SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 13 de março de 2026

DOUTRINA TRUMP- O silêncio cúmplice da normalização. Por Egidio Guerra




Existe na sociedade americana um processo de elaboração (Aufarbeitung) do dano causado por suas políticas, ou predomina um sistema de defesas que nega, minimiza e justifica a violência estrutural, seja ela militar, econômica (sanções) ou retórica? 

1. A Nova "Carta de Colburn": O Mundo como Fórum e a Resposta Americana 

No experimento original, a "Carta de Colburn" era um texto fictício usado para provocar discussões. Hoje, o "texto provocador" é a própria realidade: as declarações de líderes, as imagens de operações federais e os dados sobre os efeitos das políticas americanas. A reação a esses estímulos revela os mecanismos de defesa. 

  • A Resposta Internacional como "Grupo de Controle": Quando o presidente Trump minimizou o sacrifício de tropas da OTAN no Afeganistão, a resposta do primeiro-ministro britânico Keir Starmer foi imediata: "insultuoso e revoltante". Starmer chegou a dizer: "se eu tivesse falado errado dessa forma, certamente pediria desculpas". Esta é uma reação de um aliado, mas o que nos interessa é a reação dentro da sociedade americana. A princípio, a administração dobrou a aposta, dizendo que Trump estava "absolutamente certo". Mas, diante da reação global e da pressão interna, houve uma rara "retirada" retórica, com Trump elogiando os soldados britânicos mortos. Isso ecoa o mecanismo de "negação seguida de uma correção superficial" que Adorno identificou: reconhece-se o fato (a morte de soldados), mas sem jamais confrontar a lógica mais profunda da política que os colocou lá. 

  • A Fúria como Mecanismo de Defesa: Adorno falava da "desrealização geral" – um afastamento do sentimento de estar implicado. Nos EUA de hoje, a fúria parece ter substituído a apatia como principal defesa. Quando um enfermeiro (Alex Pretti) foi morto pela Patrulha de Fronteira, a administração imediatamente o rotulou de "assassino" e "terrorista doméstico" para justificar a ação estatal. Quando as imagens de vídeo contradisseram a narrativa, a administração recuou silenciosamente. A reação inicial não foi de luto ou investigação, mas de ataque à vítima – um mecanismo clássico de defesa da consciência culpada, deslocando a responsabilidade para quem sofre a violência. 

2. Os Mecanismos de Defesa Atualizados 

Adorno catalogou defesas como "alegações de ignorância" e "relativização". Como essas defesas se manifestam hoje em relação às políticas americanas? 

Mecanismo de Defesa Pós-1945 (Alemanha) 

Mecanismo de Defesa Pós-2026 (EUA) 

"Alegações de ignorância": "Não sabíamos o que estava acontecendo." 

"Negação por Dados Contestados": Quando o acadêmico John Mearsheimer cita o estudo do The Lancet que atribui 38 milhões de mortes às sanções americanas em 50 anos, a resposta não é a surpresa, mas a desqualificação da fonte ou a alegação de que o número é "inflado" ou "partidário". A ignorância não é mais possível no mundo da informação; a defesa é o descrédito seletivo da evidência. 

"Relativização dos crimes": "Dresden compensa Auschwitz." 

"Justificação por Fins Geopolíticos": As sanções que, segundo Mearsheimer, levam à fome e à doença são justificadas como necessárias para conter inimigos ou promover a "estabilidade". A morte de civis por doenças decorrentes da pobreza imposta por sanções é relativizada como um "efeito colateral" aceitável em nome da segurança nacional. A guerra no Iêmen ou as crises humanitárias em países sancionados são o "Dresden" que justifica a política americana. 

"Eufemismo e negação reveladora": "Não tenho nada contra os judeus, mas..." 

"Excepcionalismo e Negação Retórica": "Não somos um império, mas precisamos agir no mundo". "Não somos fascistas, mas precisamos prender qualquer um que critique o governo". A administração Trump reviveu a Doutrina Monroe e usou slogans como "Ein Volk, ein Reich, ein Führer" adaptados para "One homelandOne peopleOne heritage". A negação ("não é nazismo") ocorre no exato momento em que os significantes são utilizados, criando uma realidade dupla onde o símbolo é empregado, mas seu significado é publicamente rejeitado. 

"Desrealização geral" 

"Normalização do Extremo": O uso de forças federais mascaradas em operações em Chicago, a ameaça de anexar a Groenlândia ou a "altercação violenta" com líderes ucranianos na Casa Branca deixam de ser choques e passam a ser o novo normal. Como alerta o artigo do Invisible Institute, o perigo é que a sociedade "derive — desorientada, desancorada, perplexa — para dentro da jaula de ferro da tirania", sem nunca perceber a linha que foi cruzada. A "desrealização" é a incapacidade de processar o real porque o real se tornou um espetáculo absurdo e constante. 

3. O "Fascismo Trumpiano" e o Holocausto por Pobreza 

Eu uso o termo "fascismo que leva a Holocaustos e mortes de pessoas pela pobreza". Mas é preciso separar os conceitos com cuidado, usando a lupa da Teoria Crítica. 

  • O Fascismo como Processo: Um artigo de opinião da Sada News cunha o termo "Trumpian Fascism" para descrever uma mistura de narcisismo, darwinismo social de negócios (aplicar a lógica do "real estate" à política) e isolamento beligerante. A revista El País documenta abertamente a administração usando "símbolos abertamente supremacistas ou fascistas" e compara a retórica sobre imigrantes à propaganda nazista. O Projeto Democracia argumenta que a impunidade do "presidente imperial" e a disfunção democrática interna criaram as condições para que um movimento autoritário florescesse. 

  • O "Holocausto" por Pobreza e Sanções: A comparação com o Holocausto é sempre carregada e deve ser usada com rigor analítico. O que Mearsheimer aponta, ao citar o The Lancet, é uma violência estrutural de escala genocida. Quando se diz que 38 milhões morreram devido a sanções, não se trata de um único evento com câmaras de gás, mas de um processo burocrático e contínuo de punição coletiva que nega acesso a medicamentos, alimentos e infraestrutura. É uma "solução final" por lentidão e negligência, cuja autoria é diluída em cadeias de comando e decisões de política externa. 

  • A Conexão: O que liga o "fascismo" retórico (símbolos nazistas, ataque à imprensa) à morte por sanções é o conceito de "povo" (Volk). O fascismo define um "povo" digno de direitos e um "outro" que é descartável. A retórica de "America First" define os americanos (e, dentro destes, uma definição étnica restrita) como o único sujeito moral. O resto do mundo — os 38 milhões que morreram sob sanções — é o "outro" cujo sofrimento é invisibilizado ou justificado. 

4. Elaborar ou Repetir? O Dilema Americano 

Adorno, em "The Meaning of Working Through the Past" (incluído em Guilt and Defense), alertou que o passado não é "elaborado" quando é simplesmente enterrado sob o "milagre econômico" ou a integração geopolítica. Ele permanece vivo, latente. 

Aplicando isso aos EUA: 

  • A Não-Elaboração do Passado Imperial: Os EUA nunca fizeram um trabalho profundo de luto e responsabilização por seus próprios crimes fundadores (genocídio indígena, escravidão) e por suas intervenções no século XX (Vietnã, América Latina, Iraque). Esse passado não resolvido retorna, como um sintoma, na forma de uma política externa que repete os padrões de dominação com uma nova roupagem retórica. O "passado que se gostaria de evadir ainda está muito vivo". 

  • O Pedido de Desculpas como Fetiche: Exigir um "pedido de desculpas" do governo americano seria cair na armadilha do que Adorno chamou de "vingança" ou "superação" superficial. O pedido de desculpas, sem uma transformação estrutural, seria um ritual vazio de expiação que permitiria que as estruturas profundas do autoritarismo e do excepcionalismo permanecessem intocadas. 

Conclusão: A Resposta está na Sociedade, não no Estado 

Os EUA vão pedir desculpas? são, pela perspectiva frankfurtiana, a pergunta errada. A pergunta certa é: a sociedade americana está elaborando ou repetindo? 

Os dados disponíveis sugerem uma repetição trágica, mas com novas tecnologias de poder e defesa. A administração Trump, ao utilizar símbolos nazistas abertamente, ao atacar a imprensa e usar a "tática do veto do manifestante" (heckler's veto) para suprimir a dissidência, ao ameaçar aliados e justificar a fome por sanções, está operando dentro de uma lógica que a Teoria Crítica reconhece como autoritária. 

No entanto, seguindo a distinção de Hannah Arendt citada no artigo do Invisible Instituteviolência não é poder. O poder surge quando as pessoas agem em concerto. A esperança, para a Teoria Crítica, não está no Estado, mas nos movimentos de base, na imprensa que resiste, nos cidadãos que recusam a "desrealização" e exigem, como Diane Dernie, a mãe do soldado britânico, um pedido de desculpas que reconheça o dano real. 

A resposta, portanto, não virá de Washington. Virá de uma sociedade civil global que force os EUA a um confronto honesto com seu passado e presente. Até lá, como diria Adorno, o terror continuará, enquanto culpa e violência forem pagas com mais culpa e violência, ou pior, com o silêncio cúmplice da normalização. 

 

 

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