SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 9 de março de 2026

O BNB, Bolsa Empresário e Oligarquias as custas das vidas dos nordestinos.


Por décadas, o discurso oficial sobre o Nordeste brasileiro oscilou entre a seca e a solução. A solução, materializada na forma de gigantescos fundos constitucionais e instituições de fomento como o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), prometia transformar a estrutura produtiva da região. No entanto, ao observarmos os números da economia e os indicadores sociais, a pergunta que persiste é: a serviço de quem realmente estiveram esses recursos? A tese de que o modelo de desenvolvimento nordestino foi capturado por oligarquias, mantendo a população refém de uma economia de baixos salários e transferências sociais, encontra eco nos dados, que revelam uma região que, apesar do imenso volume de dinheiro público injetado, não conseguiu romper o ciclo da pobreza e da concentração de poder.

O Retrato de Décadas: Números que Denunciam a Dependência

A fotografia mais recente do Nordeste, revelada por estudos do Banco Mundial e do IBGE, mostra avanços pontuais, mas uma estrutura de subdesenvolvimento que persiste . Entre 2012 e 2024, o rendimento domiciliar per capita na região cresceu 26,7%, um número positivo, mas que ainda a deixa com a menor média do país, equivalente a apenas 65% da média nacional . O problema não é a falta de crescimento, mas a qualidade dele. Este crescimento é profundamente dependente das transferências de renda e da previdência social.

Os dados mostram que a proporção de pessoas em situação de pobreza no Nordeste caiu de 56,6% em 2012 para 39,6% em 2024, e a extrema pobreza recuou de 14,3% para 6,6% no mesmo período . Estados como o Piauí chegaram a reduzir a extrema pobreza pela metade entre 2023 e 2024 . Isso é, sem dúvida, um alívio para milhões de pessoas. Contudo, essa queda é dramaticamente influenciada pela expansão dos programas sociais e pela política de valorização do salário mínimo, que impacta diretamente os rendimentos dos aposentados e pensionistas.

A fragilidade desse modelo fica evidente quando se analisa o mercado de trabalho. A região tem a maior proporção de jovens em idade ativa do país (cerca de 80% da população com 54 milhões de habitantes), mas não consegue incorporá-los de forma produtiva . A taxa de desemprego gira em torno de 12%, e a informalidade atinge 52% dos trabalhadores, ambos os índices superiores à média nacional . Ou seja, o trabalhador nordestino ou está no mercado informal, sem direitos e com baixa produtividade, ou depende diretamente do Estado para sobreviver. A classe média, que deveria ser o motor do desenvolvimento, é tênue e constantemente ameaçada pela falta de empregos de qualidade.

Na saúde e educação, os avanços em cobertura não se traduzem em qualidade. Se por um lado a proporção de trabalhadores com diploma universitário quase dobrou (de 9,1% em 2012 para 17% em 2023), por outro, a região ainda patina na conversão desse capital humano em renda e inovação . A infraestrutura precária — em transportes, saneamento e energia — compromete a produtividade e afasta investimentos de maior valor agregado, perpetuando uma economia baseada em setores de baixa complexidade .

A Ilusão do FNE: O Gigante que Não Gerou Transformação

O principal instrumento para reverter esse quadro sempre foi o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), operado pelo BNB. Os números são vultosos. Em 2024, o FNE atingiu um recorde de contratações, com R$ 44,8 bilhões em operações . Para 2026, a previsão é de R$ 52,6 bilhões . Em valores acumulados, desde 2023, o FNE já aplicou R$ 118 bilhões .

Para dimensionar o impacto potencial desse dinheiro, é necessário fazer um exercício comparativo. Se considerarmos os últimos 50 anos, mesmo com valores menores no passado, a soma chega facilmente à casa dos R$ 600 bilhões a R$ 800 bilhões (em valores corrigidos). Agora, comparemos essa cifra com o PIB de países que, há 50 anos, tinham condições piores ou similares às do Nordeste, mas que conseguiram dar um salto de desenvolvimento.

A Tabela do Contraste: O que o Mundo Fez com Menos

Região/PaísPeríodo de ReferênciaInvestimento/ContextoResultado Alcançado
Nordeste (FNE)Últimos 50 anos (estimativa)~R$ 600 bi - R$ 800 biBaixo crescimento, perpetuação da pobreza e alta concentração de renda
Coreia do SulAnos 60/70Ajuda externa e investimento focado em indústria pesadaTransformação em economia de alta renda (renda per capita superior à portuguesa)
Cingapura50 anosAtração de investimento estrangeiro e educaçãoUm dos PIBs per capita mais altos do mundo
Chile (CORFO)Décadas de atuaçãoAgência de desenvolvimento com foco em inovação e setores estratégicosDiversificação da matriz produtiva, tornando-se líder regional em vários setores

O que explica essa diferença brutal de resultados? A resposta está na qualidade da gestão e no destino dos recursos. Enquanto os países asiáticos e agências como a chilena CORFO (Corporación de Fomento de la Producción) focaram em inovação, educação de base tecnológica e criação de cadeias produtivas integradas, o FNE, historicamente, tem sido usado como balcão de negócios para grandes grupos econômicos e para a perpetuação de elites regionais. A pesquisa do Ipea é contundente ao apontar que, no Nordeste, a Bahia concentra os recursos do FNE em todos os anos analisados, enquanto estados como Sergipe e Alagoas recebem menos, o que demonstra que o Fundo, em vez de corrigir desigualdades intrarregionais, muitas vezes as acentua .

O resultado prático é que o dinheiro do FNE, somado à máquina do BNB (com sua vasta estrutura de agências e quadros), gerou um impacto aquém do necessário. Estudos mostram que linhas específicas, como o FNE Proinfra, têm efeitos positivos sobre o PIB per capita, mas esses efeitos são pontuais e não alteram a dinâmica concentradora de poder . O dinheiro público, que deveria ser um instrumento de emancipação econômica, acaba funcionando como uma espécie de "bolsa empresário", irrigando setores tradicionais que não raro mantêm relações promíscuas com o poder público, em um ciclo que realimenta as oligarquias locais.

O Preço da Concentração: Criminalidade e Falta de Futuro

A outra face dessa moeda é a exclusão de grande parte da população dos benefícios do crescimento. Estudo do Ipea revela que possuir alta arrecadação não garante desenvolvimento social, e que o Nordeste concentra os casos mais críticos dessa dissociação . Quando o Estado gera desenvolvimento para poucos, a maioria fica à margem, especialmente os jovens. A falta de perspectivas em um mercado de trabalho que exige qualificação mas não a oferece, combinada com a baixa renda familiar, é o combustível para a expansão da criminalidade.

O jovem que não estuda e não trabalha, que vê os recursos públicos serem canalizados para grandes grupos empresariais enquanto sua comunidade carece do básico, torna-se alvo fácil do crime organizado. A violência, que ceifa vidas jovens todos os dias no Nordeste, é a expressão mais perversa da falência desse modelo de desenvolvimento excludente. Pagamos um preço altíssimo em segurança pública porque falhamos em gerar inclusão produtiva.

Conclusão: Um Novo Ciclo ou a Repetição do Fracasso?

O Nordeste continua refém de um pacto oligárquico que se alimenta do fundo público. O FNE e a estrutura do BNB, em vez de serem ferramentas de rompimento com o subdesenvolvimento, foram capturados para manter uma estrutura de poder que concentra renda e perpetua a dependência da população. Enquanto países menores usaram menos recursos para dar saltos qualitativos, o Nordeste afogou-se em dinheiro que não gerou transformação.

A recente mudança de discurso, com o BNB se voltando para pautas como o crédito climático e a transição energética (onde o Nordeste produz 91% da energia eólica e 42% da solar do país), pode representar uma nova esperança . No entanto, para que essa agenda não seja apenas mais uma fonte de recursos para os mesmos grupos de sempre, será preciso uma revolução na gestão pública e no controle social. O desafio não é técnico, é político: quebrar o monopólio do poder das oligarquias e transformar o dinheiro do desenvolvimento em qualidade de vida, educação de qualidade e oportunidades para todos os nordestinos, não apenas para alguns.

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