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quarta-feira, 18 de março de 2026

DESAFIO 3: Economia Ecológica e os Rios vivos!



Resumo Detalhado de "Is a River Alive?" 

Publicado em maio de 2025 pela W.W. Norton, Is a River Alive? é a mais recente obra do aclamado escritor britânico Robert Macfarlane, conhecido por livros como Underland e The Old Ways . A obra rapidamente se tornou um best-seller número 1 do Sunday Times e foi finalista do Wainwright Prize for Conservation Writing 2025. O livro é uma jornada profundamente pessoal e política que busca responder a uma pergunta aparentemente simples, mas de implicações transformadoras: os rios estão vivos? 

A Tese Central: Repensando os Rios como Seres Vivos 

No coração do livro está a ideia de que os rios não são meros recursos hídricos para uso humano, mas seres vivos — com existência, morte e, crucialmente, direitos. Macfarlane argumenta que essa mudança de perspectiva é uma necessidade urgente diante da crise ecológica. Ele observa: "Precisamos de um novo pensamento: nossos rios se tornaram primeiro intragáveis, depois impossíveis de nadar, depois intocáveis. Como chegamos a isso — e para onde vamos a partir daqui?". 

O autor critica a linguagem que usamos para descrever a natureza, que reduz seres complexos à condição de objetos. "Palavras criam mundos", escreve ele. "Em inglês, nós 'mitificamos' rios, árvores, montanhas, oceanos, pássaros e animais: um modo de endereçamento que os reduz à condição de coisas". Para Macfarlane, adotar uma "gramática de animação" — referir-se aos rios como "quem" (who) em vez de "o quê" (that/which) — é um passo fundamental para reconhecer sua subjetividade e agência. 

Estrutura e Jornadas: A Forma da Água 

O livro é estruturado como um ciclo da água, começando e terminando em uma nascente perto da casa do autor, em Cambridge, e fluindo por três grandes viagens de campo que realizou ao longo de cinco anos de pesquisa: 

1. Ecuador: A Floresta Nublada de Los Cedros 
Macfarlane viaja para a floresta nublada de Los Cedros, no Equador, lar das cabeceiras do Río Los Cedros. Acompanhado pela micologista Giuliana, ele explora um ecossistema de riqueza incomparável, onde identifica não um, mas três rios: o visível, o "rio fúngico" subterrâneo (redes de micorrizas) e o "rio celeste" de vapor d'água nas correntes atmosféricas. A região é ameaçada pela mineração de ouro, mas também é um símbolo de esperança, pois o Equador foi o primeiro país do mundo a legislar sobre os Direitos da Natureza em sua constituição de 2008. 

2. Índia: Os Canais Feridos de Chennai 
A segunda jornada leva o autor à cidade costeira de Chennai, no sul da Índia, onde encontra rios e canais "tão próximos da morte quanto qualquer coisa que já vi na vida", como o Rio Adyar, fétido e sufocado por esgoto. Acompanhado pelo jovem naturalista e ativista Yuvan Aves, Macfarlane testemunha a luta desesperada para salvar corpos d'água como o Ennore Creek, que foi literalmente apagado dos mapas oficiais do governo para viabilizar a industrialização — um ato que ele chama de "cartografia do aniquilamento". 

3. Canadá: A Corrida Selvagem do Mutehekau Shipu 
A terceira e mais visceral jornada é uma expedição de 100 milhas (cerca de 160 km) de caiaque e trilha pelo rio Mutehekau Shipu (também conhecido como Rio Magpie), no território Innu de Nitassinan, no nordeste do Quebec. Guiado pela sabedoria da poeta e ativista Innu, Rita Mestokosho — que o aconselha: "No rio, seja o rio" — Macfarlane se entrega à correnteza. O rio é ameaçado por projetos hidrelétricos, mas tornou-se o primeiro no Canadá a ser declarado "pessoa jurídica" e "entidade viva" em 2021. 

Entremeando essas três narrativas, Macfarlane tece a história do pequeno rio de nascente de giz perto de sua casa, um fio d'água frágil que ele visita há mais de 15 anos e que serve como seu "guardião do tempo" e "guardião da memória". 

Conexão com o Movimento dos Direitos da Natureza 

O livro é uma introdução literária ao movimento dos Direitos da Natureza, que busca reconhecer legalmente rios, florestas e ecossistemas como sujeitos de direito. Macfarlane documenta casos emblemáticos: 

  • A lei de 2017 na Nova Zelândia que reconheceu o Rio Whanganui como uma "entidade espiritual e física". 

  • A decisão de tribunais indianos no mesmo ano que declarou os rios Ganges e Yamuna como "entidades vivas" (embora a decisão tenha enfrentado desafios). 

  • A constituição equatoriana de 2008 e a declaração de 2021 no Quebec. 

No entanto, o autor mantém uma perspectiva equilibrada, questionando se a linguagem dos "direitos" é compatível com a natureza indomável de um rio. Ele escreve sobre essa "incomensurabilidade fundamental entre o discurso rígido de 'direitos' e este ser de mercúrio correndo a poucos metros de mim". 

Citações Notáveis 

A prosa de Macfarlane é amplamente elogiada por sua beleza poética e precisão. 

  • Sobre a crise dos rios: 

"Precisamos de um novo pensamento: nossos rios se tornaram primeiro intragáveis, depois impossíveis de nadar, depois intocáveis. Como chegamos a isso — e para onde vamos a partir daqui?"  

  • Sobre a linguagem e a percepção: 

"Palavras criam mundos. Em inglês, nós 'tipificamos' rios, árvores, montanhas, oceanos, pássaros e animais: um modo de endereçamento que os reduz à condição de coisas."  

  • Sobre a agência do rio (após a experiência no Canadá): 

"Dias na água produziram em mim o sentimento intensificado de alguma forma crescer junto com o rio: não pensar com ele, mas ser pensado por ele."  

  • Sobre a memória e a perda (em Chennai): 

"Vim a Chennai em busca de fantasmas, monstros e anjos. Os fantasmas são aqueles dos rios que tiveram que ser mortos para que esta cidade pudesse viver."  

  • Sobre a definição de vida de um rio (pelo olhar de uma criança): 

Ao perguntar ao filho Will sobre o título do livro, a resposta imediata foi: "Duh, pai... então vai ser um livro curto, porque a resposta é sim!"  

  • Sobre os direitos dos rios (citando uma ativista indiana): 

Ao ser perguntada sobre quais direitos o rio Indus deveria ter, uma jovem ladakhi respondeu: "O rio tem o direito de cantar!"  

  • Sobre a descrição da natureza: 

"Andorinhas-do-mar passam por nós como tesouras, tudo em pontas de faca e dobras de origami."  
Vagalumes "riscam o escuro como balas traçantes lentas". 

Críticas e Recepção 

A recepção crítica de Is a River Alive? são amplamente positiva, com resenhas de publicações de peso como The New York TimesThe GuardianKirkus Reviews e World Literature Today. O livro é celebrado por sua urgência e beleza, mas também recebe críticas pontuais sobre seu tom e estilo. 

Análises Positivas 

  • Urgência e Relevância: A crítica da World Literature Today descreve o livro como uma "intervenção oportuna" e "o livro mais urgente de Macfarlane até agora", elogiando sua capacidade de combinar "fluência poética com pesquisa rigorosa". A Hindustan Times afirma que é uma "obra importante e corajosa" que "mudará percepções e inspirará uma nova ética da natureza". 

  • Prosa e Beleza Literária: O Guardian destaca que a prosa de Macfarlane "aspira à poesia ao longo de todo o livro", com descrições vívidas e originais. O Kirkus Reviews chama o livro de "argumento lúcido e memorável" a favor da vida dos rios. A Star Tribune elogia a "prosa acrobática" e a capacidade do autor de fundir ciência e "misticismo sofisticado". 

  • Profundidade Emocional e Humana: A Hindustan Times ressalta que o livro é "distinto por ser político e urgente, ao mesmo tempo que profundamente pessoal". A presença de figuras como Yuvan Aves, Giuliana e Rita Mestokosho — todos, de alguma forma, em luto e curados pelos rios — confere à obra uma dimensão comunitária e de cura. 

Críticas e Pontos Fracos 

  • Tom Excessivamente Sentimental: A crítica mais contundente vem de Jennifer Szalai, no The New York Times. Embora reconheça a beleza da escrita, Szalai argumenta que o livro é "ventoso e sentimental" em seus momentos de êxtase. Ela questiona as epifanias do autor, como a sensação de "ser pensado pelo rio", achando-as "pretensiosas". O epílogo, em que Macfarlane imagina seus filhos espalhando suas cinzas no rio após sua morte, é descrito como "piegas" (mawkish) . 

  • Falta de Rigor Conceitual vs. Experiência Sensorial: A mesma resenha do NYT observa que o "cerne do livro não é o argumento, mas a rendição" — uma corrente de consciência que o leitor deve aceitar ou não. A The Guardian, embora elogiosa, nota que Macfarlane "é menos um filósofo lutando com noções de senciência e pampsiquismo do que um escritor da natureza". Isso não é necessariamente uma crítica, mas uma delimitação do escopo da obra. 

  • Risco de Antropomorfismo: A própria revista World Literature Today levanta a questão: "Em mãos menores, a ideia poderia ser arrogante, mas sob a autoridade treinada de Macfarlane, torna-se ao mesmo tempo urgente e poética". O autor demonstra estar ciente desse risco e o aborda diretamente no texto, questionando se, ao conceder direitos, não estaríamos distorcendo a essência dos rios ao dobrá-los às nossas estruturas legais. 

Tabela Comparativa: Recepção Crítica 

Publicação 

Elogios Principais 

Críticas/Observações 

The New York Times 

Descrições originais, sinuosas e surpreendentes. 

"Ventoso e sentimental"; epifanias pretensiosas; epílogo piegas. 

The Guardian 

Prosa poética; combinatória de ciência e aventura; dimensão humana e de cura. 

Autor é mais escritor da natureza do que filósofo (delimitação de escopo). 

Kirkus Reviews 

Argumento "lúcido e memorável"; viagem pela natureza exuberante. 

Sem críticas negativas explícitas; resenha descritiva e elogiosa. 

World Literature Today 

"Intervenção oportuna"; combinação de poesia e rigor; relevância política. 

Adverte que a ideia poderia ser "arrogante" em mãos menos hábeis. 

Hindustan Times 

"Obra importante e corajosa"; análise profunda da situação indiana; prosa que "canta com poesia". 

Sem críticas negativas; resenha de especialista em conservação. 

Conclusão 

Is a River Alive? consolida Robert Macfarlane como uma das vozes mais importantes da escrita sobre a natureza na atualidade. Ao transformar uma questão filosófica ancestral em uma jornada narrativa de tirar o fôlego, o autor nos convida a abandonar a posição de observadores distantes e a nos reconhecermos como parte de uma comunidade de seres vivos que inclui rios, florestas e montanhas. Apesar das críticas sobre um ocasional excesso de sentimentalismo, a obra é amplamente celebrada por sua capacidade de fundir ativismo político, pesquisa científica e uma prosa de rara beleza. Mais do que oferecer uma resposta definitiva, Macfarlane nos presenteia com uma pergunta transformadora e um desafio: se os rios estão vivos, como devemos, então, viver com eles? 

 

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