Para Deleuze, a Recherche não é uma obra sobre a memória, mas sim uma "máquina produtora de signos". O amor, nesse contexto, é o processo de nos tornarmos sensíveis aos signos emitidos pela pessoa amada. Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que carrega, é decifrar os mundos desconhecidos que essa pessoa aprisiona. O ser amado não é um objeto a ser possuído, mas sim uma "alma" que emite signos a serem interpretados.
É aqui que a imagem da aranha se torna fundamental. O narrador, ou qualquer amante na obra (como Swann ou o próprio Marcel), é como uma aranha que, a partir de si mesma, constrói uma teia. Essa teia é a interpretação, a trama de ciúmes e suspeitas que ele lança sobre a amada. A aranha, muitas vezes imóvel e na escuridão, espera que um signo vibre em sua teia para então agir. Como observa Deleuze, a aranha é "cega, sem órgãos, que se mantém à espreita das vibrações, dos menores signos emitidos em sua teia".
Essa imagem captura a passividade aparente e a atividade interpretativa violenta do amor. O amante não age no mundo da amada, mas sente cada mínimo movimento, cada palavra, cada olhar como um signo que percorre os fios de sua obsessão. É uma "interpretação silenciosa", como define Deleuze, que alimenta o amor muito mais do que qualquer diálogo ou amizade poderia fazer.
"Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É tornar-se sensível a esses signos, apreendê-los. É possível que a amizade se nutra da observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de uma interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma 'alma': exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar."
A Teia e a Captura do Inapreensível
A construção da teia, no entanto, é um processo doloroso. O amante não tece seus fios sobre um vazio, mas sobre o mistério. O ser amado é desejado exatamente porque encerra um mundo que não conhecemos e do qual, essencialmente, não participamos. Deleuze explica que o amado "implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar". Albertine, por exemplo, não é apenas Albertine Simonet; para o narrador, ela é a amalgama da "praia e do deferir das ondas", a incorporação de um horizonte geográfico e social que ele deseja penetrar sem jamais conseguir.
Aqui reside a tragédia fundamental do amor segundo a leitura deleuziana: a impossibilidade da exclusividade. Os signos que a amada emite para nós são os mesmos que ela emite para outros, ou que remetem a mundos construídos sem nós. A teia do amante, portanto, é uma tentativa de capturar algo que, por natureza, é fugidio. A vibração na teia pode ser o sinal da presença desejada, mas também a confirmação de um mundo do qual ele está excluído. É por isso que a primeira lei do amor é o ciúme e o signo amoroso é, por excelência, um signo mentiroso.
"O amado nos emite signos de preferência; mas como esses signos são os mesmos que aqueles que exprimem mundos de que não fazemos parte, cada preferência que nós usufruímos delineia a imagem do mundo possível onde outros seriam ou são preferidos."
Essa dinâmica é exemplificada na relação de Swann com Odette. Inicialmente, Odette não é o tipo de Swann, mas ele se apaixona ao transportá-la para um quadro de Botticelli. Swann tece sua teia sobre Odette não a partir dela, mas a partir de um signo artístico que ele projeta nela. A partir desse momento, cada gesto de Odette é um signo a ser interpretado, cada atraso, uma possível vibração de um mundo outro, onde ela pertence a alguém ou a algo que não Swann. A "pequena frase" da sonata de Vinteuil torna-se, ela própria, um fio condutor dessa teia, o "hino nacional" do amor deles, que une e separa os dois amantes na mesma melodia.
A Aranha e a Verdade do Amor na Obra de Arte
Se o amor, em si mesmo, é essa teia de sofrimento e mentiras, tecida na imanência do tempo que se perde, qual o seu valor na economia geral da Recherche? Para Deleuze, o amor, assim como os signos mundanos e sensíveis, é um aprendizado que converge para a Arte.
A aranha, ao final, não tece apenas para capturar; ela tece para sobreviver, para produzir. Do mesmo modo, todo o sofrimento amoroso, toda a interpretação silenciosa e dolorosa dos signos de Albertine, não é em vão. Esse aprendizado forçado, essa violência exercida sobre o pensamento pelo ciúme e pela mentira, é o que prepara o narrador para a compreensão das essências, que só a arte é capaz de revelar.
A decepção amorosa, a constatação de que o ser amado é inapreensível e de que seus signos são mentirosos, empurra o narrador para uma verdade mais profunda. A "essência" que ele buscava desesperadamente em Albertine, aquele mundo que ela encerrava, não podia ser possuído, mas pode ser expresso. A teia, que antes era uma armadilha para prender a amada, transforma-se na estrutura mesma da obra de arte.
O amor é, portanto, uma etapa crucial. Ele nos força a interpretar, a mergulhar no mundo dos signos, a experimentar a dor da diferença e da repetição. A amada, que nunca se deixa capturar plenamente pela teia do ciúme, acaba por ensinar ao amante que a verdade não está no objeto, mas no signo, e que a posse é impossível. Resta, então, a interpretação. Resta, como a aranha que transforma a vibração capturada em substância, a possibilidade de transformar esses signos vividos no tempo perdido em arte, em tempo redescoberto.
"Os signos amorosos não são como os signos mundanos: não são signos vazios, que substituem o pensamento e a ação; são signos mentirosos que não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhe dão sentido."
Assim, a grande metáfora da aranha revela a jornada do romance: de uma busca ilusória pela posse do outro, através dos fios frágeis e dolorosos da interpretação amorosa, à descoberta de que o verdadeiro sentido dessa teia não era a captura da amada, mas a construção de uma obra que, essa sim, é capaz de expressar a essência do que foi vivido. A aranha proustiana, ao fim de seu aprendizado, descobre que a única presa verdadeira era a sua própria obra.
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