A obra The Burning Earth: An Environmental History of the Last 500 Years, de Sunil Amrith, é uma "história global inovadora" que reescreve a narrativa da civilização moderna ao colocar a relação entre a humanidade e o planeta no centro do palco. Longe de ser uma crônica ambiental tradicional, o livro é descrito como um "épico que altera a mente", que entrelaça as histórias de império e meio ambiente, genocídio e ecocídio, e a expansão da liberdade humana com os seus custos planetários.
A Tese Central: A Busca pela Liberdade em Relação à Natureza
O argumento fundamental de Amrith é que a história moderna é definida pela busca da humanidade pela "liberdade em relação à natureza". Para a maior parte da história humana, essa ideia seria incompreensível, pois a existência estava totalmente sujeita aos caprichos do clima e aos limites da energia solar, materializada na fotossíntese das plantas. A grande virada ocorreu com a exploração dos combustíveis fósseis, que representou uma "libertação da dependência da fotossíntese". Nas palavras do autor, foi "um tipo de liberdade que antes estaria além do alcance da imaginação humana: uma liberdade que as pessoas dificilmente poderiam saber como querer". No entanto, essa libertação, que permitiu avanços sem precedentes na saúde, na produção de alimentos e na mobilidade, foi construída sobre uma base de exploração ecológica e humana, criando uma armadilha: a mesma energia que nos libertou das amarras da natureza agora nos aprisiona em uma crise climática planetária.
Império, Extrativismo e Desigualdade
Amrith demonstra como essa busca por liberdade e riqueza esteve intrinsecamente ligada ao imperialismo e à desigualdade. O livro "twins the stories of environment and Empire, of genocide and eco-cide", mostrando que a violência contra os seres humanos e a devastação ambiental sempre andaram de mãos dadas. O autor examina uma vasta gama de exemplos concretos para ilustrar essa tese, como as "ruínas da mineração de prata portuguesa no Peru, a mineração de ouro britânica na África do Sul e a extração de petróleo na Ásia Central".
A análise da mineração de ouro na África do Sul, por exemplo, revela como a exploração brutal de trabalhadores migrantes negros coincidiu com a capacidade tecnológica de perfurar cada vez mais fundo, alimentando o comércio global de ouro e o sistema financeiro de Londres. Da mesma forma, a descoberta dos campos de petróleo no Azerbaijão, uma década antes do primeiro poço americano, transformou a economia czarista e ajudou a inaugurar séculos de dependência de combustíveis fósseis. Para Amrith, o sabor europeu por açúcar no século XVII é um nó que amarra inextricavelmente a destruição das florestas brasileiras para plantações de cana e o comércio de milhões de pessoas escravizadas da África. O livro argumenta que a industrialização nunca foi moralmente neutra; foi "impulsionada pela ambição e expansão econômica".
A Escala Global da Transformação: Guerras e Migrações
A análise de Amrith estende-se aos grandes conflitos e movimentos humanos do século XX. O autor oferece uma nova perspectiva sobre as Guerras Mundiais, mostrando como elas envolveram a "mobilização massiva não apenas de homens, mas de outros recursos naturais de todo o mundo", constituindo-se como um "remodelamento irreversível do planeta". A guerra, argumenta, "provavelmente contribuiu mais do que qualquer outra coisa para a destruição planetária". O livro também revela a realidade da migração como consequência direta da degradação ambiental, um fenômeno muitas vezes negligenciado nas narrativas históricas tradicionais.
Uma Perspectiva de Longuíssima Duração
O livro distingue-se por começar a sua história não na Revolução Industrial, mas por volta do ano 1200. Amrith situa a origem das transformações ambientais na massiva expansão do cultivo de arroz na China, há cerca de mil anos, com a introdução de uma variedade de arroz mais resistente vinda do Vietnã. Este evento, ao duplicar a área cultivada e impulsionar a prosperidade chinesa, criou as condições de riqueza que atraíram os europeus para a Ásia séculos mais tarde. Esta perspectiva de longuíssima duração permite a Amrith desafiar a suposição de que a história humana pode ser escrita separadamente da nossa relação com o mundo "mais-que-humano", com o resto da natureza.
Conclusão: Um Apelo à Responsabilidade Histórica
The Burning Earth não é apenas uma história do passado, mas um "espelho da civilização humana refletindo não apenas os níveis de carbono, mas a nossa moralidade coletiva". Ao chegar à crise climática contemporânea, Amrith sublinha a injustiça fundamental de um mundo onde as nações ricas, tendo atingido a sua prosperidade à custa do planeta, têm pouca autoridade moral para pedir às nações mais pobres que refreiem as suas ambições, pois "agora era a vez de os outros comerem". A obra, vencedora do British Academy Book Prize de 2025, é considerada uma "leitura obrigatória para quem procura compreender as origens da crise climática atual" e um poderoso lembrete de que a crise ecológica é, acima de tudo, uma crise de valores, poder e justiça.
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