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domingo, 22 de março de 2026

Oneida: From Free Love Utopia to the Well-Set Table, de Ellen Wayland-Smith





OneidaFrom Free Love Utopia to the Well-Set Table (2016) é uma obra de não ficção histórica escrita por Ellen Wayland-Smith, professora do Programa de Escrita da Universidade do Sul da Califórnia e descendente direta de uma das famílias fundadoras da Comunidade Oneida . O livro narra a extraordinária trajetória de uma das mais famosas experiências utópicas da história americana: uma seita religiosa que pregava o "amor livre" e o "comunismo bíblico" no século XIX e que, décadas depois, se transformaria em uma das maiores fabricantes de talheres de prata dos Estados Unidos.

A tese central do livro é que a história da Comunidade Oneida representa um microcosmo das tensões fundamentais da sociedade americana: entre o radicalismo social e o acomodacionismo, entre a harmonia comunitária e a ambição individual, e entre o idealismo religioso e o pragmatismo capitalista. Wayland-Smith argumenta que a transformação da comunidade — de uma utopia sexualmente radical para um símbolo da respeitabilidade burguesa da classe média americana — não foi uma simples traição de ideais, mas um processo complexo moldado por forças históricas, econômicas e culturais mais amplas. 

"Uma história cativante que abrange dois séculos para revelar como uma seita radical do amor livre, virando as costas para seus próprios ideais, transformou-se em um fornecedor do sonho americano da cerca branca." 

Contexto Histórico 

O livro se ambienta em meio ao fervor religioso do Segundo Grande Despertar (Second Great Awakening) , um período de revivalismo evangélico que varreu os Estados Unidos nas primeiras décadas do século XIX. O norte do estado de Nova York, onde a comunidade se estabeleceu, era conhecido na época como a "região queimada" (burned-over district) devido à intensidade dos movimentos religiosos que ali surgiram, incluindo os revivalistas de Charles Grandison Finney.

É nesse contexto de efervescência espiritual que surge a figura central da narrativa: John Humphrey Noyes (1811-1886).

Estrutura e Conteúdo

O livro está dividido em quinze capítulos, conforme detalhado na edição impressa : 

Parte da Jornada 

Capítulos 

Formação e Origens 

Minister is Born; Noyes in the Underworld; New Jerusalem (in Vermont) 

A Filosofia Radical 

Electric Sex, orHow to Live Forever; Marriage Grows Complex 

A Comunidade em Oneida 

The Machine in the Garden; Sticky Love; Brave New World 

Declínio e Transformação 

Twilight of the Gods; Things Fall Apart; Selling Silver 

A Transição para o Capitalismo 

Survival of the Fittest; "The Strike of a Sex"; "Back Home for Keeps"; The Burning 

Uma resenha de leitor observa que o início do livro é "bastante lento", mas recomenda persistir: "chegue até Putnam, a partir daí acelera".

Principais Temas e Conteúdo

1. John Humphrey Noyes e as Origens Teológicas

Wayland-Smith dedica os primeiros capítulos à formação de Noyes, descrito como um "jovem espirituoso, mas socialmente desajeitado". Noyes estudou teologia e passou por uma intensa crise espiritual antes de desenvolver sua doutrina central: a ideia de que era possível alcançar a perfeição cristã (perfectionism) — uma vida sem pecado — ainda na Terra.

Sua teologia o levou a conclusões radicais. Se os cristãos podiam ser perfeitos, argumentava Noyes, então o casamento tradicional, com suas amarras e exclusividade, era uma instituição falha. Ele propôs um sistema que chamou de "casamento complexo" (complex marriage), no qual todos os membros da comunidade eram considerados casados entre si e as relações sexuais eram livremente compartilhadas, com a supervisão dos líderes.

"Noyes e seus seguidores construíram uma grande casa comunitária no interior de Nova York onde se engajaram no que Noyes chamou de 'casamento complexo', um elaborado sistema de amor livre onde as relações sexuais com múltiplos parceiros eram encorajadas." 

Uma resenha acadêmica observa que, embora pareça que Noyes criou a comunidade como "um portal falso para relações sexuais promíscuas", sua teologia era "complexa e genuína".

2. O Sistema do Casamento Complexo

O sistema de "casamento complexo" era rigorosamente regulamentado. Os líderes da comunidade supervisionavam os relacionamentos, e os membros não tinham liberdade absoluta para escolher seus parceiros. As relações entre pessoas com grande diferença de idade eram desencorajadas, e os membros mais velhos frequentemente atuavam como "mentores" sexuais dos mais jovens.

Wayland-Smith explora as dimensões sociais e psicológicas desse sistema, incluindo seu efeito na dinâmica de poder dentro da comunidade. Um leitor comenta que há "partes que me deixaram desconfortável, mas aplaudo a autora por incluí-las quando teria sido fácil não incluir" 

3. Stirpicultura: O Projeto Eugênico

Um dos aspectos mais controversos da comunidade, que Wayland-Smith não omite, foi o programa de stirpicultura — um termo cunhado por Noyes para descrever um projeto de melhoramento genético seletivo.

A partir de 1869, Noyes institucionalizou um sistema no qual apenas certos pares, escolhidos pelos líderes com base em suas qualidades espirituais e físicas, eram autorizados a ter filhos. O objetivo declarado era "criar uma nova geração de Oneidans a partir dos melhores membros da Comunidade". Não por acaso, o próprio Noyes foi o pai de muitos dessas crianças.

Este programa, influenciado pelas ideias eugênicas que circulavam na época, representa um dos capítulos mais sombrios da história da comunidade.

4. A Vida Cotidiana e a Igualdade de Gênero

Apesar das controvérsias, Wayland-Smith também documenta os aspectos progressistas da comunidade. As mulheres em Oneida desfrutavam de maior igualdade do que em grande parte da sociedade americana do século XIX. O sistema de casamento complexo, embora controlado por homens, libertava as mulheres das amarras do casamento tradicional, que as subordinava legalmente a um único marido.

A comunidade também se destacava pela industriosidade. Seus primeiros negócios incluíam a fabricação de armadilhas de caça, que eram comercializadas em todo o país. 

5. O Declínio e a Transformação Corporativa

Com o envelhecimento de Noyes e as pressões externas — incluindo campanhas de moralistas que denunciavam a "imoralidade" da comunidade — o sistema começou a se desintegrar. Após a fuga de Noyes para o Canadá em 1881 para escapar da prisão, a comunidade enfrentou uma crise de identidade.

Em 1880, a comunidade se dissolveu formalmente como uma organização religiosa e se reorganizou como uma sociedade anônima: a Oneida Community, Limited . A empresa abandonou as práticas sexuais radicais e se concentrou na produção de talheres de prata, um negócio que prosperaria por décadas.

"Quando Noyes morreu em 1886, a Comunidade repudiou as teorias sexuais desacreditadas de Noyes e abraçou seu próspero negócio de talheres. Oneida Community, Limited se tornaria uma das principais fabricantes de talheres de prata do país." 

6. A Destruição dos Registros e a Busca pela Respeitabilidade

Um dos episódios mais reveladores narrados por Wayland-Smith ocorreu no final da década de 1940, quando os descendentes da comunidade tomaram a decisão consciente de queimar grande parte dos registros históricos que documentavam as práticas sexuais e teológicas da comunidade. O objetivo era enterrar o passado radical e apresentar a empresa como um símbolo da moralidade convencional e do sonho americano da "cerca branca".

Este ato de apagamento histórico é central para a tese de Wayland-Smith sobre a tensão entre memória e identidade, e sobre como as instituições reescrevem suas próprias histórias para se adequar às normas culturais dominantes.

Citações de Críticas e Recepção 

O livro recebeu ampla aclamação da crítica especializada, acumulando resenhas com estrela (starred reviews) das principais publicações do setor.

The New York Times Book Review elogiou a habilidade narrativa da autora:

"Wayland-Smith é uma escritora talentosa. Seu relato animado de como Oneida eventualmente sucumbiu aos 'deuses da Ciência e da Dúvida' é uma mudança bem-vinda em relação à maioria das histórias familiares 'contadas por' descendentes." 

The New Yorker destacou a amplitude da análise:

"Um relato animado e frequentemente divertido... Na extensa crônica de Wayland-Smith, vemos a utopia enquanto ela navega pelo mundo, atacada de todos os lados pelas forças da assimilação e da ganância.

Publishers Weekly (resenha com estrela) enfatizou a relevância e a profundidade da pesquisa:

"[Uma] obra impressionantemente completa e envolvente... Este livro é um olhar fascinante sobre a estranha história dos talheres Oneida e como suas origens refletem um período estimulante da história americana." 

Kirkus Reviews (resenha com estrela) destacou o contexto intelectual:

"A luz que Wayland-Smith lança sobre o início e o fim dessa comunidade notável oferece um vislumbre cativante da luta quintessencialmente americana do início do século XIX com os direitos do indivíduo e a separação entre Igreja e Estado. Um relato inteligentemente contextualizado da 'tensão entre crítica social radical e acomodação sem desculpas... entre harmonia comunitária e esforço individual.'" 

Library Journal (resenha com estrela) ressaltou o apelo do livro:

"Esta narrativa convincente entrelaça perfeitamente a improvável aliança entre uma 'utopia do amor livre' e uma marca doméstica. Os fãs de Joseph Ellis e David McCullough apreciarão este relato envolvente." 

Booklist (resenha com estrela) observou a perspectiva única da autora:

"Baseando-se em cartas, diários, boletins informativos e histórias familiares, a autora, descendente de uma das famílias originais, adiciona informações privilegiadas a este reconto da transformação de um movimento radical na corrente mutável dos ideais americanos. A narrativa é envolvente e detalhada. Leitura obrigatória para interessados em história social americana." 

The Hedgehog Review publicou uma análise acadêmica mais aprofundada, de autoria de Rita Koganzon, que situa o livro no contexto dos debates contemporâneos sobre não-monogamia:

"Experimentações em amor livre e comunismo sexual, e de fato comunismo de todos os outros tipos, têm ocorrido nos recantos da América desde o início do século XIX. Qualquer observador imparcial da história americana deve admitir que comunidades excêntricas e separatistas dedicadas a violar quase todos os tabus sociais são tão tradicionalmente americanas quanto o próprio casamento monogâmico. Mas, com a mesma frequência com que surgem, essas comunidades intencionais de casamento aberto fracassaram." 

Comentários de Leitores

Um leitor na plataforma Everand ofereceu uma perspectiva pessoal, destacando o contexto regional:

"Como a Comunidade Oneida fica perto de mim (já visitei a Mansion House várias vezes), sua história sempre me fascinou... O papel e o lugar das mulheres na Comunidade Oneida chama a atenção. Certamente, as mulheres da comunidade eram mais poderosas e em condições mais iguais com os homens do que é normalmente visto na cultura do século XIX." 

Kate Long, no Goodreads, resumiu sua experiência de forma vívida:

"Minha nossa, isso foi uma jornada. Eu imaginei pelo título que seria interessante, mas não pensei que seria TÃO interessante... Este livro foi BANANAS. Foi uma reviravolta e tanto do que começou como para vender talheres." 

Análise Crítica

Elogios

  • Perspectiva Familiar Única: Como descendente de uma das famílias originais da comunidade, Wayland-Smith oferece uma perspectiva "privilegiada" que combina o rigor acadêmico com a intimidade de uma história de família. 

  • Equilíbrio entre Rigor e Acessibilidade: Os críticos são unânimes em elogiar a capacidade da autora de produzir uma obra "acadêmica, mas legível" (scholarlybut readable) , acessível tanto ao público geral quanto ao especializado. 

  • Complexidade Temática: A obra é elogiada por não romantizar nem demonizar a comunidade, mas por explorar suas contradições — desde a teologia genuína de Noyes até os aspectos mais sombrios da stirpicultura .

Possíveis Críticas (Perspectiva Analítica)

  • Ritmo Inicial: Pelo menos uma leitora observou que o começo é "bastante lento", o que pode desencorajar leitores menos familiarizados com o contexto histórico do Segundo Grande Despertar.

  • Foco no Fundador: Embora Wayland-Smith explore o papel das mulheres, alguns críticos poderiam argumentar que o livro ainda se concentra excessivamente na figura carismática de John Humphrey Noyes, em detrimento das vozes dos membros comuns da comunidade. 

  • Ausência de Índice Remissivo: Uma observação menor: algumas edições do livro são descritas como "no index present" (sem índice remissivo), o que pode dificultar a consulta para fins acadêmicos.

Conclusão

OneidaFrom Free Love Utopia to the Well-Set Table é uma obra de não ficção histórica que estabelece Ellen Wayland-Smith como uma importante voz na historiografia americana. Ao contar a história da Comunidade Oneida — de seus experimentos radicais com amor livre e eugenia à sua transformação em um símbolo da respeitabilidade da classe média — a autora oferece muito mais do que um relato histórico. Ela apresenta um estudo profundo sobre as tensões fundamentais que moldaram os Estados Unidos: entre o idealismo e o pragmatismo, entre a comunidade e o indivíduo, e entre o desejo de liberdade radical e a pressão para se conformar às normas sociais.

Com sua pesquisa meticulosa, narrativa envolvente e perspectiva única como descendente, Wayland-Smith oferece uma leitura essencial para interessados em história americana, estudos utópicos, história das religiões e a evolução das normas de gênero e sexualidade nos Estados Unidos.


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