The Cost of Free Land: Jews, Lakota, and an American Inheritance (Viking, 2023) é uma obra de não ficção da jornalista premiada Rebecca Clarren, que entrelaça a história de sua própria família de imigrantes judeus com a história dos Lakota, o povo nativo americano que foi forçado a deixar as terras onde seus antepassados se estabeleceram . O livro foi reconhecido com o Will Rogers Medallion Award for Western Nonfiction, foi finalista do Stubbendieck Great Plains Distinguished Book Prize e do William Saroyan International Prize, e foi eleito um dos melhores livros do ano pela Kirkus Reviews .
A tese central do livro é que a história americana de imigração e sucesso — frequentemente contada como uma saga de trabalho duro e conquista do "sonho americano" — está inextricavelmente ligada a uma história mais sombria de despossessão e violência contra os povos indígenas. Clarren argumenta que sua família e outras famílias de imigrantes judeus, embora tenham fugido da perseguição na Europa, tornaram-se, sem saber, beneficiárias de um sistema que roubou terras dos Lakota para entregá-las a colonos brancos .
"What does it mean to survive oppression only to perpetuate and benefit from the oppression of others?" — Rebecca Clarren
O título do livro reflete essa contradição fundamental: a terra considerada "livre" para os colonos teve um custo imenso — pago pelos povos indígenas que ali viviam.
Estrutura e Abordagem Narrativa
O livro é descrito por um crítico como "três livros entrelaçados" :
A história de imigração dos antepassados de Clarren: os Sinykins e outras famílias judias que fugiram dos pogroms na Rússia czarista e se estabeleceram em um assentamento em Dakota do Sul conhecido como "Jew Flats" .
A história do governo dos EUA e seus cidadãos no abuso e roubo das terras dos Lakota: uma narrativa devastadora de quebra de tratados, violência militar, destruição cultural e genocídio .
A jornada pessoal de Clarren em busca de reparação: sua investigação sobre o passado de sua família e suas conversas com líderes Lakota e rabinos sobre como responder adequadamente a essa herança .
A autora combina reportagem investigativa com memória, utilizando fotografias, cartas, recortes de jornais e entrevistas para reconstruir as histórias paralelas de sua família e da família Lakota White Eagle .
"This entire book can be read as a land acknowledgment," Clarren writes .
Principais Temas e Conteúdo
1. A História dos Antepassados: "Jew Flats" e o Sonho Homesteader
Clarren reconstrói a jornada de seus antepassados, os Sinykins, que fugiram dos pogroms em Odessa e chegaram aos Estados Unidos no final do século XIX . Na Rússia, os judeus eram proibidos de possuir terras; a promessa da Homestead Act de 1862 — 160 acres para quem construísse uma casa e cultivasse a terra — parecia um milagre . Cartazes promovendo terras "livres" nas Dakotas atraíram cerca de 75.000 judeus russos para o Oeste .
O assentamento onde sua família se estabeleceu ficou conhecido como "Jew Flats", abrigando 45 propriedades . A vida era brutal: o clima implacável, as dificuldades da agricultura e o isolamento fizeram com que a maioria das famílias desistisse após uma ou duas gerações . Clarren descreve a experiência de sua tataravó, Faige Etke, que fazia seu mikvah (banho ritual) em um riacho congelado cercado por campos de trigo . Outro antepassado, "Lou the Jew" (tio Louie), foi um cowboy, desafiador da Lei Seca e prospector de petróleo — uma figura que abraçou completamente o mito do Oeste americano .
2. A História dos Lakota: Genocídio, Tratados Quebrados e Despossessão
Paralelamente à saga de sucesso dos imigrantes, Clarren expõe a política sistemática dos EUA para remover os povos indígenas. Ela descreve, com "foco de laser", os esforços do governo — militares, políticos, legais e culturais — para destruir os Lakota :
Extermínio dos bisões: a principal fonte de alimento dos Lakota foi deliberadamente destruída para forçá-los à dependência do governo.
Roubo de terras e quebra de tratados: centenas de tratados foram violados . Em 1904, por exemplo, o governo federal declarou 9,3 milhões de acres de terras Lakota como "excedentes" e os abriu para colonização branca .
Sequestro de crianças: crianças foram levadas à força para escolas de internamento distantes, onde sua cultura e língua foram brutalmente suprimidas .
Destruição de locais sagrados: o local mais sagrado dos Lakota, He Sapa (Black Hills) , foi esculpido para se tornar o Monte Rushmore .
Massacres: o livro menciona a violência militar sistemática.
Programas "humanitários" prejudiciais: mesmo o programa de alimentos do Departamento de Agricultura dos EUA, que oferecia alimentos processados ricos em açúcar, gordura e sal, teve um impacto devastador, levando a taxas explosivas de diabetes nas reservas .
Projeto Pick-Sloan: este programa de barragens destruiu "mais terras indígenas do que qualquer outro projeto de obras públicas na história americana", forçando 30% dos residentes da reserva Cheyenne River a se realocar — o mesmo percentual estimado de judeus que deixaram o Pale of Settlement e vieram para a América na virada do século XX .
3. A Conexão Surpreendente: O "Problema Indígena" Americano e o Nazismo
Um dos insights mais chocantes do livro é a conexão entre as políticas de extermínio americanas e a ascensão do nazismo . Clarren cita fontes históricas mostrando que Adolf Hitler estudou as reservas indígenas americanas e os métodos de extermínio como modelo para seus próprios planos.
"Indian Problem" would inspire none other than Adolf Hitler. In a 1928 speech, he applauded the way Americans had "gunned down the millions of Redskins to a few hundred thousand, and now keep the modest remnant under observation in a cage."
"Hitler's studies of American Indian reservations influenced his creation of concentration camps. America's westward expansion, justified by Manifest Destiny, served as Hitler's template for what he called Lebensraum, 'living space,' his justification for invading the countries east of Germany and murdering millions of Slavs living there."
4. A Complexa Relação entre Imigrantes Judeus e Nativos Americanos
Clarren explora a dinâmica racial que colocava imigrantes judeus e nativos americanos em lados opostos de uma hierarquia de branquitude. Os judeus do Leste Europeu, vistos como "não brancos" e "embaraçosos" pelos judeus alemães assimilados, eram enviados para o Oeste . Para se afirmarem como "americanos" e "brancos", muitos imigrantes judeus adotaram os estereótipos racistas sobre os nativos americanos .
"one way that my family and other recent immigrant Jews managed this central anxiety was to distance themselves from Native Americans. Whiteness in America is graded on a curve. Adopting the stereotypical and racist ideas about Lakota and other Indigenous peoples could only help Jews appear a little more white, a little more American."
A autora observa que, ironicamente, os imigrantes judeus — que fugiam da perseguição e da falta de terra — tinham muito mais em comum com os Lakota, que também estavam sendo despossuídos e perseguidos, do que com os colonos brancos estabelecidos . No entanto, a pressão para se assimilar e se distanciar dos nativos prevaleceu.
5. A Busca por Reparação: A Metáfora da "Viga Roubada"
A parte final do livro documenta a jornada pessoal de Clarren em busca de como responder à história que descobriu. Ela é orientada pela juíza nativa americana Abby Abinante a estudar os ensinamentos judaicos sobre reparação e cura, "porque a justiça funciona melhor quando está enraizada na própria cultura" .
Clarren se engaja na tradição judaica de havruta (estudo em parceria) com seu rabino . A metáfora central que guia sua reflexão é um debate talmúdico sobre uma casa construída com uma viga roubada.
"There's a debate, described in the Talmud, between two rabbis, over what should be done if it's discovered that a house, or even a palace, was built using a stolen beam as part of its foundation. One rabbi says the entire building must be demolished so that the beam can be returned to its original owners. The other rabbi, the far more pragmatic, says the building can remain standing if the full value of the beam is repaid. Both rabbis make clear that, as soon as it is known that the beam was stolen, those living in the house must do something, they must make amends."
Clarren aplica essa metáfora à sua própria situação: sua família construiu sua segurança e prosperidade sobre uma "viga roubada" — a terra tomada dos Lakota. A pergunta que a persegue é: o que fazer agora? Ela opta por um caminho de reparação que inclui doações financeiras calculadas a organizações nativas americanas, buscando distinguir entre reparação e caridade . Ela argumenta que os descendentes de colonos devem considerar contribuições financeiras em reconhecimento aos danos infligidos, calculando um valor baseado nos empréstimos e benefícios que seus antepassados receberam do governo e que os nativos americanos não receberam .
Citações Importantes
Prêmios e Reconhecimento
O livro recebeu inúmeros prêmios e distinções :
Will Rogers Medallion Award for Western Nonfiction
Finalista do Stubbendieck Great Plains Distinguished Book Prize
Finalista do William Saroyan International Prize
Kirkus Reviews Best Book of the Year (resenha com estrela)
BookPage Starred Review
The Boston Globe chamou de "A monumental piece of work... a book to join Jesmyn Ward's 'Men We Reaped,' Terry Tempest Williams' 'Refuge' and Elissa Washuta's 'White Magic' as examples of work that sees the clear link between the personal and American culture and history."
Críticas e Recepção
Elogios
Estrutura e Narrativa: A crítica da Kirkus Reviews descreve o livro como uma "mistura hábil de história pessoal e social" e "uma narrativa fascinante" . A Publishers Weekly chama de "um relato empático e revelador" .
Importância Histórica: Vários críticos destacam a importância do livro como uma contribuição única para a história americana . Um revisor da Amazon afirma: "This is a truly spectacular and critically important work. This book deserves to win every award" .
Abordagem Equilibrada: Um revisor elogia o livro por equilibrar "necessidade pessoal contra necessidade cultural" e oferecer "a história mais abrangente e detalhada de como a América trabalhou para destruir o povo Lakota" .
Modelo de Reparação: BookPage elogia a família de Clarren por fornecer "um modelo notável para compensação, arrependimento e transformação que pode começar a curar as feridas do nosso passado" .
Críticas e Limitações
Tom Moralista e Paternalista: Uma das críticas mais detalhadas (Harold no Goodreads) argumenta que o livro adota um "tom moralista e paternalista", dizendo ao leitor como ele deve se sentir e fazendo sugestões sobre o que fazer . O crítico questiona se Clarren aborda adequadamente a questão da responsabilidade pessoal versus responsabilidade coletiva pelos pecados dos antepassados .
Repetição: O mesmo crítico observa que a descrição do "estupro dos Lakota" pelo homem branco é "devastadora e embaraçosa", mas sente que a autora se sente compelida a contar isso repetidamente, "como se expor os fatos não fosse suficiente" .
Análise Histórica Limitada: Harold argumenta que o livro "fica aquém em qualquer história real do abuso ou mais do que algumas declarações conclusórias e repetitivas" . Ele sugere que a obra poderia ter se beneficiado de uma análise histórica mais profunda e menos ênfase nas reações pessoais da autora.
Essas críticas, no entanto, são minoritárias. A grande maioria dos leitores e publicações especializadas celebrou o livro como uma obra corajosa e necessária. Vale notar que a própria Clarren reconhece a complexidade de sua posição e se engaja em conversas com líderes Lakota e rabinos exatamente para navegar por essas questões morais .
Contexto do Autor
Rebecca Clarren é uma jornalista premiada que escreveu extensivamente sobre o Oeste americano para publicações como The Nation, Ms. e Salon . Ela é descendente de judeus que fugiram dos pogroms na Rússia e se estabeleceram em Dakota do Sul . Sua conexão pessoal com o tema é profunda, e o livro é o resultado de anos de pesquisa e reflexão sobre sua própria herança familiar e seu lugar na história americana.
Conclusão
The Cost of Free Land é uma obra corajosa e profundamente necessária que desafia as narrativas mitológicas do Oeste americano e do "sonho americano". Ao entrelaçar a história de sua própria família de imigrantes judeus com a história de despossessão dos Lakota, Rebecca Clarren oferece um modelo poderoso de como confrontar verdades desconfortáveis sobre o passado e assumir a responsabilidade por elas no presente.
O livro foi amplamente aclamado pela crítica, recebendo prêmios e resenhas estreladas das principais publicações. Embora alguns críticos apontem um tom moralista e uma certa repetição, o consenso geral é que se trata de uma contribuição monumental para a compreensão da história americana e para o debate sobre reparação e reconciliação.
"Memorable... [The Cost of Free Land], troubling and inspiring, seeks a humane path toward restitution." — Kirkus Reviews
Perguntas para Discussão (do Guia de Leitura da Penguin Random House)
O guia de leitura oficial oferece perguntas que ajudam a aprofundar a reflexão sobre o livro:
O que acontece com nosso senso de América e de nossos antepassados quando desmontamos o mito pioneiro? Podemos olhar criticamente para o passado e ainda nos orgulhar de nossa família, de nossa nação?
Clarren descreve como a solução americana para o "Problema Indígena" inspirou o tratamento de Hitler aos judeus durante o Holocausto. Como saber disso muda a maneira como você pensa sobre a América durante a Segunda Guerra Mundial e no século XX em geral?
Qual você acha que é o significado do título do livro? Quais são as várias maneiras pelas quais a autora faz um acerto de contas com a história de sua família como colonos?
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