A reportagem publicada hoje pela Folha de S.Paulo traz um dado que deveria provocar reflexão mais profunda do que a mera curiosidade estatística.
Segundo estudo econométrico baseado em registros administrativos brasileiros, a probabilidade de um homem cometer crime aumenta cerca de 18% nos dois anos seguintes ao nascimento do primeiro filho.
A comparação internacional torna o quadro ainda mais inquietante. Em países como os Estados Unidos e a Noruega, a literatura empírica indica o efeito oposto: a paternidade costuma reduzir a propensão ao crime, funcionando como fator de amadurecimento e estabilização social.
A diferença não está na natureza humana. Está nas condições estruturais em que a vida adulta se desenrola.
O economista Gary Becker, laureado com o Nobel, demonstrou que o crime responde a incentivos e restrições econômicas. Quando oportunidades lícitas são abundantes, a vida familiar reforça o vínculo do indivíduo com a ordem social. Quando são escassas, choques econômicos — como a chegada de um filho — podem produzir o efeito inverso.
É nesse ponto que o dado brasileiro se torna trágico.
Para muitos jovens, a paternidade não inaugura apenas uma nova etapa da vida. Inaugura uma pressão econômica imediata em um mercado de trabalho precário, sem poupança, sem rede de proteção e com mobilidade social limitada.
O que em sociedades mais estruturadas simboliza responsabilidade e estabilidade pode, aqui, transformar-se em um choque que empurra indivíduos vulneráveis para a margem da legalidade.
Quando o nascimento de um filho — talvez o momento mais luminoso da vida — passa a aparecer nas estatísticas como fator de risco criminal, a pergunta que se impõe não é apenas sobre segurança pública.
É sobre o tipo de sociedade que estamos construindo.
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