SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 29 de março de 2026

A GRAÇA DIVINA NÃO SE EXPLICA — SE SENTE COMO O AMOR! Por Egidio Guerra


A quem pertencem os nossos dias? 

Pertencem ao tempo? Ao relógio? Às cobranças que vestem gravata 
e sentenciam vidas sem nunca terem chorado ao lado de um leito? 
Pertencem ao direito que tudo nomeia, mas nada sente, 
que vê de longe a alma dos condenados 
como quem observa formigas em um aquário?

Cansei. 
Cansei das verdades que não doem. 
Cansei das respostas que não tremem. 
A verdade que não te deixa sem respirar por aquele que sofre, 
que carrega distúrbios sociais, psíquicos, mentais, 
que atravessa noites em que o próprio corpo vira campo de batalha — 
essa verdade, ninguém conhece sem amar. 
Só conhece a verdade quem chora no mundo sem a lei da gravidade, 
quem flutua no desamparo e ainda assim se inclina para abraçar.

Onde foram parar nossos amigos de infância? 
Aqueles que corriam com a gente nos corredores da escola, 
com merenda na boca e futuro nos olhos?

Um deles foi separado do filho. 
Não conseguiu educar como queria — o sistema engoliu o pouco que tinha. 
Outro está desempregado, 
e outro doente, 
e outro morreu — morreu, e ninguém fez um ritual que realmente honrasse 
a alegria que ele um dia foi. 
Outros estão no trabalho, sim, mas infelizes, 
vagando em vazios emocionais, pedindo mais tempo 
para decidir o que o coração já decidiu há trinta anos.

Quando não se emocionam mais, 
quando os delitos cotidianos — 
a pressa, a omissão, o medo — 
já prescreveram, 
aí sobra a Graça. 
Ela não tem prazo. 
Ela é natural e divina como a chuva que molha justo quem já está encharcado.

Mas o que é o sentir? 
O que é a Graça Divina?

Enquanto as pessoas choram, 
eu cansei dos rituais. 
De quem são os nossos dias? 
Tentei descobrir agora, 
quando a emoção se libertou 
e explodiu o coração. 
Quando ousamos ir além dos limites 
— além do que nos ensinaram como possível — 
e construir uma vida verdadeira, 
nenhum ritual a tornará falsa. 
Porque momentos mágicos — 
aqueles em que o tempo para e a alma treme — 
são os únicos que dão sentido a tudo.

Afinal o que é ser inteligente num mundo sem causas nem sonhos? 
Inteligência sem sensibilidade é apenas um algoritmo bem-vestido. 
A verdade não é uma guerra. 
O direito, a verdade, a guerra — tudo isso exige sensibilidade. 
Sem ela, a justiça é só arquivo. 
Sem ela, a liberdade é só palavra solta no vento. 

O mundo precisa de uma revolução 
de educação, justiça e espiritualidade 
pela sensibilidade. 
Porque para que serve a sua liberdade 
se ela não te faz tremer diante da dor do outro? 
Para que serve o amor 
se ele não te ensina que deixar-se morrer 
é também deixar-se viver, 
é tornar-se leve? 

O frio aquece. 
O escuro ilumina. 
Cem primaveras e mil outonos de colheitas — 
sonhamos sem gravidade. 
E, no entanto, 
damos importância demais à verdade.

No meu caso, 
eu amava como você se vestia. 
Eu me visto de qualquer jeito — 
mas você não é uma senhora, 
você sempre será minha menina. 
Não me interessa sua pele 
porque você é perfeita para mim. 

A paixão e o perdão se chamam coragem. 
E a Graça se refere à simples beleza da dúvida — 
àquilo que não se resolve, 
não se sentencia, 
não se prova em tribunal nenhum. 
Dúvida que é fresta. 
Dúvida que é respiro. 
Dúvida que é a única forma honesta de dizer: 
"Eu não sei, mas estou aqui. Eu não tenho a verdade, mas tenho você." 

Mais importante que a verdade 
é o sentimento 
e a Graça Divina. 

Porque a verdade que não passa pelo corpo, 
que não chora, que não se ajoelha no chão da vida alheia, 
essa verdade é só uma sentença esperando para matar. 

Já o sentimento — ah, o sentimento — 
é o que nos faz aprender a rir das lágrimas. 
É o que nos permite, enfim, 
viver os dias que não pertencem a ninguém 
— a não ser à maneira como ousamos entregá-los, 
leves, misteriosos, sem respostas, 
como quem finalmente entende 
que a única verdade que nos redime 
é aquela que nunca precisou ser provada: 
apenas sentida, apenas vivida, 
apenas deixada em Graça. 

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