SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 17 de março de 2026

DADOS DA EDUCAÇÃO CEARENSE 2026, AS OLIGARQUIAS CORRUPTAS E ENRIQUECIMENTO DAS CONSTRUTORAS DOS AMIGOS!



População e Escolarização Básica 

O Ceará tem atualmente 9.268.836 habitantes. Sobre este contingente: 

  • Analfabetismo: O estado tem a 4ª maior taxa do Brasil, com 11,7% da população acima de 15 anos (aproximadamente 867 mil pessoas) que não sabem ler e escrever. 

  • Ensino Fundamental: Cerca de 1,76 milhão de cearenses com mais de 25 anos não concluíram o ensino fundamental. 

  • Ensino Médio: Aproximadamente 1,74 milhão de cearenses concluíram o ensino médio. Concluímos que mais de 7, 5 milhões não concluíram, o ensino médio de uma população total é de 9,2 milhões. E quantos desses chegam a Universidade?  E como as Oligarquias privilegiam as Construtoras! 

Ensino Médio e Acesso à Universidade 

  • Estudantes no Ensino Médio público: O Ceará tem aproximadamente 300 mil estudantes na rede estadual. 

  • Vagas no Ensino Superior público: O Sisu 2026 oferta 14,2 mil vagas no Ceará: 

  • Universidades federais (UFC, UFCA, Unilab): 8.543 vagas 

  • Instituto Federal do Ceará (IFCE): 5.680 vagas 

  • Lei de Cotas: 50% das vagas são reservadas para estudantes de escolas públicas, com subcotas por renda (até 1 salário-mínimo per capita), raça (pretos, pardos, indígenas, quilombolas) e pessoas com deficiência. 

Juventude e Exclusão 

  • Jovens "Nem Nem" (15 a 29 anos que não estudam nem trabalham): 26,26% da juventude cearense — ou seja, cerca de 860 mil jovens. Este número é praticamente igual ao total de analfabetos adultos, revelando uma geração inteira em situação de exclusão. 

  • Por faixa etária: 

  • 15 a 17 anos: 3,26% (estão majoritariamente na escola) 

  • 18 a 24 anos: 33,76% (pico da exclusão jovem) 

  • 25 a 29 anos: 29,42% 

Disparidade por Raça 

  • Tempo médio de estudo de brancos: 10,2 anos 

  • Tempo médio de estudo de negros: 8,9 anos  

  • A população negra (pretos e pardos) tem taxas de analfabetismo superiores à média estadual. 

 

Respondendo às Questões Centrais 

1. A Escola Pública é um Sucesso para os Pobres? 

Em números absolutos, não. Vejamos a equação fundamental: 

  • 300 mil estudantes no ensino médio público 

  • 14,2 mil vagas no ensino superior público (total) 

  • 50% das vagas reservadas para escolas públicas = 7,1 mil vagas 

Se todos os 300 mil estudantes do ensino médio público concorressem em igualdade, apenas 2,37% deles teriam acesso a uma vaga na universidade pública. Os outros 97,63% — mesmo com cotas — ficarão de fora. 

O que os dados mostram: 

A escola pública brasileira, incluindo a cearense, não é um fracasso pedagógico absoluto — há experiências exitosas, como a EEEP Darcy Ribeiro, que celebrou 68 aprovações no ensino superior em 2026, com crescimento de 400% nas vagas da Uece. Estudantes como José Daniel (aprovado em Medicina Veterinária na Uece e Engenharia de Alimentos na UFC) e Clarisse Mikaele (aprovada em três cursos) são provas vivas de que a escola pública pode formar jovens para a universidade. 

Mas o sucesso individual não pode ser confundido com sucesso sistêmico. Estes casos, embora inspiradores, são a exceção que confirma a regra. A escola pública é bem-sucedida para uma minoria que consegue superar todas as barreiras. Para a maioria, ela é um filtro que os exclui ao longo da trajetória — seja pela reprovação, pela necessidade de trabalhar, pela desistência ou pela impossibilidade de competir em vestibulares mesmo com cotas. 

Sobre as vagas ociosas: A ociosidade de vagas no ensino superior público brasileiro é um fenômeno real, mas precisa ser compreendida em suas múltiplas causas. Um jovem que trabalha 8 ou mais horas por dia para sobreviver — como José Daniel, que acordava às 4h50 para estagiar — tem seu tempo e energia drasticamente reduzidos para os estudos. Quando a universidade exige dedicação integral, está, na prática, excluindo quem precisa trabalhar. A vaga fica ociosa não por falta de demanda, mas por incompatibilidade entre a vida que o estudante pobre pode ter e a vida que a universidade exige. 

 

Análise Crítica: Investimento em Infraestrutura versus Investimento em Pessoas 

A Lógica das Construtoras na Educação 

Quem se beneficia do "maior investimento em educação"? 

É preciso distinguir investimento em educação de gasto com infraestrutura escolar. Quando o governo anuncia grandes obras — novas escolas, creches, campus universitários, quadras poliesportivas —, parte significativa do recurso público é transferida para o setor da construção civil. Grandes construtoras (empreiteiras) são contratadas via licitação, muitas vezes com sobrepreço, aditivos e prazos estendidos. Este é um ciclo bem conhecido no Brasil: obras superfaturadas geram lucros para empresas e, não raro, abastecem esquemas de corrupção que retroalimentam campanhas políticas. 

Enquanto isso: 

  • Professores continuam com salários defasados 

  • Merenda escolar sofre cortes ou tem qualidade reduzida 

  • Programas de assistência estudantil (bolsa permanência, auxílio transporte, moradia estudantil) são insuficientes 

  • Falta psicólogos, monitores, infraestrutura de apoio psicossocial 

O Ciclo Perverso: Construtoras Ganham, Estudantes Perdem 

O modelo pode ser assim esquematizado: 

  1. Diagnóstico: Há déficit de vagas ou más condições estruturais nas escolas. 

  1. Solução aparente: Governo anuncia grande programa de construção/reforma de escolas. 

  1. Execução: Empreiteiras são contratadas com vultosos recursos. Obras frequentemente superfaturadas, com aditivos que elevam ainda mais os custos. 

  1. Resultado para as construtoras: Lucros bilionários, fortalecimento político e econômico. 

  1. Resultado para os estudantes: Obras que podem demorar anos, escolas que continuam sem condições adequadas de ensino-aprendizagem e, principalmente, ausência de políticas que garantam a permanência — como renda básica, creche para filhos de estudantes, transporte de qualidade, alimentação digna. 

O dinheiro que poderia ser investido em bolsas de estudo, em ampliação do quadro de professores, em programas de tutoria e acompanhamento pedagógico, em creches para que mães jovens possam estudar, acaba sendo transformado em concreto e aço. O concreto e o aço são necessários? Sim, escolas precisam de infraestrutura. Mas não adianta ter o prédio mais moderno se os jovens estão fora dele — trabalhando, ou desempregados, ou cuidando de familiares, ou simplesmente desistindo porque a fome fala mais alto. 

O Escândalo dos "Elefantes Brancos" 

Não raro, essas obras resultam em: 

  • Escolas de R$ 30 milhões construídas em locais de difícil acesso, sem estudantes para ocupá-las 

  • Campus universitários no meio do nada, sem moradia estudantil, sem transporte público, sem restaurante universitário — ou seja, estruturalmente excludentes para quem é pobre 

  • Obras inacabadas ou paralisadas, com recursos já gastos e nenhum benefício entregue 

O Custo de Oportunidade 

Custo de oportunidade é um conceito econômico fundamental: quando se escolhe gastar dinheiro com uma coisa, desiste-se de gastar com outra. 

Se o Ceará e a União investem R$ 500 milhões em novas escolas e campus, estão deixando de investir R$ 500 milhões em: 

  • Bolsa permanência para 100 mil estudantes de baixa renda (R$ 500/mês cada) 

  • Contratação de 5 mil novos professores 

  • Implantação de creches em todos os campus universitários 

  • Programa estadual de alfabetização de jovens e adultos 

  • Transporte escolar rural de qualidade 

Onde está o dinheiro? Uma parte legítima, em infraestrutura. Outra parte, em superfaturamento e lucro de empreiteiras. A parte legítima é necessária. A parte ilegítima é um desvio ético e político que sacrifica gerações. 

 

Conclusão: O Que a Ótica de Chevallard Revela 

Aplicando a Teoria Antropológica do Didático de Yves Chevallard a este cenário, podemos dizer que: 

  1. Há uma disjunção entre o "saber a ensinar" e o "saber vivido". O currículo, os prédios, as vagas — tudo isso faz parte da noosfera, do mundo das intenções educacionais. Mas o saber ensinado (e aprendido) só se realiza se houver condições materiais para isso. Um jovem que precisa trabalhar 8 horas não tem as mesmas condições de aprender que um jovem de classe média. 

  1. A escala de Co determinação didática mostra que fatores macrossociais (pobreza, trabalho infantil, desemprego) determinam o que acontece na sala de aula. Não adianta reformar a pedagogia se a sociedade não garante o mínimo para que o estudante chegue à escola em condições de aprender. 

  1. A transposição didática, quando feita sem considerar a ecologia do saber (as condições de sobrevivência do conhecimento na vida do aluno), torna-se um exercício vazio. O conhecimento que a escola transmite não encontra "habitat" na vida de quem vive na pobreza — a não ser que a escola também ofereça as condições para que esse conhecimento floresça. 

A escola pública não é um sucesso para os pobres enquanto os pobres continuarem sendo expulsos dela pela necessidade de sobreviver. Enquanto as vagas nas universidades públicas forem ocupadas majoritariamente por quem pôde estudar em escolas privadas ou em escolas públicas de elite (como as escolas profissionalizantes, que são exceções seletivas), o discurso do mérito será uma farsa. 

O maior investimento em educação, quando capturado pelo setor da construção civil em detrimento do investimento direto em pessoas, transforma vidas em concreto. E concreto não aprende, não sonha, não transforma. Só perpetua o ciclo de exclusão, agora maquiado com placas de inauguração e discursos ufanistas. 

A pergunta que fica é: quantos José Daniels e Clarisses Mikaelis poderiam existir se o dinheiro gasto em obras superfaturadas fosse investido em políticas de permanência? A resposta, infelizmente, está no número de jovens "nem nem" — quase 1 milhão de cearenses — que continuam fora da escola e do trabalho, invisíveis para as estatísticas de concreto armado. 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário