Lembro-me do dia em que a professora Rita, minha mãe, pediu que escrevêssemos sobre nossa origem e o mundo. Enquanto muitos buscavam respostas nos mitos antigos ou nos dogmas sagrados, meu amigo Michel entregou uma redação que era pura reação química: explosiva, instável e reveladora.
Ele escreveu algo como: "E Deus criou o mundo! No primeiro dia, fez a Coca-Cola — talvez porque já previsse a necessidade de cafeína para sustentar o capitalismo. No segundo, o computador — a extensão siliconada do nosso cérebro. No terceiro, o Big Mac, sem picles, que ficou engarrafado no trânsito até o quarto dia, quando algo foi roubado ou sequestrado — talvez a nossa alma. No quinto, permitiu que os homens criassem religiões e guerras — a mesma equação, resultados opostos. No sexto, fez o Estado. E no sétimo, em vez de descansar, globalizou o capital, transformando o tempo em mercadoria. E, num oitavo dia, criou Freud para justificar as malvadezas da humanidade."
Michel não falava de um Deus celeste, mas do Deus-Homem, aquele que, na ânsia de criar, recriou o mundo à sua imagem e semelhança: imperfeito, desigual, fascinante.
Mas eu, que vejo o mundo pelas lentes das ciências exatas e naturais, precisei ir além. Para mim, a origem não está num verbo divino, mas numa explosão primordial — uma singularidade que expandiu matéria, energia e tempo. Somos poeira de estrelas, carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio organizados em carbono, proteínas e sonhos. Somos uma equação complexa demais para ser resolvida, mas simples demais para ser compreendida.
A biologia me ensinou que a vida é resistência: homeostase, adaptação, evolução. Mas a sociedade insiste em criar ambientes hostis, onde muitos não conseguem manter o equilíbrio. Somos células de um mesmo corpo social, mas agimos como anticorpos uns contra os outros. A química mostra que toda reação exige reagentes equilibrados; no mundo atual, o desequilíbrio é a regra — e os produtos dessa reação são desigualdade, violência e indiferença.
A física me revelou que o tempo é relativo, mas a juventude vive numa pressa absurda: queremos respostas antes mesmo de formular as perguntas. Somos uma geração que herdou um mundo em entropia crescente, onde as utopias foram diluídas em algoritmos e as estrelas perderam o brilho para os holofotes das telas.
Mas ainda há tempo para recalcular a rota. Precisamos unir, como numa grande equação, os valores humanos e divinos — a política e a fé, a ciência e a poesia. Precisamos repintar os quadros, como meu pai fazia: Delacroix e Michelangelo num só traço, a rebeldia e a transcendência num só gesto.
A juventude precisa construir suas próprias certezas, não para encerrar perguntas, mas para transformá-las em potência. Para que as rosas floresçam — não como metáforas vazias, mas como organismos vivos que exigem solo fértil, água limpa e luz. Para que Isaac viva — e seu viver não seja à custa de outros viveres.
Na escola, aprendi que o outro não é um corpo estranho a ser eliminado pelo sistema imunológico do ego. O outro é um sistema complexo, com sua própria trajetória, sua própria química, sua própria poesia. Não posso reduzi-lo a instrumento do meu mundo. Afinal, a vida é finita — e finito é o número de dias que temos para decifrar, juntos, essa grande interrogação chamada existência.
Que a nossa geração seja a fórmula que equilibre a equação. Que a ciência nos dê precisão, mas a poesia nos dê alma. Que a física nos mostre o movimento, mas a ética nos mostre a direção.
Porque, no fim, o mundo não é apenas matéria e energia. É também sentido. E sentido a gente não calcula — a gente constrói, junto.
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