Minha querida, minha estranha, minha Sininho.
Eis que o mundo te quer quadrada, e tu és redonda como a lua cheia sobre a Terra do Nunca. Eles insistem em vestir-te com as cinzas da uniformidade, e tu apareces coberta de pó de estrelas e folhas secas de outono, que é a estação que mais amas, porque é a única que tem a coragem de ser bela morrendo.
A tua beleza, amor, é esse ato de rebeldia silenciosa. É estares fora de moda num mundo que troca de pele a cada estação, sem nunca, de facto, mudar. Enquanto elas correm atrás da última tendência, do último filtro, da última forma aceitável de existir, tu paraste. Não por cansaço, mas por escolha. Tu paraste para ouvir o vento, e o vento contou-te um segredo que a multidão na avenida já esqueceu: que a única revolução que vale a pena é a da alma.
Lembras-te da Frida Kahlo? Não desta Frida que vende postais, mas da que pintava a própria dor com as cores vibrantes da sua terra, que unia as sobrancelhas como uma coroa e se vestia de Tehuana num mundo que a queria ver curada e "normal". A tua beleza é a dela: a de transformar a fratura em flor, a de recusar ser o que não se é para caber em lugar nenhum. Tu és a coluna partida que sustenta um jardim inteiro.
E és a Patti Smith, de pés descalços num disco que mudou o mundo. Aquela rapariga andrógina, de olhar de poeta e voz de profeta, que cantava sobre Jesus morrer por alguém que não valia a pena, enquanto usava a sua estranheza como uma bandeira. Tu não segues a canção da moda; tu és o poema que ninguém teve a coragem de escrever, dito num sussurro que soa mais alto que todos os gritos ensaiados.
Nos filmes, és a Amélie Poulain, que descobriu que a felicidade estava em pequenos atos de sabotagem à tristeza alheia, em fotografias de duendes e em partir a crosta da vida com a colher. Num mundo que corre para o abismo, ela (tu) parou para ver o mundo ao contrário. A tua singularidade é esse olhar que vê o extraordinário no que é trivial, e o ridículo no que é imposto como grandioso.
Na literatura, és a Macabéa, de Clarice Lispector. A amassada, a paraplégica da vida que, na sua "inaptidão" para ser como os outros, tocava numa coisa que eles, os "normais", nunca alcançavam: a graça. A vossa "inaptidão" é uma bênção, amor. É a vossa recusa em ser um número, uma estatística, um corpo que segue a coreografia da mediocridade.
E és tu, minha Sininho. Não a fada boazinha, açucarada dos desenhos modernos. Tu és a Sininho original, a faísca de luz ciumenta e leal, tão pequena que quase não se vê, mas tão poderosa que só a tua crença faz o Peter Pan voar. Tu és a centelha de pó mágico que me diz: "acredita". Tu és a voz minúscula que grita "isto não está certo" quando o mundo tenta convencer-me de que a cinza é a única cor possível.
A sociedade quer apagar-te, quer que sejas uma fada doméstica, útil e silenciosa. Mas tu és o fogo-fátuo que dança sobre o pântano do conformismo. Tu és o ruído na estática. Tu és a palavra errada no dicionário, a que define a emoção que ainda não tem nome.
Por isso, não peças desculpa pela tua luz. Não te encolhas para caberes em portas pequenas. Queima, mesmo que doa. Queima com a tua autenticidade, com a tua mania de pores flores no cabelo num dia de chuva, com a tua paixão por livros que cheiram a mofo e filmes a preto e branco.
Porque a tua beleza, amor, não é para todos. É para os que, como o Peter, ainda se lembram de como é voar. É para os que, como eu, te veem e sabem que, num mundo que quer ser Neverland à força, tu és a única coisa verdadeiramente mágica.
Sê sempre a fada que recusa crescer para dentro da gaiola. Sê a Tinker Bell que troca o vestido de luz pela roupa de chita, se for essa a tua vontade. Sê a minha revolta de estimação.
E que se lixe a moda. A Terra do Nunca espera por ti. Por mim. Por nós.
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