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segunda-feira, 23 de março de 2026

Cuba: An American History, de Ada Ferrer

 



Cuba: An American History (Scribner, 2021) é uma obra monumental da historiadora Ada Ferrer, professora da New York University (NYU) e especialista em estudos cubanos e caribenhos. O livro cobre mais de cinco séculos de história cubana, desde o período anterior à chegada de Cristóvão Colombo até a morte de Fidel Castro e as eleições presidenciais norte-americanas de 2020. 

A tese central do livro, expressa já no título, é que as histórias de Cuba e dos Estados Unidos estão inextricavelmente entrelaçadas. Ferrer argumenta que não se pode compreender plenamente a trajetória cubana sem considerar a influência (muitas vezes imperialista) dos EUA, assim como a história americana foi moldada em múltiplos momentos pela presença e pela luta cubana. Como ela afirma no prólogo: 

"Cuba: An American History tells the story of a tropical island that sits between the Atlantic Ocean and the Caribbean Sea, not far from the United States. It is a history of more than half a millenniumfrom before the arrival of Christopher Columbus to the death of Fidel Castro and beyondYet, for a history so sweeping in scopethis is also a deeply personal book."  

("Cuba: Uma História Americana conta a história de uma ilha tropical situada entre o Oceano Atlântico e o Mar do Caribe, não muito longe dos Estados Unidos. É uma história de mais de meio milênio, desde antes da chegada de Cristóvão Colombo até a morte de Fidel Castro e além. No entanto, para uma história de escopo tão amplo, este também é um livro profundamente pessoal.") 

Ferrer combina rigor acadêmico (mais de 900 notas de rodapé) com uma narrativa envolvente, incorporando vozes frequentemente marginalizadas — escravizados, negros, mulheres, ativistas e membros de sua própria família — para reimaginar a história da ilha. O livro foi agraciado com o Prêmio Pulitzer de História em 2022. 

Estrutura do Livro 

O livro está dividido em doze partes, que organizam a narrativa cronologicamente: 

Parte 

Título (em inglês) 

Período/Conteúdo Principal 

I 

Dispatches from the First America 

Pré-colombiano, conquista espanhola e genocídio indígena 

II 

A Colony Worth a Kingdom 

Colonização, comércio marítimo e Havana como "Chave do Novo Mundo" 

III 

An Empire for Slavery 

Expansão da escravidão e indústria açucareira 

IV 

¡Cuba Livre! 

Guerras de independência (século XIX) 

V 

American Interregnum 

Intervenção dos EUA em 1898 e ocupação militar 

VI 

Strange Republic 

Primeiras décadas da república (1902-1952) 

VII 

Republic, Take Two 

Período de Batista e agitação pré-revolucionária 

VIII 

Origin Stories 

As raízes da Revolução Cubana de 1959 

IX 

The Revolution Begins Now! 

Primeiros anos do governo revolucionário 

X 

Confrontation 

Crise dos mísseis e tensões com os EUA 

XI 

Hearts and Minds 

Guerra cultural, exportação da revolução para a África 

XII 

Departures 

Período pós-Guerra Fria, Fim da Era Castro (até 2020) 

Principais Temas e Conteúdo 

1. As Origens Coloniais e o Genocídio Indígena 

Ferrer começa com o impacto devastador da colonização espanhola. Ela documenta a chegada de Colombo e a subsequente exploração do ouro e da prata das Américas. A localização estratégica de Havana, auxiliada pela descoberta da Corrente do Golfo, fez da cidade a "Chave do Novo Mundo" (Key to the New World), um ponto central para as frotas de tesouros espanholas. 

A autora não minimiza a catástrofe demográfica sofrida pelos povos indígenas: 

"In a few decadesthe Indigenous population in Cuba declined by perhaps as much as 95 percent."  
("Em poucas décadas, a população indígena em Cuba diminuiu em talvez 95 por cento.") 

Ela também narra atos de resistência indígena, como a famosa resposta do cacique Hatuey, que, ao ser informado por um frade de que os espanhóis iam para o céu, preferiu o inferno para não estar onde os espanhóis estivessem. 

2. A Sociedade Escravista e a Indústria Açucareira 

Ferrer dedica atenção substancial à transformação de Cuba em uma sociedade escravista. A demanda por açúcar impulsionou o tráfico transatlântico de africanos em escala massiva: 

"Because sugar required massive amounts of labor, it was the major impetus to the transatlantic slave trade. Roughly two-thirds of the almost eleven million Africans forcibly landed in the New World ended up working in sugar."  
("Como o açúcar exigia enormes quantidades de mão de obra, ele foi o principal impulsionador do tráfico transatlântico de escravos. Aproximadamente dois terços dos quase onze milhões de africanos desembarcados à força no Novo Mundo acabaram trabalhando no açúcar.") 

A autora também destaca a resistência negra e a memória histórica de figuras como José Antonio Aponte, um carpinteiro negro livre que liderou uma conspiração contra a escravidão no início do século XIX. Ferrer mostra como Aponte usou pinturas para recrutar negros, mantendo viva a história de combatentes negros que haviam defendido Havana contra os britânicos décadas antes. 

3. As Guerras de Independência e a Intervenção dos EUA 

Um dos pontos centrais do livro é a análise da Guerra Hispano-Americana de 1898. Ferrer argumenta que, quando os EUA intervieram, os cubanos já haviam praticamente vencido sua guerra de independência contra a Espanha. A intervenção americana, portanto, não foi para ajudar os cubanos, mas para bloquear sua vitória plena e substituir o domínio espanhol pelo controle norte-americano. 

"American intervention in 1898, thenwas not to help Cubans achieve a victory over Spain. That was forthcominganyway. American intervention was meant precisely to block it."  
("A intervenção americana em 1898, então, não foi para ajudar os cubanos a alcançarem uma vitória sobre a Espanha. Isso estava por vir de qualquer forma. A intervenção americana pretendia precisamente bloqueá-la.") 

A guerra foi renomeada como Hispano-Americana, e Cuba foi excluída das negociações de paz. A bandeira hasteada em 1899 não era a cubana, mas a dos EUA. 

4. A República, o Racismo e a Dependência Econômica 

Ferrer examina a "República" cubana pós-independência (1902-1959), que era, na prática, um protetorado americano. Ela documenta a brutal repressão racial de 1912, quando o Partido Independente de Cor (um partido negro) foi massacrado pelo Estado cubano, resultando no assassinato de milhares de negros. 

Ela também detalha a crescente dominação econômica dos EUA: 

"In 1905, US-owned mills in Cuba produced about 21 percent of the island's annual sugar crop. The trend accelerated over subsequent decadesBy 1926, seventy-five US-owned mills produced 63 percent of the annual Cuban sugar harvest."  
("Em 1905, usinas de propriedade dos EUA em Cuba produziam cerca de 21% da safra anual de açúcar da ilha. A tendência acelerou nas décadas seguintes. Em 1926, setenta e cinco usinas de propriedade americana produziam 63% da colheita anual de açúcar cubana.") 

5. A Revolução Cubana e a Dependência da União Soviética 

Ferrer trata a Revolução de 1959 como um evento transformador, mas também analisa suas contradições e continuidades. Um dos insights mais poderosos do livro é a forma como a revolução, apesar de romper com a dependência dos EUA, simplesmente substituiu um mestre por outro: 

"The strengthened economic ties with the East—premised on the exchange of sugar for much more valuable things like oilmeant the survival of two longtime features of Cuban economy and societymonoculture and dependency. The future of the Cuban economy now looked like the past: sugar and more sugar. Before economic dependence had been on the United States; now the island became wholly dependent on the Soviet Union and the Eastern BlocSo much had changedbut, still, the pastor parts of it, anywayproved intractable."  
("Os laços econômicos fortalecidos com o Oriente — baseados na troca de açúcar por coisas muito mais valiosas como petróleo — significaram a sobrevivência de duas características antigas da economia e sociedade cubanas: monocultura e dependência. O futuro da economia cubana agora se parecia com o passado: açúcar e mais açúcar. Antes a dependência econômica era dos Estados Unidos; agora a ilha tornou-se totalmente dependente da União Soviética e do Bloco Oriental. Tanto havia mudado, mas ainda assim o passado — ou partes dele, de qualquer forma — mostrou-se intratável.") 

6. O Entrelaçamento com os EUA e Miami 

Ferrer dedica atenção às conexões humanas e culturais entre Cuba e os Estados Unidos, incluindo o papel de Miami como um prolongamento da política e da identidade cubana: 

"But two facts are clear: it is impossible to understand the Cuban Revolution without understanding Miami, and it is impossible to understand Miami without understanding the Cuban Revolution."  
("Mas dois fatos são claros: é impossível entender a Revolução Cubana sem entender Miami, e é impossível entender Miami sem entender a Revolução Cubana.") 

Citações Importantes 

Citação 

Significado 

"If Columbus begins US history as writtenthat is partly becauseconsciously or unconsciously, imperial ambitions have shaped US history from the beginning, too. And Cuba—where Columbus did landis a critical presence in that American history."  

Ferrer estabelece desde o início sua tese sobre o entrelaçamento das histórias, mostrando como o imperialismo americano tem raízes profundas que conectam os dois países. 

"As history makes peopleso do people make historyreworking it, day by daycreating meaning of the world around themoften acting in ways that tend to fit but awkwardly in the categories of epic history."  

Esta passagem reflete a abordagem metodológica de Ferrer: uma história vista de baixo, que valoriza os atores comuns e suas resistências cotidianas. 

"The welcome and support Cuba offered these and other Black radicals from the United States, howeverwas not extended to its own Black activists."  

Ferrer aponta uma contradição central da Revolução Cubana: o apoio internacional ao antirracismo contrastava com a repressão interna a ativistas negros cubanos. 

"For Adams, as for most of his fellow statesmenthe question was not whetherbut when—Cuba would become part of the United States. An American Cuba was inevitable, a consequence of the most elemental law of naturegravity."  

A citação revela a visão expansionista e paternalista dos EUA em relação a Cuba desde o início do século XIX. 

"When the friar answered that the good ones didHatuey at once answered that he preferred hell, 'so as not to be where Spaniards were.'"  

Este episódio do cacique Hatuey tornou-se um símbolo da resistência indígena e da recusa em aceitar a dominação colonial. 

Prêmios e Reconhecimento 

O livro recebeu inúmeros prêmios de prestígio: 

  • Prêmio Pulitzer de História (2022) 

  • Prêmio de História do Los Angeles Times (2022) 

  • Prêmio Cundill de História (2022) — um dos mais importantes prêmios internacionais de história 

Críticas e Recepção 

Elogios 

  • Pesquisa e Prosa: Carmelo Mesa-Lago, em resenha para Cuban Studies, descreve o livro como uma "joia histórica e literária" (historical and literary jewel). Ele elogia a prosa envolvente, afirmando que leu o livro em dois dias, e destaca as mais de 900 notas de rodapé que atestam o rigor acadêmico de Ferrer. 

  • Definitividade: Daniel Ray, da North American Congress on Latin America (NACLA), escreveu que o livro "provavelmente se tornará a história definitiva de Cuba para esta geração" (likely to become the definitive history of Cuba for this generation) . 

  • Narrativa e Perspectiva: The Wall Street Journal, na resenha de Felipe Fernández-Armesto, e The Guardian, com Carrie Gibson, publicaram críticas positivas destacando a habilidade de Ferrer em contar uma história complexa de forma acessível. 

  • Relevância Contemporânea: The Nation observou que Ferrer explora um duplo significado em seu subtítulo: "História no primeiro sentido refere-se ao que aconteceu; no segundo, ao que se diz que aconteceu" — uma distinção crucial para entender as disputas narrativas sobre Cuba. 

Críticas e Limitações 

  • Tratamento do Período Revolucionário: Um revisor no The StoryGraph (dukegregory) aponta que a abordagem de Ferrer sobre o regime de Castro parece apressada (feels somehow rushed), mesmo compondo cerca de um terço do livro. O revisor nota um possível viés familiar: Ferrer "cresceu com pais anticastristas e está tentando trabalhar seus preconceitos familiares" (grew up with anti-Castro parents and is attempting to work through her familial biases), sugerindo que o esforço não foi suficiente para eliminar o viés. 

  • Omissões Específicas: Carmelo Mesa-Lago aponta que, apesar do tratamento meticuloso da discriminação racial, Ferrer não menciona que Fulgencio Batista (que governou Cuba por 16 anos) era mulato — um fato que teria sido relevante para a discussão sobre raça e poder no período pré-revolucionário. 

  • Ritmo Acelerado no Final: Outro revisor (palmtrees) no The StoryGraph critica o ritmo acelerado dos capítulos finais. Eventos recentes como a pandemia de COVID-19 e a unificação monetária em Cuba recebem apenas uma frase cada, mesmo tendo impactado profundamente a população. A crítica sugere que o livro deveria ter dedicado mais páginas ao período contemporâneo ou não ter tentado chegar até os dias atuais. 

  • Equilíbrio entre Ambição e Profundidade: O mesmo revisor nota que, ao cobrir mais de 500 anos em menos de 600 páginas, o livro inevitavelmente "se move muito rápido" (moves really fast), obrigando Ferrer a fazer escolhas difíceis sobre o que incluir ou excluir. 

Contexto Pessoal da Autora 

Ada Ferrer nasceu em Cuba em 1961 e deixou a ilha ainda bebê em 1962, estabelecendo-se nos Estados Unidos. Ela retornou a Cuba pela primeira vez em 1990 e, a partir de então, conduziu extensas pesquisas no país. Essa perspectiva pessoal — de cubana-americana que atravessou o exílio e o retorno — informa sua abordagem, permitindo-lhe transitar entre as memórias familiares e o rigor acadêmico. 

Conclusão 

Cuba: An American History é uma obra monumental que estabelece Ada Ferrer como uma das principais vozes na historiografia cubana contemporânea. Combinando mais de três décadas de pesquisa, uma prosa envolvente e uma perspectiva inovadora que entrelaça as histórias de Cuba e dos Estados Unidos, o livro oferece uma narrativa abrangente que é ao mesmo tempo acadêmica e acessível. 

A obra foi amplamente celebrada pela crítica e recebeu os mais altos prêmios da área, consolidando seu lugar como uma leitura essencial para qualquer pessoa interessada em história cubana, relações interamericanas e o impacto duradouro do colonialismo, da escravidão e do imperialismo na formação das nações modernas. 

 

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