SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 12 de março de 2026

The Politics of Time: Gaining Control in the Age of Uncertainty.

 


A Proposta Central: Reivindicar o Controle sobre o Tempo 

O ponto de partida de Standing é uma constatação simples e profunda: o tempo é o nosso bem mais precioso, mas seu uso tem sido historicamente definido e controlado pelos poderosos. Em uma sociedade que atravessa o que ele denomina "era da incerteza crônica", alguns experimentam cada vez mais "liberdade de tempo" (time freedom), enquanto muitos outros — particularmente os vulneráveis e o precariado — têm cada vez mais seu tempo roubado. 

O livro propõe uma "nova política progressista do tempo" que vá além das meras regulações sobre horas de trabalho e enfrente o avanço do estado panóptico. Trata-se de um manifesto por uma vida menos dominada pela labuta e mais rica em atividades significativas. 

A Arquitetura Conceitual: As Categorias Gregas de Tempo 

Para construir seu argumento, Standing resgata a sofisticada compreensão grega antiga sobre o tempo, que dividia as atividades humanas em cinco categorias distintas: 

Categoria Grega 

Descrição 

Labour (Labuta) 

Atividades onerosas realizadas para a subsistência, consideradas deformadoras do corpo e da mente, associadas à pobreza (penia) e à dor (ponos). Era realizada por escravos, artesãos e estrangeiros. 

Work (Trabalho) 

Atividades significativas realizadas no âmbito doméstico ou comunitário: cuidado de familiares, estudo, educação, treinamento militar, atividades criativas (poesia, música, teatro) e participação em rituais religiosos. 

Recreation (Recreação) 

Atividades de entretenimento e descanso, como exercícios físicos e diversão. 

Schole (Lazer/Ócio) 

O conceito mais importante para Standing. Não era passividade, mas sim participação ativa na vida pública, educação continuada, discussão política e contemplação. Era a base para o exercício da cidadania. 

Aergia (Ócio/Contemplação) 

Considerada por Aristóteles um uso vital do tempo, englobando a contemplação e a reflexão. Capturado no aforismo de Catão: "Nunca está um homem mais ativo do que quando não faz nada". 

Standing lamenta que essa riqueza conceitual tenha sido perdida. Hoje, reduzimos tudo a uma falsa dicotomia entre "trabalho" (emprego remunerado) e "lazer" (tempo fora do trabalho), ignorando todo o trabalho não remunerado (cuidado, trabalho comunitário) e, mais importante, o potencial da atividade cívica e da contemplação. 

Os Três Regimes de Tempo na História 

Armado com esse arcabouço conceitual, Standing traça a evolução histórica do controle do tempo através de três regimes sobrepostos: 

1. O Regime de Tempo Agrário: 
Durou até a Idade Média e era caracterizado pelo ritmo das estações e do clima. A vida social era organizada em torno dos "comuns" (commons) — terras e recursos compartilhados. Nessa era, as pessoas lutavam para buscar sua subsistência nos comuns e evitar a labuta para o senhor feudal. A Carta da Floresta (1217), selada ao lado da Magna Carta, legitimava os direitos dos comuns contra o cercamento ilegal das terras pelo monarca. 

2. O Regime de Tempo Industrial: 
Com a ascensão do capitalismo, a classe capitalista precisava forçar mais pessoas a trabalhar para empregadores e proprietários de terras. Isso envolveu o cercamento dos comuns (privatização de terras, água e outros recursos) e a coerção direta, culminando nos Atos de Vagabundagem (Vagabondage Acts) de meados do século XVI, que puniam com a morte os pobres encontrados sem trabalho. No final dos anos 1700, com Richard Arkwright e a fábrica têxtil de Cromford, introduziu-se a "padronização do trabalho baseada em relógios". O tempo tornou-se uma mercadoria: em troca de dinheiro, os trabalhadores entregavam o controle de seu tempo. 

3. O Regime de Tempo Terciário: 
É o regime atual, característico das economias baseadas em serviços. Nesta era, as fronteiras entre todos os tipos de atividade começaram a se confundir. Com a onipresença da conectividade à internet, nenhum momento do dia é verdadeiramente nosso, e somos bombardeados por demandas a qualquer instante. Surgiu o trabalho mediado por aplicativos, frequentemente caracterizado por contratos de zero hora, ausência de espaço fixo de trabalho e falta de garantias. 

O Grande Erro Histórico: A Adoção do "Laborismo" pela Esquerda 

Um dos argumentos mais originais e provocativos de Standing é a identificação do que ele chama de "um dos grandes erros históricos da modernidade": a adoção, pelos movimentos de trabalhadores, da ideologia do "laborismo" (labourism) — a crença de que o trabalho assalariado (labour) é uma forma adequada e desejável de ganhar a vida. 

Standing argumenta que, historicamente, as pessoas não viam a labuta com bons olhos. Prover para si mesmo, cuidar dos próprios assuntos e vender a própria força de trabalho o mínimo possível era o ideal. A labuta era vista como servidão. No entanto, campanhas lideradas por empregadores ao longo de séculos conseguiram definir a labuta como virtuosa. O problema, para Standing, é que os próprios movimentos operários adotaram essa visão, defendendo a "dignidade do trabalho" e elevando os empregos a uma posição sacrossanta. Com isso, o trabalho não remunerado desapareceu do debate público, as políticas governamentais passaram a tratar o pleno emprego como um bem social máximo, e a maioria dos trabalhadores perdeu o controle sobre seu próprio tempo. 

As Seis Classes na Era Terciária 

A partir da análise do regime de tempo terciário, Standing identifica uma estrutura de classes em seis níveis: 

  1. Classe Rentista (Rentier): Bilionários globais que trabalham, mas não labutam. Sua renda provém majoritariamente de ativos patrimoniais. 

  1. Elite: CEOs e presidentes de corporações. Realizam alguma labuta, mas sua renda combina salários com rendimentos de ativos. 

  1. Proficianos (Proficians): Profissionais autônomos (consultores, arquitetos) que labutam intensamente para auferir renda, mas mantêm independência sobre sua atividade. 

  1. Salariados (Salariat): Empregados do Estado ou de grandes corporações com salários regulares e previsíveis e segurança no emprego. 

  1. Proletariado: Trabalhadores estáveis, mas sobrecarregados, cujo número está em declínio. 

  1. Precariado: A classe em rápido crescimento que depende quase inteiramente da labuta e do trabalho para obter renda. A instabilidade do emprego é uma ameaça constante. Estão imersos apenas na labuta, sem tempo para cuidado, educação ou recreação, e são efetivamente incapazes de exercer a cidadania. 

A Solução: A Emancipação do Tempo 

Na parte final do livro, Standing apresenta sua visão para o futuro. Em um exercício imaginativo, ele projeta-se da perspectiva de uma década de 2030, após um governo de aliança progressista ter implementado uma série de políticas para melhorar a vida das pessoas. O cerne da proposta é remover os empregos de seu pedestal ideológico e reduzir o tempo gasto em labuta. 

Os pilares dessa nova política de tempo incluem: 

  • Renda Básica Universal (UBI): Standing, um dos fundadores da Basic Income Earth Network, defende a UBI como mecanismo para conceder independência financeira e controle sobre o tempo, remunerando o trabalho de cuidado e permitindo que as pessoas recusem más condições de trabalho. 

  • Financiamento via taxação ecológica: Taxar atividades que poluem os "comuns da humanidade" (ar, terra, mar) e todas as formas de expropriação dos comuns (físicos, financeiros e propriedade intelectual) poderia gerar centenas de bilhões para financiar um "dividendo comum". 

  • Revitalização dos comuns (commoning): Incentivar atividades compartilhadas e colaborativas para o bem comum, resgatando a noção de "afluência pública". 

  • Direitos de tempo: Políticas que garantam aos cidadãos maior controle sobre suas horas, protegendo-os das demandas constantes do capitalismo terciário. 

 

📝 Citações Relevantes da Obra 

A riqueza do livro pode ser capturada nas palavras do próprio Standing e nos comentários de outros intelectuais: 

"To linger over a drink, to lie in bed next to one's loveto strum a guitar or tinkle on the keyboard, to read or even scribble lines of poetryto kick a ball a thousand times with one's son or daughter – each of us has a long list of activities with which we would like to fill the unforgiving minutes." 
— Guy Standing, sobre o valor intrínseco do tempo bem vivido  

"Most people did not want or like labour. It was servitude." 
— Guy Standing, sobre a percepção histórica da labuta  

"Guy Standing's books have, over the yearspieced together a necessary political and intellectual agenda for defending commons that are still standing, for re-commoning realms that privatisation has wrecked, for liberating workers from the morality of pious drudgery andmost importantly, for introducing a progressive version of basic income for all. His Politics of Time is a splendid and timely addition to this body of important work." 
— Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia  

"Guy Standing's prose is delightfully accessible to the lay reader... cogent and very readable... Standing's daring emancipatory agenda challenges our prevailing 'jobs fetish' as anything but progressive." 
— Niamh Jiménez, The Irish Times  

"Why should 'industrial time,' or labourismdominate our lives, sowing stress, alienationand mental illnesswhen we could live richer, more satisfying and integrated lives as commoners? Guy Standing has performed a great service in writing this political history of our experience of time." 
— David Bollier, ativista e autor  

"With his trademark panache, Guy Standing presents us with a whistlestop tour of time that is both enlighteningand in its current implicationsfrighteninguntil the final chapter!" 
— Danny Dorling, geógrafo social  

 

⭐ Análise Crítica da Obra 

Pontos Fortes e Contribuições Inegáveis 

1. Originalidade e Reenquadramento do Debate: 
Standing oferece uma contribuição original ao reenquadrar a questão da desigualdade não apenas em termos de renda ou riqueza, mas como desigualdade de tempo. Ao resgatar as categorias gregas e aplicá-las à análise contemporânea, ele fornece um vocabulário novo e poderoso para entender o mal-estar da modernidade. A distinção entre labour e work, e a reabilitação da schole, são ferramentas conceituais valiosas. 

2. Acessibilidade e Clareza: 
Diversos críticos destacam a prosa acessível de Standing, que torna ideias complexas compreensíveis para o leitor leigo. O livro é descrito como "cogente" e "muito legível", equilibrando profundidade acadêmica com clareza expositiva. 

3. Síntese Histórica Ampla: 
A capacidade de Standing de sintetizar dois milênios de história em uma narrativa coerente sobre regimes de tempo é notável. A conexão entre o cercamento dos comuns na Inglaterra medieval, a disciplina fabril do século XIX e a precarização digital do século XXI é traçada de forma convincente. 

4. Relevância Política Imediata: 
O livro não é apenas uma análise acadêmica, mas um manifesto político com propostas concretas (UBI, taxação ecológica, fortalecimento dos comuns). A ex-parlamentar Caroline Lucas o descreve como um "apelo à ação" que culmina em um "manifesto prático para um governo de aliança progressista". 

5. Conexão com a Crise de Saúde Mental e Democracia: 
Standing estabelece conexões importantes entre a perda de controle sobre o tempo e o aumento das doenças mentais, bem como o declínio do engajamento cívico. A perda da schole — tempo para debate e participação política — estaria diretamente ligada à ascensão do "charlatanismo" político e à queda na participação eleitoral. 

Limitações e Pontos de Debate 

1. O Romantismo em Relação ao Passado: 
A principal crítica que pode ser dirigida à obra é um certo romantismo em relação às eras pré-capitalistas. Ao descrever o regime agrário, Standing enfatiza a luta pelos comuns e a autonomia relativa, mas subestima a dureza material da vida pré-industrial: fome, doença, ausência de direitos e hierarquias feudais opressivas. A sociedade grega que lhe serve de modelo era escravista e profundamente patriarcal, algo que ele reconhece brevemente, mas que pode ser subestimado no entusiasmo por suas categorias. 

2. Viabilidade Econômica das Propostas: 
Embora a Renda Básica Universal e a taxação ecológica sejam propostas atraentes, críticos podem questionar sua viabilidade política e econômica em escala nacional, especialmente em um contexto de globalização e competição fiscal entre países. Standing oferece estimativas (como o levy de £100 por tonelada de carbono no Reino Unido gerando um rebate de £32 por semana), mas a transição para um sistema que financie integralmente uma UBI digna desse nome permanece um desafio gigantesco. 

3. Otimismo sobre o Uso do Tempo Livre: 
Uma resenha levanta uma questão pertinente: é um salto supor que as pessoas usariam seu tempo livre adicional de forma mais sábia (engajamento cívico, educação, contemplação) em vez de simplesmente consumir mais entretenimento passivo. Standing parece operar com uma certa fé na "bondade natural" da atividade humana desalienada, o que pode ser ingênuo diante do poder da indústria cultural e do consumo conspícuo. 

4. Exagero na Caracterização da Crise Atual: 
Um crítico aponta que Standing "se deixa levar" ao sugerir que a sociedade contemporânea enfrenta uma encruzilhada similar à dos anos 1930, projetando uma "queda global" que não é corroborada pelos dados. Embora a poli crise seja real, a analogia com a Grande Depressão e a ascensão do fascismo pode ser vista como uma hipérbole retórica. 

5. Foco no Ocidente Desenvolvido: 
A análise de Standing concentra-se quase exclusivamente nas economias ocidentais desenvolvidas (Reino Unido, Europa, EUA). A aplicabilidade de suas categorias e propostas para o Sul Global — onde as relações de trabalho são ainda mais heterogêneas e a informalidade é dominante — permanece uma questão em aberto. 

 

💡 Considerações Finais 

The Politics of Time é uma obra corajosa, erudita e profundamente humanista. Guy Standing consegue o raro feito de unir análise econômica rigorosa, história de longa duração e engajamento político em um texto acessível e inspirador. Sua principal contribuição é nos fazer perceber que a luta por justiça social é também, e talvez fundamentalmente, uma luta pela posse do nosso próprio tempo. 

Ao diagnosticar como o capitalismo terciário e a ideologia do "laborismo" nos roubaram a capacidade de decidir como usar nossas horas, Standing oferece não apenas uma crítica, mas um horizonte de possibilidades. Seu apelo por uma política de tempo que liberte a schole, valorize o trabalho de cuidado e proteja os comuns é, nas palavras de Caroline Lucas, "leitura obrigatória para qualquer pessoa preocupada em construir um futuro melhor". O livro nos deixa com uma questão inescapável: se o tempo é a matéria-prima da vida, quem deve controlá-la? 

 

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