The Great Displacement: Climate Change and the Next American Migration (Simon & Schuster, 2023) é uma obra de não ficção do jornalista Jake Bittle, redator da revista Grist. O livro investiga como as mudanças climáticas já estão remodelando os padrões de migração nos Estados Unidos, deslocando milhares de pessoas de suas casas muito antes do que a maioria imagina. Foi finalista do Carnegie Medal for Excellence em 2024 e recebeu resenhas com estrela (starred reviews) da Kirkus Reviews e de outras publicações de destaque.
A tese central do livro é que a migração climática não é uma ameaça futura distante, mas uma realidade presente. Bittle argumenta que as consequências do aquecimento global já são visíveis em comunidades americanas de costa a costa, onde incêndios florestais, furacões, elevação do nível do mar e secas estão forçando as pessoas a abandonarem suas casas. O título faz uma referência deliberada à Grande Migração (Great Migration) do século XX, quando mais de 6 milhões de negros americanos deixaram o Sul em direção ao Norte — o maior evento de migração única da história dos EUA — para sugerir que um deslocamento de escala semelhante, impulsionado pelo clima, já está em curso.
"These people live in every corner of the country, from the waterlogged streets of Miami to the parched cotton fields of Arizona. They run the gamut from minimum-wage workers to millionaires, from liberals in big coastal cities to entrenched small-town conservatives. Their stories range from the tragic to the comic and from the inspiring to the infuriating. Indeed, there is only one thing they all have in common: they are moving."
Bittle demonstra que a migração climática não é impulsionada apenas pela força bruta da natureza, mas também por sistemas humanos frágeis — mercados de seguros em colapso, programas de assistência a desastres subfinanciados, crises habitacionais e desigualdades raciais e econômicas. Como ele escreve, "climate change is applying stress to an already brittle social and economic order, widening cracks that have been there the whole time".
Estrutura do Livro
O livro está organizado em oito capítulos, cada um centrado em uma comunidade ou região específica que exemplifica um tipo diferente de desastre climático e seus efeitos no deslocamento populacional:
Capítulo, Localização, Tipo de Desastre, Tema Central
1, Big Pine Key, Flórida, Furacões / Elevação do nível do mar, "O fim da terra" e a era do desastre permanente
2, Kinston, Carolina do Norte, Inundações fluviais, Recuo gerenciado (managed retreat) e programas de compra de imóveis
3, Santa Rosa, Califórnia, Incêndios florestais, seguros, crise habitacional e o mercado imobiliário pós-desastre
4, Pointe-au-Chien, Louisiana, Erosão costeira, Extinção cultural e comunidades indígenas não reconhecidas
5, Houston, Texas, Inundações urbanas (Hurricane Harvey), Controle de enchentes e desigualdade urbana
6, Pinal County, Arizona, Seca / Escassez de água, Agricultura, expansão urbana e o mito da conquista do deserto
7, Norfolk, Virgínia, Elevação do nível do mar (inundações de maré alta), Mercados imobiliários em colapso
8, —, Visão de futuro, "Para onde iremos?" — uma nova geografia americana
A estrutura narrativa combina reportagem investigativa com perfis humanos detalhados, apresentando as histórias de famílias e indivíduos que vivenciam o deslocamento em primeira pessoa.
Principais Temas e Conteúdo
1. A Migração Climática Já Começou
Bittle abre com a história de Greenville, Califórnia, uma cidade de 1.000 habitantes que foi 75% destruída pelo Dixie Fire em 2021. O condado de Lassen, onde Greenville está localizada, teve o maior declínio populacional de qualquer condado americano entre 2021 e 2022 (6%). Este é apenas um exemplo de como os desastres climáticos já estão empurrando pessoas para fora de suas casas.
O autor cita dados do Internal Displacement Monitoring Centre: somente em 2020 e 2021, incêndios na Califórnia deslocaram 756.000 pessoas, enquanto furacões na Louisiana deslocaram 842.000 pessoas. Entre 2016 e 2020, mais de 6 milhões de americanos perderam suas casas devido a desastres climáticos.
2. A Contradição do Mercado Imobiliário
Um dos paradoxos mais intrigantes que Bittle explora é porque as pessoas continuam se mudando para áreas de alto risco climático, mesmo quando os perigos são amplamente conhecidos. Dados do Censo dos EUA mostram que quase 100 milhões de americanos vivem em condados costeiros, e o estado de crescimento mais rápido em 2022 foi a Flórida, altamente vulnerável à elevação do mar e furacões. Cinco das 15 cidades de crescimento mais rápido entre 2020 e 2021 estavam no Arizona, uma região que enfrenta seca extrema e escassez de água.
Bittle explica essa aparente contradição através de dois fenômenos:
A "máquina de crescimento" (growth machine) : um ciclo econômico em que mais construção gera mais receita de impostos, que financia serviços públicos, que atrai mais pessoas, que gera mais demanda por construção — todos os atores locais, de incorporadores a governos municipais, têm interesse em manter o crescimento, mesmo em áreas de risco.
O apego emocional ao lar: as pessoas desenvolvem um "amor possessivo" por suas casas, um apego profundo baseado em memórias familiares, segurança econômica e um senso de lugar. Esse vínculo frequentemente supera o medo racional de desastres futuros.
3. Sistemas de Seguros e o Colapso do Mercado
Bittle dedica atenção especial ao papel dos seguros no deslocamento climático. Em Santa Rosa, Califórnia, após o incêndio Tubbs de 2017, um "gap de seguros" (insurance gap) se desenvolveu: as casas valiam milhões, mas os seguros contra incêndio só cobriam algumas centenas de milhares de dólares em danos.
"Many residents chose to cut their losses and buy somewhere else rather than spend countless thousands of dollars to rebuild homes in an area they knew was dangerous. They sold their empty lots to investors and speculators from out of state, most of whom sat on their holdings and waited for the price of land to rise rather than build new houses."
Bittle argumenta que, muito antes de as águas do mar submergirem fisicamente as comunidades costeiras, os mercados imobiliários entrarão em colapso — e uma vez que os valores dos imóveis caem, eles não se recuperam. Ele compara possuir uma casa na costa a segurar um "bastão de dinamite com um pavio longo". Um estudo de 2019 citado por Bittle mostrou que casas expostas à elevação do nível do mar já vendem por aproximadamente 7% menos do que propriedades equivalentes não expostas.
4. Desigualdade Racial e o Programa de Buyouts da FEMA
Um dos capítulos mais contundentes do livro aborda as falhas do programa de "buyouts" (compra de imóveis) da FEMA, que oferece recursos para realocar famílias que vivem em áreas de risco recorrente de enchentes. Bittle documenta a experiência dos residentes de Kinston, Carolina do Norte, após os furacões Fran (1996) e Floyd (1999) .
Os problemas são múltiplos:
Processos burocráticos de anos: famílias esperam anos para receber a oferta de compra.
Viés racial: a FEMA financia desproporcionalmente buyouts em comunidades brancas em comparação com comunidades negras e indígenas, porque a alocação de recursos é baseada em uma análise de custo-benefício que prioriza propriedades de maior valor.
Falta de escala: entre 1989 e 2017, apenas 40.000 buyouts foram realizados — uma fração ínfima do necessário.
Em Lincoln City, Carolina do Norte, um bairro histórico negro foi oferecido para buyout após enchentes repetidas, enquanto comunidades brancas próximas receberam investimentos em diques e outras obras de proteção. Bittle observa um paradoxo cruel:
"It may seem counterintuitive, but disasters tend to make people more attached to their homes, not less: rather than taking Fran as a sign they needed to leave, the residents of Lincoln City determined to hold onto their homes for as long as they could."
5. Comunidades Indígenas e Extinção Cultural
O capítulo sobre Pointe-au-Chien, Louisiana, é um dos mais pungentes do livro. A comunidade, descendente de Alexander Verdin e Marie Gregoire (uma mulher indígena), vive no pântano desde o início do século XIX. No entanto, a falta de reconhecimento federal da tribo os deixou vulneráveis: as terras do pântano foram arrendadas para empresas de petróleo, cujas operações aceleraram a erosão costeira.
"In every sense but one, the land around the bayou belonged to the tribe. They lived on it, traveled on it, shrimped on it, raised cattle on it, trapped on it, and grew their gardens on it. They knew its every intimate detail."
Para famílias como os Verdins (Chuckie e Alton), a decisão de ficar ou partir não é apenas econômica — é existencial. Deixar a terra significa a extinção cultural de uma comunidade que existe há gerações. Bittle escreve:
"When a community disappears, so does a map that orients us in the world."
6. O Futuro: Cidades Refúgio e a Nova Geografia Americana
O capítulo final do livro olha para o futuro, identificando cidades que podem se tornar "refúgios climáticos" (climate refuge cities) . Bittle menciona:
Buffalo, Nova York, que está se promovendo como "cidade refúgio climático"
Duluth, Minnesota, que se autodenomina "Duluth à prova de clima"
Cincinnati, Ohio, que quer ser um "lugar acolhedor para pessoas fugindo de desastres e calor extremo"
Bittle argumenta que políticas governamentais para incentivar a migração para essas áreas devem ser consideradas, mas alerta que o mercado imobiliário ainda não está respondendo aos riscos climáticos de forma adequada.
Citações Importantes
Citação, significado
"The end of the earth : climate change and the age of permanent disaster", O título do primeiro capítulo estabelece o tom: estamos entrando em uma era de desastre permanente, não de eventos isolados.
"the thousand-odd islands that make up the Florida Keys are the first flock of canaries in the coal mine of climate change", uma metáfora poderosa sobre como as comunidades costeiras estão servindo como indicadores precoces da crise climática.
"The gradual blurring of the line between land and water, a process that was supposed to take centuries or even millennia, was happening fast enough that you could watch it with your naked eyes", Sobre Norfolk, Virgínia, onde as ruas inundam na maré alta — o colapso está ocorrendo em tempo real, não em escalas de tempo geológicas.
"When a community disappears, so does a map that orients us in the world", uma reflexão sobre o significado existencial da perda de comunidades inteiras, não apenas de casas individuais.
Prêmios e Reconhecimento
Finalista do Carnegie Medal for Excellence (2024)
Starred Review (resenha com estrela) — Kirkus Reviews
Starred Review — Library Journal
Selecionado como um dos melhores livros do ano por múltiplas publicações
Críticas e Recepção
Elogios
Narrativa Humana e Acessível: A Kirkus Reviews descreve o livro como um "relato urgente e perceptivo" e uma "análise brilhantemente entregue" (brilliantly delivered) . A Yale Climate Connections chama de "leitura obrigatória" e elogia a eficácia das entrevistas de Bittle, que trazem o impacto humano das mudanças climáticas para a vida do leitor.
Equilíbrio entre Escala Macro e Micro: Os críticos destacam a habilidade de Bittle de alternar entre a história pessoal (famílias deslocadas) e a análise sistêmica (mercados de seguros, políticas da FEMA, desigualdade racial) . A 64 Parishes elogia a compaixão de Bittle e sua capacidade de "deslocar a culpa dos indivíduos para os sistemas que os levaram a lugares perigosos em primeiro lugar".
Relevância e Atualidade: Vários críticos observam a oportunidade do livro, que chega em um momento em que os desastres climáticos estão se tornando cada vez mais frequentes e intensos. Um revisor do The StoryGraph afirma que o livro é "importante para a minha geração enquanto planejamos nossos futuros".
Críticas e Limitações
Extensão e Repetição: Uma crítica recorrente é que o livro é excessivamente longo e contém muitos exemplos, tornando a leitura repetitiva. Um revisor comenta que "havia alguns exemplos demais para manter o engajamento". Outro afirma que "grande parte do livro parecia exemplos de como o governo local e a infraestrutura falharam com sua comunidade, em vez de como o clima está remodelando a terra habitável".
Falta de Foco no Clima: Um revisor que interrompeu a leitura em 56% argumenta que o livro "não é sobre mudanças climáticas", mas sim sobre "injustiça racial e de classe com uma pitada de 'tempestades estão piorando'". Este revisor sentiu que o subtítulo prometia um foco maior na ciência climática do que o entregue.
Análise Política Insuficiente: Um revisor do The StoryGraph (hanlinel) observa que o livro parece "politicamente desenraizado" (politically ungrounded). Embora Bittle reconheça onde o governo e o capitalismo nos levaram, ele dedica poucas páginas às recomendações de políticas no final, sugerindo reformas dentro do sistema existente em vez de questionar o sistema em si.
Falta de Mapas: Um revisor sugere que o livro teria se beneficiado muito com a inclusão de mapas para ajudar o leitor a visualizar as regiões e os padrões de migração discutidos.
Resposta às Críticas
É importante notar que as críticas à extensão e ao foco no livro refletem preferências de leitura variadas. Enquanto alguns leitores consideraram os exemplos repetitivos, outros — como a Kirkus Reviews e a Yale Climate Connections — elogiaram a profundidade e a abrangência da pesquisa de Bittle . A decisão de focar nos sistemas humanos (seguros, moradia, políticas de desastre) em vez da ciência climática é uma escolha deliberada do autor para mostrar como as vulnerabilidades sociais amplificam os impactos climáticos.
Contexto do Autor
Jake Bittle é redator da revista Grist, uma publicação líder em cobertura de mudanças climáticas e soluções ambientais. Sua formação como jornalista especializado em clima e habitação lhe confere autoridade para abordar a interseção entre esses temas. The Great Displacement é seu primeiro livro.
Conclusão
The Great Displacement é uma obra fundamental para entender como as mudanças climáticas já estão remodelando a geografia humana dos Estados Unidos. Ao combinar perfis humanos profundamente comoventes com uma análise rigorosa dos sistemas econômicos e políticos que amplificam o deslocamento, Jake Bittle oferece um retrato vívido e preocupante do que está por vir.
Embora alguns críticos apontem extensão excessiva e uma análise política que poderia ser mais ousada, o consenso é que o livro é uma leitura essencial para quem deseja entender as realidades da migração climática — um fenômeno que, como Bittle demonstra de forma convincente, já não é uma ameaça distante, mas uma realidade presente.
"A simultaneously fascinating and unnerving report brilliantly delivered." — Kirkus Reviews
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