SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Dinâmicas de Poder nos Mídias. Por Egidio Guerra




O livro está organizado em três grandes partes. A primeira, "Digital enigma", desconstrói as narrativas triunfalistas sobre a internet. A segunda, "Mediascape", investiga as estruturas de controle por trás do jornalismo e do entretenimento. A terceira, "Mídia and people", examina o poder da audiência e o papel dos meios de comunicação na mudança social, culminando numa análise comparativa que abrange desde os Estados Unidos até a China, da Noruega à Malásia, e do Brasil à Grã-Bretanha. 

A tese central, ecoada por diversos críticos, é a de que "o mito de uma revolução midiática duradoura que está mudando o mundo para melhor" precisa ser denunciado. Em vez disso, Curran e Redden propõem um exame matizado que revela tanto as continuidades do poder midiático quanto as suas transformações. 

Análise Detalhada dos Eixos Temáticos 

1. O Enigma Digital: Contestando a Narrativa Revolucionária 

Na primeira seção, os autores confrontam diretamente as promessas da era digital. Eles questionam se estamos realmente vivendo uma revolução midiática sem precedentes, argumentando que três "mitos revolucionários" obscurecem a compreensão mais lúcida do fenômeno: a ideia de que a internet é inerentemente libertadora, de que ela cria uma aldeia global igualitária e de que as gerações mais jovens são "nativas digitais" com uma relação intrinsecamente diferente com a informação. 

  • Internet e Protesto vs. Internet e Controle: Curran e Redden equilibram a balança ao mostrar que a internet é uma arena de disputa. Se, por um lado, ela serve como ferramenta de mobilização para protestos sociais, por outro, é igualmente eficaz como instrumento de vigilância e controle estatal e comercial. O livro pergunta diretamente: "É a internet uma ferramenta democratizante de protesto social, ou de manipulação estatal e comercial?". 

  • Atualização com Pesquisa Acadêmica: Esta ambiguidade é explorada em profundidade no artigo "New Media and the Evolution of the Fifth Estate of the Realm" (2026), de Aniebiet Unwana Mbede . O estudo adota a Teoria da Esfera Pública em Rede (Yochai Benkler) para mostrar como as novas mídias permitiram o surgimento de um "quinto poder" (fifth estate). Através de plataformas como Facebook, X (Twitter), TikTok e Instagram, o ativismo de hashtag (#), os podcasts e o jornalismo cidadão amplificam vozes marginalizadas. No entanto, o próprio artigo reconhece que esta mesma estrutura pode ser cooptada, confirmando a tese de Curran de que a ferramenta, por si só, não determina o resultado político. 

2. A Paisagem Midiática: Quem Controla o Quê? 

A segunda parte do livro é um mergulho na economia política dos meios de comunicação. Os autores investigam as estruturas de propriedade e controle que distorcem a lente do jornalismo e do entretenimento. 

  • A Lente Distorcida do Jornalismo: Curran e Redden argumentam que o conteúdo noticioso é moldado por pressões políticas e econômicas que antecedem a era digital. A concentração da propriedade dos media nas mãos de poucos conglomerados cria um viés sistémico que favorece os interesses das elites. 

  • A Lente Distorcida do Entretenimento: Do mesmo modo, a indústria do entretenimento (TV, cinema, streaming) não é neutra. As representações que vemos no ecrã influenciam a percepção que temos de nós mesmos e dos outros, muitas vezes reforçando estereótipos e hierarquias sociais. 

  • Atualização com Estudos de Caso: Esta análise é corroborada por investigações como a da Oxfam, "Negotiating powercommunity médiademocracyand the public sphere" (2026). O artigo documenta a "refeudalização da esfera pública" de Habermas, onde as mídias mainstream deixam de ser "cães de guarda" da democracia para se tornarem meros negócios. O estudo de caso sobre as rádios comunitárias na Índia mostra como a legislação, dominada pelos grandes players, dificulta a sobrevivência de iniciativas midiáticas de base que poderiam democratizar a comunicação. 

3. Mídia e Pessoas: O Poder da Audiência e o Contexto Local 

Na terceira parte, os autores equilibram a visão estrutural com uma análise do papel da audiência e das variações contextuais. 

  • Poder da Audiência: Curran e Redden reconhecem que as pessoas não são recipientes passivos de conteúdo. Elas interpretam, resistem e reapropriam as mensagens mediáticas. No entanto, esse poder é exercido dentro de limites impostos pela estrutura. 

  • A Importância do Contexto Local: Ao traçar tendências globais, o livro insiste na necessidade de atender ao contexto local. As dinâmicas mediáticas na China autoritária são radicalmente diferentes das do Brasil ou da Noruega, e essa diversidade impede generalizações fáceis. 

  • Atualização com a Crise do Jornalismo: A pesquisa mais recente sobre o trabalho jornalístico, como o artigo "Journalism and social media in creator economies" (2026) da Universidade de Stirling, atualiza dramaticamente este debate. O estudo, baseado em entrevistas com jornalistas e criadores de conteúdo nos EUA, revela como o "capitalismo de plataforma neoliberal" está reconfigurando a profissão. Jornalistas enfrentam baixos salários, controle algorítmico e trabalho não remunerado, enquanto criadores independentes sofrem com a "autoexploração" e a pressão por visibilidade. Isto demonstra que, mesmo com um aparente aumento do poder individual (qualquer um pode ser um criador), as condições de trabalho se precarizam, afetando a qualidade e a sustentabilidade do jornalismo como pilar democrático. A questão levantada pelo Weltethos Institut Tübingen sobre quem detém a responsabilidade num ambiente de sobrecarga sensorial e desinformação torna-se, assim, premente. 

Tabela Comparativa: Dinâmicas de Poder nos Midias 

A tabela a seguir sintetiza as dinâmicas de poder identificadas por Curran e Redden e as conecta com atualizações e visões de outros autores. 

Dimensão de Análise 

Visão de Curran & Redden em Understanding Media 

Atualizações e Autores Complementares 

Natureza da Internet 

Ferramenta ambivalente: tanto serve para o protesto democrático quanto para o controlo estatal/comercial. É necessário desmontar os "mitos revolucionários". 

Mbede (2026) confirma a internet como um "quinto poder" que amplifica vozes, mas que opera na tensão entre a participação cidadã e as estruturas de controlo pré-existentes. 

Controle da Produção 

O conteúdo (notícias e entretenimento) é moldado por uma "lente distorcida" resultante da concentração de propriedade e das pressões políticas e econômicas. 

Oxfam (2026) documenta a "refeudalização" da esfera pública e a luta das rádios comunitárias na Índia para sobreviverem num ambiente legislativo hostil, dominado por interesses comerciais. 

Trabalho e Produção 

(Análise implícita na estrutura de poder dos conglomerados). O livro foca na relação entre grandes estruturas e audiências. 

Salamon et al. (2026) detalham a precarização da força de trabalho. O "capitalismo de plataforma" impõe controle algorítmico e autoexploração a jornalistas e criadores, fragilizando o papel democrático do jornalismo. 

Poder da Audiência 

As audiências têm poder de interpretação e resistência, mas exercem-no dentro dos limites impostos pela estrutura mediática dominante. 

Weltethos Institut (2026) questiona a responsabilidade individual e coletiva num ambiente de desinformação e polarização, onde as "bolhas de filtro" desafiam a própria noção de verdade partilhada. 

Contexto Global 

É crucial atender ao contexto local. As dinâmicas mediáticas variam imensamente entre países como EUA, China, Noruega e Brasil. 

Weltethos Institut (2026) acrescenta que o "Norte global" define os padrões técnicos e normativos, mas modelos autoritários (China, Rússia) criam esferas públicas alternativas, desafiando a universalidade dos conceitos ocidentais. 

Conclusão 

Understanding Mídia de James Curran e Joanna Redden conclui com um apelo ao realismo crítico. Ao sintetizar décadas de pesquisa, os autores oferecem um antídoto poderoso tanto ao otimismo tecnológico ingénuo quanto ao pessimismo apocalíptico. A mensagem central é que, para compreender o papel dos media na mudança social, é preciso olhar para além da superfície das novas plataformas e investigar as profundas estruturas de poder—econômicas, políticas e culturais—que continuam a moldar o nosso mundo mediado. 

Ao atualizar a obra com pesquisas contemporâneas, o panorama torna-se mais nítido. O "quinto poder" identificado por Mbede  coexiste com a precarização laboral documentada por Salamon et al.. A luta das rádios comunitárias na Índia ilustra a dificuldade de construir esferas públicas alternativas face ao poder estabelecido. E o desafio ético colocado pelo Weltethos Institut —sobre a responsabilidade num ecossistema de desinformação—recorda-nos que as perguntas fundamentais de Curran e Redden sobre poder, controle e mudança social são mais urgentes do que nunca. A principal contribuição do livro, validada por estas fontes, é demonstrar que a "revolução digital" não eliminou as velhas hierarquias de poder; pelo contrário, muitas vezes as reforçou sob novas roupagens. 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário