A obra de Benjamin Nathans, To the Success of Our Hopeless Cause: The Many Lives of the Soviet Dissident Movement, é uma história definitiva e inovadora sobre o movimento dissidente na União Soviética. Publicado em 2024 e vencedor do prestigiado Prêmio Vucinich da ASEEES, o livro é descrito como um "feito de erudição meticulosa e criativa" que evita tanto as armadilhas triunfalistas quanto as trágicas, oferecendo um relato complexo e densamente entrelaçado. O título do livro é inspirado em um brinde feito pelos dissidentes em seus encontros, um brinde ao "sucesso de nossa causa sem esperança", que captura a essência de uma luta movida pela convicção, apesar das probabilidades esmagadoras.
A Tese Central: Obediência Civil e a "Causa Sem Esperança"
O argumento central de Nathans é contraintuitivo e poderoso: o movimento dissidente soviético não nasceu de um desejo de derrubar o estado, mas de uma exigência radical de que o estado cumprisse as suas próprias leis. Os ativistas construíram o movimento antitotalitário sobre conceitos fundamentais retirados do próprio panteão comunista. O objetivo não era derrubar o poder soviético (uma façanha que dificilmente poderiam imaginar), mas exercer um tipo de "contenção" do poder soviético a partir de dentro.
Essa estratégia foi personificada pelo conceito de "obediência civil" (civil obedience), cunhado e praticado pelo matemático e filho do poeta Sergei Yesenin, Alexander Esenin-Volpin. Em vez da desobediência civil de Gandhi, Volpin propôs algo mais sutil e, para o regime, mais perturbador. Como explica Nathans, Volpin acreditava que o governo soviético deveria ser convencido a obedecer ao seu próprio conjunto de leis. Ele via aspectos positivos na própria Constituição de Stalin de 1936, uma carta de direitos surpreendentemente liberal que havia sido reduzida a uma fachada. Volpin queria criar um movimento cívico unido pelo que o sociólogo Mark Granovetter chamou de "laços fracos" — laços baseados na cidadania, em vez de amizade — para pressionar por essa agenda legalista.
Origens: O Retorno dos Reprimidos e as Redes Informais
Nathans situa as origens do movimento no período pós-Stalin, particularmente após o discurso de Nikita Khrushchev em 1956. O retorno de milhões de ex-prisioneiros do Gulag revelou uma verdade mais profunda sobre a sociedade soviética, levando intelectuais a compreender que "a prisão está em nós". O trauma dos encontros com o estado policial tornou-se uma fonte para a busca visceral da liberdade de espírito.
Um dos pontos altos da análise de Nathans é sua ênfase nas redes informais de amizade e confiança que formaram a espinha dorsal do movimento. Como ele escreve, "O movimento dissidente começou como uma coleção de pequenas comunidades presenciais unidas por fortes laços de amizade íntima e confiança. De certa forma, nunca perdeu essas qualidades". Ele usa o exemplo de Hélène Peltier, filha de um adido francês, e sua amizade com o escritor Andrei Sinyavsky na Universidade de Moscou na década de 1940, para mostrar como as discussões sobre arte e política ocidentais provocaram "tremores sísmicos" que gradualmente afastaram Sinyavsky da lealdade ao regime. A prisão do pai de Sinyavsky em 1950 consolidou essa ruptura. O movimento, portanto, era tanto sobre a sobrevivência psicológica e a criação de uma cultura comunitária de honestidade quanto sobre política.
O Repertório Dissidente: Transparência, Julgamentos e Reação em Cadeia
O livro documenta meticulosamente a evolução do "repertório de contestação" dos dissidentes. Um momento crucial foi o julgamento de Sinyavsky e Yuli Daniel em 1965. Nathans mostra como a decisão do regime de realizar o julgamento em um tribunal aberto saiu pela culatra. Os dissidentes começaram a usar o conceito de glasnost (transparência) muito antes de Gorbachev. As "reuniões de transparência" em Praça Pushkin, em dezembro de 1965, foram uma tentativa de exigir que o processo legal fosse seguido. Como descreve Nathans, a transparência era "parte do processo pelo qual a confiança social emergia hesitantemente das sombras medrosas do stalinismo".
O movimento era reativo por natureza e evoluía na forma de uma "reação em cadeia" (chain reaction) de atos individuais de resistência. Cada prisão, cada julgamento, gerava novos protestos e novas cartas abertas, alargando gradualmente o círculo de pessoas envolvidas. O auge da abordagem mais personalista e baseada na consciência foi a pequena manifestação na Praça Vermelha contra a invasão da Tchecoslováquia em agosto de 1968.
A Repressão e a Evolução Institucional
A resposta do estado a essa ameaça crescente foi a criação da Quinta Diretoria da KGB em 1967, sob a liderança de Yuri Andropov . Nathans descreve esta diretoria como um esforço para combater a influência dos meios de comunicação ocidentais e dos defensores do Estado de Direito. As novas táticas, como a profilaktika (entrevistas preventivas com jovens), visavam criar uma cultura sistêmica de obediência irrefletida por meio do medo e da manipulação emocional, contrapondo-se diretamente ao sonho de Volpin de uma cultura legalista e lógica.
Com a repressão dos manifestantes da Praça Vermelha, o movimento tentou se institucionalizar, criando o Grupo Iniciativa pela Defesa dos Direitos Civis na URSS (1969) e o Comitê de Direitos Humanos (1970). Nathans argumenta que, nesse processo, o que começou como um movimento social efetivamente se transformou em um aglomerado de ONGs, o que dificultou o recrutamento de novos membros e o distanciou da sociedade em geral. Figuras como o físico Andrei Sakharov, cujo ensaio de 1968 pedia a liberdade de informação para a gestão científica da sociedade, e Viktor Chalidze, com sua concentração "quase talmúdica" nos detalhes da lei, tornaram-se centrais nessa nova fase.
Legados e Contradições
Uma das forças do livro é a sua honestidade sobre as contradições do movimento. Nathans aponta que os dissidentes, embora movidos por valores humanistas, refletiam as divisões da sociedade soviética, o que comprometia o seu apelo além dos círculos da intelectualidade metropolitana. Eles mostravam pouco interesse na economia ou nos direitos sociais que o estado soviético garantia, concentrando-se quase exclusivamente nos direitos civis e políticos. Além disso, à medida que o movimento se voltava para o Ocidente em busca de apoio — com a fundação do Grupo Moscou Helsinki em 1976 — muitos soviéticos comuns passaram a vê-los como estranhos ou agentes estrangeiros.
No entanto, o legado é inegável. Nathans conclui que, ao enfrentar a perseguição extrajudicial, o movimento se reinventou como uma série de pequenas associações do tipo ONG, sustentadas por redes de comunicação samizdat, todas operando sob cerco da KGB. A sua coragem continua a inspirar novas gerações de vítimas da repressão política. To the Success of Our Hopeless Cause não é apenas uma obra de referência sobre a história soviética, mas um "espelho" para as lutas contemporâneas entre a esperança e o desespero em regimes autoritários, oferecendo uma lição poderosa sobre como, parafraseando um dos seus protagonistas, "num país não livre, eles começaram a comportar-se como pessoas livres".
Nenhum comentário:
Postar um comentário