A quem pertencem os nossos dias?
Pertencem ao tempo? Ao relógio? Às cobranças que vestem gravata
e sentenciam vidas sem nunca terem chorado ao lado de um leito?
Pertencem ao direito que tudo nomeia, mas nada sente,
que vê de longe a alma dos condenados
como quem observa formigas em um aquário?
Cansei.
Cansei das verdades que não doem.
Cansei das respostas que não tremem.
A verdade que não te deixa sem respirar por aquele que sofre,
que carrega distúrbios sociais, psíquicos, mentais,
que atravessa noites em que o próprio corpo vira campo de batalha —
essa verdade, ninguém conhece sem amar.
Só conhece a verdade quem chora no mundo sem a lei da gravidade,
quem flutua no desamparo e ainda assim se inclina para abraçar.
Onde foram parar nossos amigos de infância?
Aqueles que corriam com a gente nos corredores da escola,
com merenda na boca e futuro nos olhos?
Um deles foi separado do filho.
Não conseguiu educar como queria — o sistema engoliu o pouco que tinha.
Outro está desempregado,
e outro doente,
e outro morreu — morreu, e ninguém fez um ritual que realmente honrasse
a alegria que ele um dia foi.
Outros estão no trabalho, sim, mas infelizes,
vagando em vazios emocionais, pedindo mais tempo
para decidir o que o coração já decidiu há trinta anos.
Quando não se emocionam mais,
quando os delitos cotidianos —
a pressa, a omissão, o medo —
já prescreveram,
aí sobra a Graça.
Ela não tem prazo.
Ela é natural e divina como a chuva que molha justo quem já está encharcado.
Mas o que é o sentir?
O que é a Graça Divina?
Enquanto as pessoas choram,
eu cansei dos rituais.
De quem são os nossos dias?
Tentei descobrir agora,
quando a emoção se libertou
e explodiu o coração.
Quando ousamos ir além dos limites
— além do que nos ensinaram como possível —
e construir uma vida verdadeira,
nenhum ritual a tornará falsa.
Porque momentos mágicos —
aqueles em que o tempo para e a alma treme —
são os únicos que dão sentido a tudo.
Afinal o que é ser inteligente num mundo sem causas nem sonhos?
Inteligência sem sensibilidade é apenas um algoritmo bem-vestido.
A verdade não é uma guerra.
O direito, a verdade, a guerra — tudo isso exige sensibilidade.
Sem ela, a justiça é só arquivo.
Sem ela, a liberdade é só palavra solta no vento.
O mundo precisa de uma revolução
de educação, justiça e espiritualidade
pela sensibilidade.
Porque para que serve a sua liberdade
se ela não te faz tremer diante da dor do outro?
Para que serve o amor
se ele não te ensina que deixar-se morrer
é também deixar-se viver,
é tornar-se leve?
O frio aquece.
O escuro ilumina.
Cem primaveras e mil outonos de colheitas —
sonhamos sem gravidade.
E, no entanto,
damos importância demais à verdade.
No meu caso,
eu amava como você se vestia.
Eu me visto de qualquer jeito —
mas você não é uma senhora,
você sempre será minha menina.
Não me interessa sua pele
porque você é perfeita para mim.
A paixão e o perdão se chamam coragem.
E a Graça se refere à simples beleza da dúvida —
àquilo que não se resolve,
não se sentencia,
não se prova em tribunal nenhum.
Dúvida que é fresta.
Dúvida que é respiro.
Dúvida que é a única forma honesta de dizer:
"Eu não sei, mas estou aqui. Eu não tenho a verdade, mas tenho você."
Mais importante que a verdade
é o sentimento
e a Graça Divina.
Porque a verdade que não passa pelo corpo,
que não chora, que não se ajoelha no chão da vida alheia,
essa verdade é só uma sentença esperando para matar.
Já o sentimento — ah, o sentimento —
é o que nos faz aprender a rir das lágrimas.
É o que nos permite, enfim,
viver os dias que não pertencem a ninguém
— a não ser à maneira como ousamos entregá-los,
leves, misteriosos, sem respostas,
como quem finalmente entende
que a única verdade que nos redime
é aquela que nunca precisou ser provada:
apenas sentida, apenas vivida,
apenas deixada em Graça.
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