SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Oscar vai para Zé Ninguém contra o Aparelhamento da Escola: Da Resistência Individual à Luta Coletiva por uma Escola crítica! Por Egidio Guerra.

 



Introdução: O Grito Silencioso de um Educador 

Em 2026, o mundo cinematográfico foi abalado por um documentário premiado com o Oscar: "Um Zé Ninguém Contra Putin" (título original: Mr. Nobody Against Putin), dirigido por Pavel "PashaTalankin e David Borenstein. A obra, vencedora também do BAFTA e do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, narra a história real de um professor russo que, munido apenas de sua câmera clandestina, registrou a transformação de sua escola rural em Karabash — uma das cidades mais poluídas do planeta — em um centro de doutrinação e recrutamento militar para a guerra na Ucrânia. 

O que torna este documentário tão universal e necessário para o debate educacional brasileiro é sua denúncia contundente do aparelhamento da escola — a transformação do espaço de ensino em instrumento de manipulação ideológica, controle social e reprodução de poder. Ao filmar secretamente as cerimônias patrióticas obrigatórias, as visitas de mercenários do Grupo Wagner que ensinavam crianças a manusearem fuzis, e os novos currículos que impunham a narrativa oficial sobre a "libertação" da Ucrânia, Talankin expôs o que educadores críticos de diferentes matrizes teóricas sempre alertaram: quando a escola perde sua autonomia e se curva aos interesses do Estado ou de grupos políticos dominantes, ela deixa de educar para começar a doutrinar. 

A imagem mais perturbadora do filme — um garoto segurando uma AK-47 e fingindo atirar diretamente para a lente de Pasha — sintetiza o horror do aparelhamento: a transformação de crianças em instrumentos de uma máquina de guerra que não lhes pertence. Este artigo propõe uma reflexão sobre como pensadores fundamentais da educação, de Paulo Freire a Jacques Rancière, de Vigotski a Michael Apple, dedicaram suas vidas a combater exatamente este processo, e como suas teorias nos ajudam a compreender — e enfrentar — as formas específicas de aparelhamento que persistem no Brasil, particularmente no Nordeste e no Ceará, onde velhas oligarquias e novas tecnocracias continuam tratando escolas como currais eleitorais e instrumentos de corrupção. 

 

Parte I: O Documentário como Retrato do Aparelhamento 

1.1 A Escola como Trincheira 

"Um Zé Ninguém Contra Putin" não é apenas um filme sobre a Rússia de Putin. É um alerta universal sobre a vulnerabilidade das instituições educacionais diante do poder autoritário. Talankin, que trabalhava como organizador de eventos e professor de audiovisual, era querido por alunos e colegas. Sua mãe trabalhava na biblioteca. Sua sala estava sempre aberta para crianças que buscavam acolhimento. Foi exatamente essa posição privilegiada que lhe permitiu testemunhar, em tempo real, a metamorfose de seu local de trabalho. 

Inicialmente, as mudanças pareciam inofensivas: hinos nacionais, desfiles com bandeiras, discursos de Putin exibidos no auditório. Mas gradualmente o cerco se fechou. Chegaram e-mails com um "novo currículo" a ser seguido. A ordem de que "heróis da libertação da Ucrânia" fossem ensinados nas aulas de história. E, finalmente, a visita dos mercenários do Grupo Wagner promovendo treinamento militar com as crianças. 

O que Pasha registrou foi a militarização da vida escolar — um processo que, como veremos, encontra paralelos preocupantes em diferentes contextos, inclusive no Brasil, onde a presença de militares na gestão educacional e o avanço de projetos de lei que incentivam valores militaristas nas escolas têm sido objeto de intenso debate. 

1.2 O Preço da Resistência 

A bravura de Talankin teve custos. Ao final do documentário, descobrimos que ele foi forçado a fugir da Rússia, com ajuda de produtores internacionais, após evidências de vigilância policial em sua casa. Sua história é a de um "Zé Ninguém" — um homem comum que, confrontado com a injustiça, escolheu resistir. Como observa um dos críticos, o filme não oferece catarse fácil ou vitória do herói; entrega algo mais perturbador: "a consciência incômoda de que a injustiça pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer um, quando menos esperam". 

Esta é a mesma intuição que moveu os grandes pensadores da educação crítica: a escola não é um espaço neutro. Ela pode ser instrumento de libertação ou de opressão. E quando as forças do aparelhamento se instalam, são os educadores comprometidos com a verdade que pagam o preço mais alto. 

 

Parte II: Pensadores contra o Aparelhamento da Escola 

A história de Pasha Talankin poderia servir de ilustração para as teorias de diversos pensadores que dedicaram suas obras a compreender as relações entre educação, poder e sociedade. O que une esses autores, apesar de suas diferenças teóricas, é a convicção de que a educação autêntica é incompatível com qualquer forma de doutrinação ou controle externo. 

2.1 Paulo Freire: A Educação como Prática de Liberdade 

Nenhum pensador brasileiro sintetiza melhor a luta contra o aparelhamento do que Paulo Freire, patrono da educação brasileira. Em obras fundamentais como Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Autonomia, Freire estabelece uma distinção radical entre dois modelos educacionais: a educação bancária e a educação libertadora. 

Na concepção bancária, o conhecimento é um depósito que o professor faz nos alunos considerados recipientes vazios. Este modelo serve perfeitamente aos projetos de dominação: forma sujeitos passivos, acostumados a receber ordens e reproduzir discursos sem questionamento. É a pedagogia ideal para regimes autoritários como o de Putin, que precisam de soldados obedientes, não de cidadãos críticos. 

Em contraste, a educação libertadora freiriana propõe o diálogo como método, a problematização da realidade como ponto de partida e a formação da consciência crítica como objetivo. Freire insiste que "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção". Esta concepção é radicalmente antagônica ao aparelhamento: se a escola é espaço de criação e não de reprodução, ela se torna necessariamente um território de resistência a qualquer tentativa de controle externo. 

A ironia trágica é que Freire tem sido sistematicamente distorcido por críticos que o acusam exatamente daquilo que ele combateu. Em textos de viés conservador, encontramos a acusação de que sua pedagogia seria instrumento de "doutrinação marxista". Trata-se de uma leitura empobrecedora que ignora o cerne de seu pensamento: a defesa intransigente da autonomia do educando e do educador. Freire nunca defendeu que o professor impusesse sua visão de mundo, mas sim que criasse condições para que os estudantes desenvolvessem a própria. 

2.2 Vygotsky: A Construção Social do Conhecimento 

Lev Vygotsky, o psicólogo bielorrusso cuja obra revolucionou a compreensão do desenvolvimento cognitivo, oferece outra perspectiva fundamental para entender o aparelhamento. Para Vygotsky, o conhecimento é essencialmente social: aprendemos na interação com o outro, mediados pela linguagem e pela cultura. 

Esta visão tem implicações profundas para a crítica do aparelhamento. Se o conhecimento se constrói na interação social autêntica, qualquer tentativa de controlar artificialmente o que pode ser dito, discutido ou questionado na escola representa uma mutilação do processo educativo. Vygotsky mostra que é justamente no confronto de perspectivas, na negociação de significados, no diálogo entre diferentes pontos de vista que o pensamento se desenvolve. 

Quando o Estado russo impõe um "novo currículo" que determina como a guerra na Ucrânia deve ser ensinada, está atacando a própria possibilidade do conhecimento genuíno. Está substituindo a construção coletiva do saber pela imposição autoritária de uma verdade oficial. Vygotsky nos lembra que esta não é apenas uma violência política — é uma violência epistemológica, uma mutilação da capacidade de pensar. 

2.3 Wallon: A Afetividade como Dimensão do Educar 

Henri Wallon, outro gigante da psicologia da educação, acrescenta uma dimensão frequentemente negligenciada na crítica ao aparelhamento: a afetividade. Para Wallon, emoção e cognição são indissociáveis. Aprendemos com todo nosso ser, não apenas com nosso cérebro racional. 

Esta perspectiva ilumina um aspecto perturbador das imagens captadas por Talankin: as crianças de Karabash que inicialmente demonstravam estranheza diante das incursões militares em sua escola gradualmente se transformam. Ao final do documentário, são os olhares dos alunos que se desviam de Pasha, como se agora quisessem escapar de seu frame. O que Wallon nos ajuda a compreender é que esta transformação não é apenas cognitiva — é profundamente afetiva. A escola estava moldando não apenas o pensamento, mas os sentimentos, as emoções, os vínculos dessas crianças. 

Uma educação autêntica, para Wallon, não pode prescindir do acolhimento afetivo, da construção de vínculos de confiança, do respeito à integralidade do ser humano. O aparelhamento, ao contrário, produz sujeitos mutilados emocionalmente, incapazes de empatia genuína com o sofrimento alheio — condição ideal para enviar jovens para matar e morrer em guerras que não compreendem. 

2.4 Morin: A Necessidade do Pensamento Complexo 

O filósofo francês Edgar Morin dedicou sua vida a combater o que chamou de "pensamento simplificador" — a tendência a reduzir a complexidade do real a esquemas explicativos unidimensionais. Para Morin, a educação deve formar para a complexidade, para a capacidade de articular diferentes perspectivas, de tolerar a incerteza, de reconhecer a multidimensionalidade dos fenômenos humanos. 

O aparelhamento promovido por regimes autoritários é precisamente o oposto: é a imposição de um pensamento único, a redução da realidade a uma narrativa oficial, a eliminação de toda ambiguidade. Quando o professor de história da escola de Karabash — aquele que "vencera" o concurso de popularidade e ganhara um apartamento de luxo — discursa sobre a "libertação" da Ucrânia com fanática convicção, ele encarna o pensamento simplificador denunciado por Morin. 

Morin nos convoca a formar cidadãos capazes de resistir a esses simplismos, de articular diferentes fontes de informação, de suspeitar de narrativas totalizantes. Esta é uma tarefa eminentemente política, mas também profundamente ética e epistemológica. 

2.5 Malaguzzi: A Criança como Sujeito de Direitos 

Loris Malaguzzi, criador da abordagem educacional de Reggio Emília, revolucionou a educação infantil ao propor a imagem de uma "criança rica" — potente, competente, cheia de direitos e possibilidades. Em contraste com visões que tratam a infância como fase preparatória para a vida adulta, Malaguzzi afirma a criança como sujeito ativo no presente, construtora de sua própria cultura. 

Esta concepção é radicalmente antagônica ao aparelhamento. Quando o Estado russo transforma crianças em pequenos soldados, quando as faz desfilar com fuzis de mentira e ouvir discursos de ódio, está negando exatamente este princípio: está tratando a infância como instrumento, não como fim em si mesma. Está roubando das crianças o direito de serem crianças, de construírem suas próprias perguntas antes de receberem respostas prontas. 

Malaguzzi nos lembra que uma escola verdadeiramente democrática é aquela que escuta as crianças, que respeita seus tempos, que valoriza suas múltiplas linguagens. É o oposto da escola-soldado filmada por Talankin, onde as vozes infantis são silenciadas para que ecoem apenas os hinos oficiais. 

2.6 Rancière: A Igualdade das Inteligências 

O filósofo francês Jacques Rancière oferece uma das críticas mais radicais à pedagogia tradicional em seu livro O Mestre Ignorante. Para Rancière, a estrutura pedagógica convencional parte de um pressuposto inaceitável: a desigualdade das inteligências. O mestre é aquele que sabe, o aluno aquele que ignora. O ensino seria então o processo de reduzir esta distância. 

Rancière propõe uma inversão: devemos partir do princípio oposto, o da igualdade das inteligências. Todos são capazes de aprender por si mesmos, desde que motivados por sua própria vontade. O papel do mestre não é explicar (o que para Rancière é uma forma de embrutecimento), mas sim manter o aluno em seu próprio caminho de descoberta. 

Esta perspectiva ilumina o aparelhamento como violência fundamental contra a inteligência. Quando o Estado impõe uma narrativa única, está dizendo aos estudantes: "vocês são incapazes de pensar por si mesmos; precisam de nós para lhes dizer o que é verdade". É a negação mais completa da igualdade das inteligências. Rancière nos convoca a confiar na capacidade dos alunos de construírem seu próprio conhecimento — confiança que os regimes autoritários não podem permitir. 

2.7 Michael Apple: A Educação como Campo de Batalha 

O educador norte-americano Michael Apple é talvez quem tenha sistematizado de forma mais completa a análise das relações entre educação e poder. Em obras como Educação Crítica: Análise Internacional, Apple mostra que a escola é intrinsecamente um campo de batalha onde diferentes projetos de sociedade disputam hegemonia. 

Para Apple, o currículo nunca é neutro: ele expressa sempre os interesses de grupos sociais específicos, em detrimento de outros. A pergunta fundamental não é "o que ensinar?", mas "de quem é o conhecimento que estamos ensinando?". Esta perspectiva permite desmascarar o aparelhamento não apenas em suas formas mais explícitas (como na Rússia de Putin), mas também em suas manifestações mais sutis. 

No contexto brasileiro, a análise de Apple nos ajuda a compreender como diferentes grupos — oligarquias regionais, tecnocratas, setores empresariais — disputam o controle da escola para imprimir seus valores e interesses. A escola como "curral eleitoral" denunciada no Nordeste é exatamente isto: a captura da instituição educacional por interesses privados que nada têm a ver com a formação das novas gerações. 

2.8 Outras Vozes Críticas 

Poderíamos acrescentar muitos outros nomes a esta lista. Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, com sua teoria da reprodução, mostram como a escola contribui para perpetuar desigualdades sociais sob a aparência de neutralidade. Bernard Charlot insiste na centralidade da relação com o saber, na necessidade de compreender o sentido que os sujeitos atribuem ao aprendizado. No Brasil, Dermeval Saviani desenvolveu a pedagogia histórico-crítica como alternativa tanto ao tecnicismo quanto às pedagogias hegemônicas. 

O que todos compartilham é a recusa em aceitar a escola como espaço de reprodução acrítica da ordem existente. Todos apostam na possibilidade de uma educação que forme sujeitos autônomos, críticos, capazes de intervir na realidade para transformá-la. 

 

Parte III: O Aparelhamento à Brasileira — Oligarquias, Tecnocratas e Currais Eleitorais 

Se o documentário de Talankin nos mostra uma forma explícita de aparelhamento — a militarização das escolas sob um regime autoritário —, o contexto brasileiro apresenta variações complexas deste fenômeno. Aqui, o aparelhamento assume contornos mais sutis, mas não menos perversos, particularmente nas regiões onde velhas oligarquias políticas mantêm seu domínio. 

3.1 A Escola como Curral Eleitoral 

No Nordeste brasileiro, e particularmente no Ceará, a expressão "curral eleitoral" ainda ecoa com força nas comunidades rurais e periferias urbanas. A escola pública, muitas vezes o único equipamento estatal presente em localidades isoladas, historicamente tem sido utilizada como instrumento de barganha política. 

O mecanismo é perverso e recorrente: diretores de escola são indicados por indicação política, não por concurso ou critérios técnicos; merendas e materiais escolares são distribuídos seletivamente conforme a lealdade eleitoral das famílias; professores temporários são contratados e demitidos ao sabor das conveniências partidárias; o calendário escolar é manipulado para liberar alunos e professores para participarem de comícios e carreatas. 

Esta realidade nada tem a ver com a educação libertadora sonhada por Freire ou com a escola democrática imaginada por Apple. Trata-se da captura da instituição educacional por lógicas clientelistas que remontam ao coronelismo da Primeira República. A escola deixa de ser espaço de formação para tornar-se moeda de troca, instrumento de reprodução do poder oligárquico. 

3.2 A Face Tecnocrática do Aparelhamento 

Paralelamente ao clientelismo tradicional, emergiu nas últimas décadas uma forma mais sofisticada de aparelhamento: a tecnocracia educacional. Sob o discurso da "qualidade total", da "eficiência", dos "resultados mensuráveis", gestores públicos e consultores privados têm imposto às escolas uma lógica empresarial que, sob aparência de neutralidade técnica, também constitui forma de controle. 

Sistemas apostilados de ensino, avaliações padronizadas em larga escala, rankings pressionam professores a "ensinar para o teste" e reduzem o currículo àquilo que pode ser medido. O pensamento crítico, a arte, a filosofia, a reflexão sobre a realidade local são sacrificadas em nome da eficiência. Esta tecnocracia, frequentemente aliada a grandes grupos editoriais e fundações empresariais, constitui uma forma de aparelhamento tão perigosa quanto a explícita: ela sequestra a autonomia docente sob o manto da modernização. 

No Ceará, estado celebrado nacionalmente por seus avanços nos indicadores educacionais, esta tensão entre gestão eficiente e autonomia pedagógica permanece pouco discutida. Os números melhoraram, sem dúvida. Mas a que custo? Que tipo de formação estão recebendo as crianças cearenses? Estão sendo formadas para serem cidadãs críticas ou para ocuparem posições subalternas em uma economia que as explora? 

3.3 Corrupção e Desvio de Recursos 

Não se pode falar em aparelhamento sem mencionar a face mais obscura: a corrupção. Recursos destinados à merenda escolar que desaparecem em esquemas de superfaturamento; obras de escolas que nunca saem do papel ou ficam incompletas; programas federais que são capturados por prefeituras para beneficiar empresas de aliados políticos. 

Este desvio de recursos não é apenas crime contra o erário — é violência contra as crianças que deixam de ter escola digna, merenda de qualidade, materiais didáticos adequados. É a negação mais brutal do direito à educação. E ocorre em todos os níveis da federação, do município à União, com especial incidência em regiões onde o controle social é mais frágil e as oligarquias mais arraigadas. 

3.4 O Silenciamento de Professores Críticos 

Assim como Pasha Talankin foi vigiado e forçado ao exílio, professores brasileiros que ousam questionar o sistema enfrentam perseguições cotidianas. Não se trata, evidentemente, da mesma escala de violência estatal, mas a lógica é análoga: o professor crítico é isolado, desqualificado, transferido de escola, prejudicado em sua carga horária. 

Nas redes municipais e estaduais, é comum a prática de remover professores considerados "problemáticos" para escolas distantes ou de difícil acesso. Lideranças sindicais são perseguidas. Conteúdos considerados "polêmicos" são suprimidos de provas e materiais didáticos. A autonomia docente, garantida por lei, é cotidianamente solapada por práticas administrativas que premiam a obediência e punem a crítica. 

Este silenciamento é tanto mais perverso quanto mais sutil: não há decreto explícito proibindo determinados conteúdos, mas há uma "cultura do medo" que ensina aos professores o preço de se manifestarem. Como em Karabash, a escola vai se transformando em espaço de reprodução acrítica não por imposição direta, mas pela eliminação silenciosa de toda voz dissonante. 

3.5 O Papel da Mídia e dos Discursos Hegemônicos 

O aparelhamento da escola não ocorre no vácuo. Ele é sustentado por uma ecologia midiática que produz e reproduz determinados discursos sobre educação. No Brasil, assistimos nas últimas décadas a uma campanha sistemática de desqualificação da escola pública, dos professores e das teorias críticas. 

Movimentos como "Escola sem Partido", apesar de derrotados no campo jurídico, conseguiram disseminar a suspeita sobre educadores e criar um clima de vigilância ideológica nas escolas. Paulo Freire, como mencionado, foi transformado em bode expiatório de todos os males educacionais, numa leitura distorcida que ignora completamente sua obra. 

Esta guerra discursiva prepara o terreno para o aparelhamento: quando a população é convencida de que a escola está "doutrinando" seus filhos, ela passa a apoiar medidas de controle que, paradoxalmente, abrem espaço para formas mais perigosas de doutrinação — como a militarização das escolas ou a imposição de currículos fundamentalistas. 

 

Parte IV: Resistência e Esperança — Lições do Zé Ninguém e dos Pensadores Críticos 

4.1 O Ativismo Docente como Resistência Cotidiana 

A história de Pavel Talankin nos ensina que a resistência começa onde menos se espera: na sala de aula de uma escola esquecida nos montes Urais, com um professor que não se via como ativista político. Sua arma não era um fuzil, mas uma câmera — e a recusa em aceitar a mentira como rotina. 

Esta é a primeira lição: a resistência ao aparelhamento não exige heróis extraordinários, mas educadores comuns que recusam o silêncio. Cada professor que insiste em mostrar aos alunos diferentes versões de um fato histórico, que incentiva o debate sobre questões controversas, que acolhe a pergunta incômoda do aluno, que denuncia irregularidades na gestão escolar — cada um destes atos é um tijolo na construção de uma escola democrática. 

No Brasil, apesar de todas as dificuldades, milhares de professores realizam este trabalho silencioso de resistência cotidiana. Nas escolas do Ceará, do Nordeste, do país inteiro, há educadores que, inspirados por Freire, Vigotski, Wallon e tantos outros, constroem diariamente alternativas ao aparelhamento. 

4.2 A Organização Coletiva como Antídoto 

A solidão de Pasha em Karabash é um dos aspectos mais comoventes do documentário. Ele confidencia à câmera: "não há ninguém com quem eu possa compartilhar o que penso". Esta solidão do professor crítico em contextos hostis é uma realidade também no Brasil. 

O antídoto para esta solidão é a organização coletiva. Sindicatos, associações, grupos de estudo, redes de troca entre professores — estas instâncias de resistência coletiva são fundamentais para sustentar a luta contra o aparelhamento. Quando os educadores se organizam, deixam de ser "Zés Ninguéns" isolados para se tornarem sujeitos coletivos capazes de incidir sobre os rumos da educação. 

Os pensadores críticos nos ensinam que a transformação educacional não é obra de indivíduos isolados, mas de movimentos coletivos. Freire insiste na natureza dialógica, portanto social, do ato de conhecer. Vygotsky mostra que o desenvolvimento humano é essencialmente mediado pelo outro. Apple demonstra que a disputa pela escola é sempre uma disputa política que exige organização e alianças. 

4.3 A Formação Continuada como Ato Político 

Outra frente de resistência fundamental é a formação continuada de professores. Em contextos de aparelhamento, a formação docente tende a ser capturada pelas mesmas lógicas que se quer combater: cursos padronizados, "treinamentos" que mais parecem adestramento, imposição de metodologias prontas. 

A resistência exige que os professores retomem o controle de sua própria formação. Grupos de estudo autônomos, parcerias com universidades, participação em congressos e seminários, leitura crítica da bibliografia especializada — estas práticas permitem que os educadores mantenham vivo seu pensamento crítico e atualizem constantemente suas ferramentas de análise da realidade. 

A obra de autores como Piaget, Vygotsky e Wallon não é apenas acadêmica: é instrumento de luta. Conhecer a fundo as teorias do desenvolvimento humano, as epistemologias que fundamentam diferentes práticas pedagógicas, as análises críticas das políticas educacionais — este conhecimento é poder, no sentido mais literal: é o poder de compreender o que está em jogo na disputa pela escola e de intervir qualificadamente nessa disputa. 

4.4 O Controle Social da Educação 

A experiência brasileira recente tem mostrado a importância dos mecanismos de controle social na educação. Conselhos de Escola, Conselhos de Alimentação Escolar, Fóruns de Educação, Conferências Municipais e Estaduais — estas instâncias de participação popular são fundamentais para impedir que a escola seja capturada por interesses privados ou partidários. 

Quando a comunidade entra na escola — não como visitante ocasional, mas como sujeito coletivo que participa das decisões —, o aparelhamento se torna mais difícil. Pais que acompanham o currículo, que questionam a qualidade da merenda, que cobram transparência na gestão dos recursos, que denunciam práticas clientelistas, exercem um papel de fiscalização que nenhum órgão externo pode substituir. 

No Ceará e no Nordeste, onde o clientelismo tem raízes profundas, o fortalecimento destes mecanismos de controle social é tarefa urgente. Trata-se de devolver à comunidade o direito de decidir sobre a escola de seus filhos — um direito que historicamente lhe foi roubado pelas oligarquias locais. 

4.5 A Universidade como aliada 

As universidades públicas brasileiras, apesar de todos os ataques que sofreram nas últimas décadas, continuam sendo espaços fundamentais de produção de pensamento crítico sobre educação. A pesquisa acadêmica sobre políticas educacionais, currículo, formação docente, gestão escolar, oferece subsídios indispensáveis para a luta contra o aparelhamento. 

O desafio é construir pontes mais efetivas entre a universidade e a educação básica. Muitas vezes, o conhecimento produzido nas pós-graduações não chega às escolas, ou chega em linguagem inacessível. Programas de extensão, parcerias com redes municipais e estaduais, projetos de pesquisa colaborativa envolvendo professores da educação básica — estas iniciativas podem aproximar universidade e escola e fortalecer a resistência ao aparelhamento. 

O artigo acadêmico que analisa Paulo Freire e outros pensadores progressistas, publicado em revista especializada, é exemplo de como a reflexão teórica pode iluminar a prática concreta. Mas é preciso que este conhecimento circule para além dos muros acadêmicos e chegue às salas de aula onde a luta efetivamente acontece. 

 

Conclusão: Entre Karabash e o Sertão — A Luta Universal por uma Escola Livre 

Ao assistir "Um Zé Ninguém Contra Putin", o espectador brasileiro dificilmente deixará de estabelecer paralelos com sua própria realidade. As crianças de Karabash que aprendem a manejar fuzis em nome da pátria não estão tão distantes assim das crianças nordestinas que aprendem a repetir slogans eleitorais em nome de prefeitos e governadores. O professor de história que repete fanaticamente a narrativa oficial sobre a Ucrânia tem seus equivalentes nos tecnocratas que impõem currículos padronizados e nos políticos que distribuem cargos educacionais como moeda de troca. 

A diferença está no grau, não na natureza do fenômeno. Em ambos os casos, estamos diante da tentativa de transformar a escola — que deveria ser espaço de formação de sujeitos autônomos — em instrumento de reprodução de poder. Em ambos os casos, há educadores que resistem. 

Pavel Talankin é um herói porque, com sua câmera clandestina, nos lembrou de algo que os teóricos críticos vêm dizendo há décadas: a escola importa. O que acontece em suas salas de aula, em seus corredores, em seus pátios, não é indiferente aos rumos da sociedade. Quem controla a escola forma o futuro. Quem forma o futuro detém o poder. 

Os pensadores aqui reunidos — Freire, Vigotski, Wallon, Morin, MalaguzziRancière, Apple e tantos outros — dedicaram suas vidas a pensar uma escola diferente: uma escola que forma para a liberdade, não para a obediência; que desenvolve o pensamento crítico, não a repetição automática; que respeita a criança como sujeito de direitos, não como futuro soldado ou eleitor cativo. 

No Brasil, a luta por esta escola passa por enfrentar as oligarquias que tratam a educação como propriedade privada, os tecnocratas que a reduzem a números e rankings, os corruptos que desviam seus recursos, os sectários que querem impor suas verdades absolutas. Passa por fortalecer a organização dos educadores, o controle social das comunidades, a produção de conhecimento crítico nas universidades. 

A história de um "Zé Ninguém" contra Putin nos ensina que a resistência é possível mesmo nas circunstâncias mais adversas. Nos ensina que um homem com uma câmera pode incomodar um império. Nos ensina, sobretudo, que a luta pela educação é sempre uma luta pela humanidade — pela recusa em aceitar que crianças sejam transformadas em coisas, em instrumentos, em números. 

Que as imagens de Karabash nos inspirem a olhar com novos olhos para nossas próprias escolas. Que nos lembrem do que está em jogo quando aceitamos passivamente que a educação seja aparelhada por qualquer projeto de poder. Que nos convoquem, cada um em seu lugar, a pegar nossa própria câmera — metafórica ou real — e registrar, denunciar, resistir. 

Porque, como nos ensinou Paulo Freire, a educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo. E enquanto houver um educador disposto a lutar por esta verdade, haverá esperança. 

 

Referências 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.  

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.  

LA TAILLE, Yves de; OLIVEIRA, Marta Kohl de; DANTAS, HeloysaPiaget, Vigotski, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 2019.  

MOREIRA, Elizeu Vieira. Algumas reflexões críticas sobre o campo da educação escolar a partir do pensamento de Paulo Freire e outros pensadores progressistas. Revista Educação, Pesquisa e Inclusão, Boa Vista, v. 1, n. 1, 2020.  

APPLE, Michael; AU, Wayne; GANDIN, Luís Armando (Orgs.). Educação Crítica: Análise Internacional. Porto Alegre: Artmed, 2016.  

TALANKIN, Pavel; BORENSTEIN, David. Um Zé Ninguém Contra Putin (Mr. Nobody Against Putin). Documentário. Dinamarca/República Tcheca/Alemanha, 2025. 

 

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