Na obra The Rise and Fall of the Italian Communist Party: A Transnational History, o historiador Silvio Pons oferece uma reinterpretação abrangente de uma das maiores e mais influentes forças políticas da Europa Ocidental no século XX. Publicado na série "Stanford-Hoover on Authoritarianism", o livro se distancia de narrativas puramente nacionais ou de visões centradas exclusivamente na relação com a União Soviética. Em vez disso, Pons propõe analisar o Partido Comunista Italiano (PCI) como um "estudo de caso na história global do comunismo", examinando suas práticas, lideranças e redes de contato em uma variedade de "contextos relacionais e temporais". A tese central do livro é que a ascensão e a queda do PCI só podem ser plenamente compreendidas ao se observar a constante, e muitas vezes contraditória, tentativa do partido de "forjar um programa partidário intelectualmente defensável que combinasse as demandas internacionais de Moscou com as tentativas dos italianos de desenvolver suas próprias políticas externas e domésticas, de acordo com suas circunstâncias políticas".
Genealogias: A Fundação entre Revolução e Estabilização (1917-1941)
A primeira parte do livro, "Genealogies: Internationalism and Cosmopolitanism, 1917-1941", examina os anos de formação do partido sob a liderança de Antônio Gramsci. Pons analisa como o partido nasceu da fratura causada pela Revolução Russa e se desenvolveu sob o peso do stalinismo. O conceito gramsciano de hegemonia é apresentado não apenas como uma teoria filosófica, mas como uma tentativa de criar uma estratégia política que pudesse enraizar o internacionalismo proletário nas específicas tradições culturais e históricas italianas. O autor explora a tensão entre a "cosmopolitismo" dos intelectuais comunistas e a necessidade de construir um partido de massas enraizado na nação, tudo isso enquanto navegava pelas águas turbulentas da "stalinização" e da luta antifascista que moldaram a identidade e a estrutura do partido nas décadas de 1920 e 1930.
Influências: A "Nova Democracia Progressista" na Guerra Fria (1943-1964)
Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o retorno do líder Palmiro Togliatti da União Soviética, inicia-se a fase analisada na parte "Influences: Internationalism and the Nation, 1943-1964". É neste período que o PCI se transforma em um partido de massas, um ator central na vida política italiana. Pons analisa a fundação da "nova via" de Togliatti para o socialismo, que culminaria na "via italiana ao socialismo" e na política da "democracia progressista". O livro detalha como a Guerra Fria impôs limites severos a esta estratégia, confinando o PCI a um papel de oposição perpétua e excluindo-o do governo, apesar de seu enorme apoio popular.
É particularmente significativa a análise do conceito de "policentrismo", introduzido por Togliatti após a morte de Stalin e a desestalinização iniciada por Khrushchev. Pons argumenta que o policentrismo foi uma tentativa de redefinir o lugar do PCI no movimento comunista internacional, reconhecendo a existência de diferentes centros de gravidade e caminhos para o socialismo. Esta visão estava intrinsecamente ligada à "descolonização", um fenômeno global que o PCI observava atentamente, tentando forjar laços com os novos movimentos de libertação nacional na Ásia e na África como parte de uma estratégia mais ampla de superação do colonialismo e da hegemonia americana.
Transformações: O Socialismo Humanista e os Desafios Globais (1964-1984)
A terceira parte, "Transformations: The Twilight of Internationalism, 1964-1984", cobre o período de liderança de Enrico Berlinguer e as convulsões sociais e culturais do final dos anos 1960 e 1970. Pons examina como o partido reagiu ao "Longo 1968", um movimento que, ao mesmo tempo, desafiava a autoridade tradicional (incluindo a do partido) e empurrava o PCI para uma reflexão mais profunda sobre temas como participação, democracia de base e direitos civis. O autor utiliza o termo "socialismo humanista" para descrever a tentativa de Berlinguer de distanciar o PCI do modelo soviético, especialmente após a invasão da Tchecoslováquia em 1968, e de afirmar valores éticos e democráticos universais como centrais para a identidade comunista.
Esta fase é também marcada pela ascensão de novas temáticas: o "europeísmo" e o "globalismo". O livro mostra como o PCI de Berlinguer passou a ver a Comunidade Europeia não mais como um mero instrumento do capitalismo, mas como um possível palco para a construção de uma alternativa ao bipolarismo rígido da Guerra Fria. Simultaneamente, o partido desenvolveu uma visão mais matizada do Terceiro Mundo, buscando um "novo mundo" que não se alinhava automaticamente nem com Washington nem com Moscou. Este foi o contexto do "compromisso histórico" e da busca por uma "terceira via" ou "via europeia ao socialismo", que representou o auge da influência cultural e política do PCI, mas também expôs as contradições de sua posição internacional.
Epílogo: O Sonho de uma Nova Ordem Mundial (1985-1991)
O epílogo, "The Dream of a New World Order", cobre os anos finais que levaram à dissolução do PCI. Pons analisa como a ascensão de Mikhail Gorbachev e as reformas na União Soviética inicialmente reacenderam as esperanças em um "socialismo de rosto humano" que o PCI há muito defendia. No entanto, o colapso dos regimes do Leste Europeu em 1989 e a subsequente desintegração da URSS minaram os próprios fundamentos da identidade política do partido. Sem o contraponto soviético e num mundo que rapidamente se globalizava sob a égide do neoliberalismo, o sonho de uma nova ordem mundial socialista e pacífica desmoronou. A resposta foi a dolorosa "volta" (virada) de 1989-1991, que levou à dissolução do PCI e à fundação do Partido Democrático da Esquerda (PDS), marcando o fim definitivo da experiência do maior partido comunista do Ocidente.
Em suma, a obra de Silvio Pons é uma contribuição fundamental que recoloca a história do PCI no centro dos grandes processos históricos do século XX: a Revolução Russa e o stalinismo, a Guerra Fria, a descolonização, o 1968 e o fim da URSS. Ao fazer isso, ele não apenas explica as razões internas e externas para a ascensão e queda do partido, mas também ilumina as complexas relações entre o comunismo, a nação e os processos de globalização que moldaram o mundo contemporâneo.
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