SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

terça-feira, 14 de abril de 2026

"First Philosophy Last Philosophy", de Giorgio Agamben



Publicado em 2024, First Philosophy Last Philosophy: Western Knowledge Between Metaphysics and the Sciences representa o mais recente esforço de Giorgio Agamben (Roma, 1942) para repensar as fundações do saber ocidental. Trata-se de uma "arqueologia da metafísica" que investiga o destino da chamada "filosofia primeira" desde Aristóteles até Heidegger, passando pela escolástica medieval, Avicena e Kant. O livro é dividido em seis capítulos — "Second Philosophy", "Philosophy Divided", "Critique of the Transcendental", "The Infinite Name", "The Transcendental Object = X" e "The Metaphysical Animal" — e oferece uma leitura densa, filologicamente rigorosa e profundamente teórica sobre a relação entre filosofia e ciências.

Tese Central: A Filosofia como "Escrava" das Ciências 

A hipótese que orienta toda a investigação de Agamben é provocativa e pessimista. Ele sustenta que a tentativa da filosofia de utilizar a metafísica para assegurar sua primazia sobre as ciências resultou, ironicamente, em sua subserviência. Nas palavras do autor:

"The hypothesis of this book is that philosophy's attempt to use metaphysics as a way of securing primacy among the sciences has resulted instead in its subserviencephilosophyonce handmaiden to theology (ancilla theologiae), has now become more or less consciously handmaiden to the sciences (ancilla scientiarum)." 

Ou seja, a filosofia que durante séculos serviu à teologia tornou-se agora uma impotente serva das ciências. O que está em jogo, portanto, é a própria unidade do saber ocidental e a possibilidade de a filosofia reivindicar um território que não seja meramente residual ou determinado pelas ciências particulares.

Agamben parte da definição aristotélica da metafísica como a ciência do "ente enquanto ente" (on he on), distinta da física (estudo dos entes em movimento) e da matemática (estudo dos entes quantitativos). No entanto, ele identifica uma fragilidade constitutiva nessa arquitetura do saber: a filosofia primeira define seu objeto por subtração — ela é o que resta depois que a física e a matemática tomaram seus objetos específicos. Isso gera uma "cisão originária" que a metafísica nunca conseguiu superar.

Principais Movimentos Arqueológicos

1. A Virada Medieval: A Entrada da "Coisa" (Res)

Um dos momentos mais importantes da análise de Agamben é a transformação ocorrida a partir do século XIV. Ele afirma:

"a partire dal secolo XIV il concetto di metafisica subisce una trasformazione le cui conseguenze nella storia del pensiero occidentale non sono state ancora compiutamente valutate" 

Essa transformação é sintetizada na expressão "a entrada da 'coisa' (res) na filosofia primeira". Com Avicena e os escolásticos, o objeto da metafísica desloca-se do "ente existente" para a "coisa" enquanto puro conteúdo representacional, abstraído de sua existência concreta. A res designa o correlato objetivo de uma representação, abrindo caminho para a substituição gradual da ontologia pela gnoseologia — ou seja, de uma teoria do ser para uma teoria do conhecimento.

2. Kant e o Objeto Transcendental X

Agamben interpreta a revolução copernicana de Kant como o ponto culminante dessa deriva. A questão kantiana — "o que garante que a representação se refira a um objeto real?" — revela a estrutura aporética da metafísica moderna. O "objeto transcendental X" torna-se um puro lugar vazio, uma condição de possibilidade do conhecimento que não tem conteúdo próprio. Agamben formula o problema nos seguintes termos:

"The problem that Kant is trying to resolve here is the ineluctable tendency of our intellect and our language to refer to an object even when this is absent." 

A metafísica torna-se, assim, "ciência da ciência" ou teoria das condições de possibilidade do conhecimento, perdendo qualquer contato direto com o ser das coisas.

3. Heidegger e a Diferença Ontológica 

O último capítulo do livro é dedicado a Heidegger, que Agamben considera o último grande pensador a tentar repensar a metafísica aristotélica a partir da diferença entre Ser e ente. No entanto, Agamben aponta uma contradição fundamental em Heidegger: este define seu projeto como uma "ontologia fundamental" que pretende pensar a verdade do Ser para além do ente, mas continua operando sob o nome de "ontologia". As tentativas heideggerianas de escapar da metafísica por meio de noções como "clareira" (Lichtung) ou "aberto" (das Offene) são interpretadas como movimentos que situam a filosofia em um limiar entre o pensamento conceitual, a poesia e a mística.

Citações Relevantes e Síntese do Argumento

Tema 

Citação 

Fonte 

Hipótese central 

"philosophyonce handmaiden to theology... has now become more or less consciously handmaiden to the sciences" 

 

Objeto da metafísica 

"a metafísica se centrará na ousía que Agamben traduz como 'existência' em lugar da habitual 'substância'" 

 

A cisão originária 

"quella scissione originaria dell'oggetto del pensiero – l'essere e l'entel'esistente e la cosa, l'essere e Dio, il trascendentale e l'empirico" 

 

Conclusão sobre a unidade do saber 

"finché l'oggetto del pensiero rimarrà scissoil sapere dell'Occidente non potrà che dividersi in una pluralità di scienzela cui unificazione resterà sempre problematica" 

 

Críticas à Obra

Crítica 1: A Leitura Tendencial de Aristóteles

Uma crítica recorrente, e talvez a mais substantiva, diz respeito à interpretação que Agamben faz de Aristóteles. O filósofo italiano sustenta que a metafísica define seu objeto de maneira residual e indeterminada em relação à física e à matemática. No entanto, como observa Francesco Panizzoli em uma resenha detalhada, essa leitura é discutível:

"Io ho avuto l'impressione di fondoleggendo il libro di Agambenche egli imposti il discorso da una tonalità emotiva precisa (ma del tutto arbitraria, ossia non stringente rispetto al testo e alla mens aristotelicache viziadunqueil 'gustodell'argomentazione." 

Panizzoli argumenta que não há, nos textos de Aristóteles, uma afirmação explícita da "secundariedade" da metafísica nos termos que Agamben propõe. Ao contrário, poder-se-ia argumentar coerentemente que são as ciências particulares que definem seus objetos de maneira parcial em relação à investigação mais universal do "ente enquanto ente". A crítica sugere que Agamben "deforma" o pensamento aristotélico para se adequar à sua própria hipótese.

Crítica 2: O "Sabor" Arbitrário da Argumentação

Panizzoli desenvolve uma metáfora gustativa para qualificar o problema: Agamben já teria decidido antecipadamente o "sabor" (amargo) que a filosofia primeira teria para o pensamento ocidental, e lê toda a tradição a partir dessa escolha prévia. Se alguém lesse o mesmo livro com uma "sensibilidade gustativa de sinal oposto", poderia concluir exatamente o contrário — que não há nenhum "nexo secreto problemático" entre metafísica e ciência, mas sim uma relação de fundamentação legítima.

Essa crítica aponta para uma possível fraqueza metodológica: o viés confirmatório que atravessa a "arqueologia" proposta por Agamben. O autor não estaria tanto "descobrindo" uma aporia na tradição, mas "projetando" sua própria aporia sobre a tradição.

Crítica 3: A Solução como Renúncia?

Agamben conclui o livro sugerindo que a filosofia deveria abandonar sua pretensão de primazia e se fazer "última" — não no sentido temporal, mas no sentido de expor-se cada vez diante do "animal metafísico" que é o ser humano. A passagem final, que invoca Nietzsche ("a metafísica é uma quixotice"), parece sugerir que a própria busca por fundamentos seria uma ilusão.

A crítica que se pode fazer é que essa "solução" é, na verdade, uma forma elegante de renúncia. Se a filosofia não pode fundamentar a unidade do saber nem reivindicar um objeto próprio, o que a distingue de uma conversa literária ou de uma prática qualquer? O próprio Agamben parece oscilar entre um diagnóstico lúcido da crise da metafísica e uma nostalgia velada por um pensamento que não se reduz à ciência — mas sem oferecer um caminho positivo para além dessa dualidade.

Crítica 4: Ausência de Diálogo com Ciências Contemporâneas

Embora o subtítulo prometa uma discussão sobre o saber ocidental "entre a metafísica e as ciências", o livro é quase inteiramente dedicado à história da filosofia. A física contemporânea (especialmente a mecânica quântica e a cosmologia) colocou questões profundas sobre a natureza da realidade, o estatuto do objeto e os limites da representação — questões que dialogam diretamente com o tema de Agamben. A ausência de qualquer engajamento substantivo com essas ciências deixa a impressão de que o diagnóstico sobre a "subserviência" da filosofia às ciências é feito de fora, sem que se enfrente o desafio real que as ciências contemporâneas representam para o pensamento filosófico.

Considerações Finais 

First Philosophy Last Philosophy é um livro que se inscreve na melhor tradição do pensamento de Agamben: erudição impressionante, precisão filológica, capacidade de conectar momentos distantes da tradição filosófica em uma narrativa coerente e um diagnóstico cultural de amplo espectro. No entanto, o livro também exibe as fraquezas recorrentes de seu autor: uma tendência a forçar leituras em direção a uma tese predefinida, um pessimismo que por vezes beira a paralisia teórica e uma dificuldade em traduzir a crítica em proposta construtiva.

Como observa um leitor na Amazon, a obra é uma "adição fantástica" aos projetos de longa data de Agamben, especialmente para aqueles interessados em conceitos como "fundamento sem fundamento" (anarchic arche) e a "fratura da presença." Para estudiosos da filosofia continental, especialmente aqueles engajados com Heidegger, Foucault e Deleuze, o livro oferece um mapa provocativo das aporias que atravessam a tradição metafísica. 

No entanto, para aqueles que buscam uma defesa robusta da autonomia da filosofia frente às ciências — ou, inversamente, uma integração produtiva entre ambas — o livro pode deixar uma sensação de insatisfação. Afinal, se a metafísica é mesmo uma "quixotice", o que resta para a filosofia fazer? A resposta de Agamben — pensar a "coisa unicamente no meio de sua abertura" — é poeticamente sugestiva, mas filosoficamente frustrante em sua indeterminação. 

O mérito indiscutível do livro, contudo, é recolocar com urgência a pergunta que a filosofia contemporânea muitas vezes prefere evitar: qual é, afinal, o lugar do pensamento filosófico em um mundo dominado por saberes técnico-científicos? Que Agamben não ofereça uma resposta consoladora talvez seja, ele mesmo, um diagnóstico — e um sintoma — da condição que ele descreve. 

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