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terça-feira, 17 de março de 2026

Educar desde crianças antifascistas apreender a dizer NÃO!




...É essa memória, a da nossa própria falibilidade como indivíduo, que devemos transmitir. Para nos armar de discernimento perante nossa própria cegueira perante a manipulação dos populistas e oligarquias, tanto da direita como da esquerda. Seus métodos atuais no Brasil e no mundo são bastante semelhantes aos implantados a um século, e exploram a fragilidade de nossos referenciais de identidade, mesmo ao brincar ou nas redes sociais, para nos impor uma nova identidade, apontar falsos culpados e inverter nosso sistema de valores. 

É precisamente contra essa "amnésia" que a educação deve se levantar. A jornalista franco-alemã Géraldine Schwarz, em seu livro "Os Amnésicos" ( Les Amnésiques ), realiza um exercício poderoso dessa memória ao investigar o passado de sua própria família. Ela descobre que seu avô alemão, Karl Schwarz, se aproveitou das leis de "arianização" do regime nazista para comprar a preço vil uma empresa de uma família judia, os Löbmann, que mais tarde seria assassinada em Auschwitz. Mas a história não termina aí. Schwarz expande sua investigação para compreender como a Europa lidou (ou deixou de lidar) com esse legado. 

O conceito de "amnésicos" não se aplica apenas aos que esqueceram, mas sim àqueles que, como seu avô, se encaixaram na massa dos Mitläufer — os "que acompanham a maioria", os que nada fizeram, que se adaptaram e, por conveniência ou omissão, tornaram-se engrenagens da máquina de destruição. A autora mostra como essa memória encoberta, esse passado que não foi totalmente elaborado, criou um terreno fértil para o ressurgimento de movimentos extremistas décadas depois. A história não se repete como uma farsa, como disse Marx, mas os mecanismos psicológicos de adesão, conformismo e busca por bodes expiatórios permanecem intactos, sendo transmitidos silenciosamente através de gerações, seja nas histórias de família que se conta, seja naquelas que se prefere ocultar. É essa transmissão silenciosa da culpa e da omissão que a educação precisa interromper. 

Foi o filósofo Theodor W. Adorno quem, após testemunhar os horrores do nazismo, colocou a exigência fundamental para qualquer projeto educacional sério: "A exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação". E agora de novo temos a Palestina. Para Adorno, a barbárie não foi um acidente de percurso, mas uma potencialidade latente na própria civilização, e combatê-la exige mais do que a transmissão de conteúdo. Exige um "giro em direção ao sujeito", ou seja, uma investigação profunda sobre os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer ou aceitar tais atrocidades. Sua pesquisa apontou para a formação de um "caráter manipulador", marcado pela frieza, pela incapacidade de se identificar com o outro, pela obsessão pela ordem e pela coisificação da consciência, que vê a si e aos demais como coisas. Essa personalidade autoritária, sedenta por liderança e propensa a descarregar sua agressividade nos considerados "fracos", é forjada desde a mais tenra infância, em lares e escolas que privilegiam a obediência cega e a dureza em detrimento da empatia e da autonomia. 

Por isso, Adorno insistia que a educação contra a barbárie deve começar na primeira infância. O educador Ido Abram, sistematizando o pensamento de Adorno, propõe que, para crianças pequenas, façamos uma "Educação depois de Auschwitz e Palestina sem Auschwitz", ou seja, um trabalho de base focado no desenvolvimento de estruturas psíquicas e morais que funcionem como antídotos ao fascismo. Isso significa: 

  1. Promover a autonomia: Educar para a reflexão e a autodeterminação, para que a criança não siga automaticamente o que os outros fazem, desenvolvendo resistência à pressão do grupo e à obediência irrefletida a figuras de autoridade. 

  1. Cultivar a empatia e o afeto: A frieza, para Adorno, é a condição psicológica fundamental para que a barbárie ocorra. Uma educação que aquece os afetos, que ensina a criança a se colocar no lugar do outro (seja ele o colega que chora, o personagem da história ou o "diferente"), combate a indiferença que permite que o sofrimento alheio seja ignorado. Abram destaca a importância de desenvolver empatia não só com as vítimas, mas também a compreensão (não a justificativa) dos papéis de perpetradores e espectadores, papéis que todos nós, em alguma medida, podemos vir a ocupar em situações de conflito. 

  1. Desenvolver o pensamento crítico e criativo: Uma educação que ensina a questionar, a duvidar das narrativas prontas, a identificar a manipulação e a buscar múltiplas perspectivas é a melhor defesa contra a propaganda populista. Não se trata de doutrinar, mas que fornece as ferramentas para que cada um possa, com liberdade, construir seus próprios juízos. 

Modelos educacionais inovadores ao redor do mundo já aplicam esses princípios. Escolas que substituem a hierarquia rígida por assembleias escolares, onde crianças aprendem a ouvir e argumentar. Universidades que promovem a interdisciplinaridade e o debate ético sobre ciência e tecnologia. Projetos que utilizam a literatura, o esporte, o teatro e as artes para explorar dilemas humanos complexos, permitindo que jovens vivenciem, pela sensibilidade, o que o discurso frio da história não consegue transmitir. A filosofia com crianças, por exemplo, é uma ferramenta poderosa para exercitar o pensamento crítico desde cedo. 

Em suma, educar antifascistas é, acima de tudo, educar para a lucidez. É usar a memória não como um fardo, mas como um farol. Como nos ensina a história dos "amnésicos" de Schwarz, o perigo mora no esquecimento e na recusa em olhar para as próprias sombras. E como nos alerta Adorno, a única barreira eficaz contra a repetição da barbárie é a formação de indivíduos autônomos, críticos, afetivos e corajosos, capazes de dizer "não" quando a maré da história parece empurrar todos para o abismo. É essa a grandeza e a urgência da tarefa educacional em nosso tempo. 

 

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