SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Músicas, Corpos e Silêncios: três rapariga é bom demais? Por Egidio Guerra.



Introdução: Quando a Cultura Valida o Abuso 

O caso dos quatro jovens de boas escolas e condições financeiras que estupraram uma adolescente de 17 anos não é uma exceção monstruosa — é a expressão mais brutal de um processo silencioso e coletivo. Esses meninos não nasceram estupradores. Foram moldados por uma cultura que, diariamente, ensina que corpos femininos são objetos disponíveis, que o desejo masculino é incontrolável e que a violência é uma forma legítima de afirmação. 

É nesse caldo cultural que músicas como " Uma rapariga é bom, três rapariga é bom demais " (uma referência a letras que contabilizam corpos femininos como troféus) encontram terreno fértil. Não se trata de proibir canções, mas de compreender como a repetição de certas narrativas vai, gota a gota, erosando a capacidade crítica de crianças e adolescentes, construindo subjetividades que naturalizam o abuso. 

1. A Adultização Precoce e a Erosão da Infância 

Quando uma criança de 10 anos tem acesso irrestrito a redes sociais e consome conteúdos sexualizados — o chamado softporn, que mascara teor sexual em analogias e sugestões —, algo fundamental se rompe. A psicóloga Renata Panico Gorayeb, do Hospital das Clínicas da USP, alerta que esse tipo de exposição "banaliza os relacionamentos, fazendo com que a criança entenda as relações de forma fútil, superficial e sexualizada". 

A adultização infantil é precisamente isso: a exposição precoce a experiências e responsabilidades incompatíveis com a idade. Crianças sexualizadas precocemente aprendem que seu valor está na capacidade de despertar desejo, enquanto meninos aprendem que seu valor está na capacidade de consumir corpos. A infância, que deveria ser território de brincadeiras e descobertas, transforma-se em palco de performance sexual antecipada. 

Do ponto de vista educacional, a ausência de uma educação sexual crítica e abrangente agrava esse quadro. Estudos demonstram que a educação sexual integral reduz significativamente os índices de violência, pois ensina conceitos fundamentais como autonomia corporal, consentimento e identificação de situações de risco. Sem essas ferramentas, crianças e adolescentes ficam à mercê de narrativas distorcidas vindas da pornografia e das redes sociais. 

2. A Psicologia do Agressor: Masculinidade Tóxica e Incapacidade Empática 

Os quatro jovens do caso mencionado não agiram por "descontrole" ou "impulso". A violência sexual, como explica a socióloga Raquel Panke, não está relacionada primariamente ao desejo sexual, mas à dominação e ao poder. O que leva meninos criados em ambientes privilegiados a cometerem atos de tamanha crueldade? 

A resposta está, em parte, na construção da masculinidade hegemônica. O psicólogo Lucas Mascarim da Silva, da USP, explica que o ideal tradicional do "homem forte, que não passa por situações de degradação e lida sozinho com seus problemas" não dá espaço para o compartilhamento de vivências de sofrimento, fragilidade ou adoecimento. Essa impossibilidade de expressar vulnerabilidade gera homens que só conhecem uma forma de se relacionar: pela via da dominação. 

Quando um menino aprende que não pode chorar, mas pode xingar; que não pode pedir ajuda, mas pode tomar; que não pode sentir medo, mas pode agredir — ele está sendo treinado para a violência. E quando essa violência encontra corpos femininos hipersexualizados pela cultura, o estupro torna-se uma possibilidade real. 

3. Psiquiatria e os Transtornos de uma Geração Solitária 

Vivemos uma epidemia silenciosa. Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que uma em cada seis pessoas no mundo sofre com solidão, e entre jovens de 13 a 29 anos, 17% a 21% se sentem solitários com frequência. Paradoxalmente, estamos hiper conectados: 60% das crianças de 9 a 10 anos têm conta em redes sociais. 

O professor Marco Antônio de Almeida, da USP, recorre ao conceito de "modernidade líquida" de Zygmunt Bauman para explicar esse fenômeno: "As relações hoje são voláteis, descartáveis. Há uma ilusão de que estamos mais conectados, mas, na verdade, há menos contato humano real". 

Essa solidão estrutural tem consequências psiquiátricas graves. A literatura especializada aponta que vítimas e agressores podem desenvolver quadros como transtorno de estresse pós-traumático, depressão, autolesão, comportamentos suicidas e uso problemático de álcool e outras drogas. No caso dos agressores, a solidão emocional — a incapacidade de estabelecer vínculos profundos e genuínos — leva à busca por conexões via dominação e violência. 

A psicóloga Ana Paula Medeiros observa que "nas redes sociais, as pessoas se comparam o tempo todo, favorecendo a inferiorização, principalmente entre jovens em fase de construção da autoestima". Quando a autoestima depende de validação externa — likes, compartilhamentos, números —, o outro deixa de ser sujeito e torna-se objeto. E objetos podem ser usados, descartados, violentados. 

4. A Cultura do Estupro como Pano de Fundo 

É impossível discutir violência sexual sem nomear a cultura do estupro. O termo, surgido na década de 1970, designa comportamentos sutis e explícitos que silenciam ou minimizam a violência sexual contra a mulher. Culpabilizar a vítima pela roupa, pelo horário, pelo comportamento; tratar o estupro como "fatalidade" ou "descontrole"; naturalizar piadas e cantadas ofensivas — tudo isso compõe um ambiente onde o abuso encontra permissão social. 

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que mais de 35 mil crianças e adolescentes foram estuprados no Brasil em um ano, sendo 85,5% dos casos envolvendo meninas. Nascer mulher já é fator de risco. E quando essa mulher é jovem, negra e periférica, o risco multiplica-se. 

O caso dos quatro jovens de "boas escolas" escancara que a violência de gênero não é monopólio de uma classe. Ela atravessa todas as camadas sociais porque a socialização machista também atravessa todas as camadas. A diferença é que, para esses meninos, o dinheiro e o status funcionam como escudo — dificultando denúncias, garantindo impunidade, perpetuando o ciclo. 

5. O Papel da Escola e da Prevenção 

Diante desse cenário, a educação emerge como ferramenta central de enfrentamento. O Ministério da Educação, por meio do programa Escola que protege, disponibiliza formações para profissionais da educação identificarem, prevenirem e enfrentarem violências contra meninas, considerando as juventudes hiper conectadas . 

A orientação é clara: desde a educação infantil, é possível trabalhar valores como respeito, empatia e cuidado. Nos anos finais do fundamental, ampliar o diálogo sobre relações entre pares, uso responsável das redes e prevenção do bullying. No ensino médio, aprofundar discussões sobre cidadania, direitos humanos e relações afetivas. 

Mas a escola sozinha não basta. É preciso envolver os meninos nas reflexões sobre masculinidades — discutir pressão social, expressão de emoções, responsabilidade nas relações. Como afirma a socióloga Silvana Conchão, "se a gente aprendeu que a desigualdade é natural, é possível rever conceitos e papéis sociais. Não vejo outro caminho que não seja pela educação igualitária e não sexista". 

Conclusão: Entre a Música e o Silêncio 

A música que conta " Uma rapariga é bom, três rapariga é bom demais " não é a causa do estupro. Mas ela integra um ecossistema cultural que ensina meninos a contar corpos e meninas a serem contadas. Quando esse aprendizado encontra solidão afetiva, ausência de educação crítica, exposição precoce à pornografia e validação social da violência, o resultado são os quatro jovens que estupram e a adolescente de 17 anos que carregará as marcas. 

Os impactos psicológicos da violência sexual são profundos e duradouros: depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de substâncias, dificuldades nos relacionamentos íntimos. Mas há também impactos coletivos — uma sociedade que aprende a naturalizar o inaceitável. 

Reverter esse quadro exige esforço coordenado: famílias que monitoram o acesso digital e conversam sobre consentimento; escolas que implementam educação sexual integral; Estado que garante políticas públicas de proteção; e cada um de nós que recusa silenciar diante da violência. 

Porque no final, a questão não é apenas sobre a música que se ouve, mas sobre os corpos que se aprende a respeitar — ou a destruir. 

 

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