que adiciona profundidade e, em certo sentido, até clareza à interpretação e análise" . Apesar da complexidade dos temas, o livro permanece acessível a um público geral.
Perspectiva Multiespécie: Ao incluir animais, plantas e ecossistemas como protagonistas de sua narrativa, Tsymbalyuk oferece uma visão verdadeiramente ecológica da guerra. A atenção às vulnerabilidades compartilhadas entre humanos e não-humanos é uma contribuição importante para os estudos críticos de guerra e ambiente.
Contextualização Histórica: A decisão de não romantizar o passado ambiental da Ucrânia, reconhecendo as continuidades entre a degradação soviética e a destruição atual, confere ao livro uma honestidade intelectual rara. Tsymbalyuk inscreve a guerra contemporânea em uma história mais longa de colonialismo extrativista.
Testemunho Distribuído: A autora não se coloca como uma testemunha solitária, mas tece uma narrativa que incorpora as vozes de cientistas, artistas, ambientalistas, residentes, soldados e trabalhadores de resgate. O resultado é um relato multifacetado que reconhece a impossibilidade de capturar a totalidade da experiência da guerra .
Críticas Possíveis
Escopo Geográfico Focado no Sul: Embora o livro ofereça um retrato abrangente de muitos aspectos da destruição ambiental, seu foco espacial é predominantemente o sul da Ucrânia, particularmente a região de Mykolaiv e o oblast de Dnipropetrovsk . Regiões como o leste do país, igualmente afetadas pela guerra, recebem menos atenção.
Ausência de Análise Jurídica Aprofundada: Como Tsymbalyuk declara explicitamente, sua intenção não era produzir um estudo jurídico sobre o ecocídio. No entanto, para leitores interessados nas dimensões legais — como o processo de definição do ecocídio como crime internacional ou as implicações para reparações de guerra — o livro pode deixar lacunas .
Tensão entre Testemunho e Análise: A natureza profundamente pessoal e emocional da narrativa pode, para alguns leitores, levantar questões sobre a distância crítica necessária para uma análise acadêmica. Tsymbalyuk escreve como alguém cuja terra natal está sendo destruída, e essa posicionalidade é ao mesmo tempo a força do livro e um possível limite para aqueles que buscam uma análise mais "objetiva".
Questões Não Respondidas: O livro levanta questões fascinantes — como a pergunta sobre o que um pássaro voando sobre terras devastadas pela guerra percebe, ou o que um piloto militar que lança as bombas vê — sem oferecer respostas definitivas. Para alguns leitores, essa abertura pode ser frustrante; para outros, é precisamente o que torna o livro tão poderoso .
Atualização Constante Necessária: Como a guerra continua, qualquer livro sobre o tema corre o risco de se tornar datado rapidamente. Tsymbalyuk reconhece que seu relato permanece "necessariamente inacabado", o que é honesto, mas pode deixar os leitores buscando uma atualização sobre os desenvolvimentos mais recentes .
Conclusão
Ecocide in Ukraine representa uma contribuição monumental para a literatura sobre a guerra na Ucrânia e para os estudos ambientais de forma mais ampla. Como observa uma resenha do Kyiv Independent:
"A guerra da Rússia contra a Ucrânia não é apenas uma guerra contra seu povo — é uma guerra contra a memória, a terra e o direito de lamentar com dignidade. O livro de Tsymbalyuk é uma obra monumental que insiste que o mundo deve levar em conta o custo dessa destruição — não apenas em hectares perdidos ou toneladas de grãos queimados, mas nas raízes cortadas que outrora uniam gerações à terra que chamavam de lar" .
A originalidade do livro reside em sua capacidade de combinar rigor acadêmico com profundidade emocional, análise conceitual com testemunho pessoal, e consciência histórica com urgência contemporânea. Tsymbalyuk nos lembra que o ecocídio não é um dano colateral da guerra, mas uma estratégia de apagamento — uma tentativa de destruir não apenas corpos e infraestruturas, mas também as conexões que tornam possível uma vida significativa em um lugar.
A frase final de uma resenha captura a urgência do projeto:
"Ler este livro é entender que o ecocídio não é apenas um dano colateral, mas uma estratégia de apagamento. E se falharmos em nomeá-lo, testemunhá-lo e resistir a ele, o horror que sobrevive ao corpo virá para todos nós" .
Em um momento em que os impactos ambientais da guerra continuam a se desdobrar e as consequências globais se fazem sentir — desde a segurança alimentar até as emissões de carbono —, a obra de Tsymbalyuk se estabelece como um marco indispensável para compreender o que significa viver, testemunhar e resistir em meio à catástrofe ambiental provocada pela guerra.
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