A narrativa de sucesso construída em torno de políticas públicas no Brasil frequentemente se baseia em indicadores isolados que, quando confrontados com a realidade mais ampla, revelam uma profunda desconexão entre a propaganda oficial e os resultados efetivos. Este fenômeno, que consiste em celebrar casos de sucesso de uma minoria enquanto se negligencia a situação da maioria da população, permite que governos gastem bilhões em publicidade para construir uma imagem de eficiência, mascarando o fracasso estrutural de suas políticas. O caso do Ceará, com seu emblemático Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), é talvez o exemplo mais contundente dessa prática no campo educacional.
A Dupla Face da Educação Cearense
Enquanto o governo do Ceará e o governo federal celebram o estado como um "case de sucesso" na alfabetização, os dados mais recentes do IBGE pintam um retrato bem diferente. O Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), criado em 2007 e que serviu de inspiração para o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada do governo federal, é apresentado como um modelo a ser seguido. O governador Elmano de Freitas comemora que o Ceará alcançou 85,3% de crianças alfabetizadas na idade certa até o final do 2º ano do ensino fundamental em 2024, consolidando-se como o melhor índice do Brasil. Esta é a métrica que alimenta a publicidade e justifica o investimento de mais de R$ 2 bilhões do governo federal inspirado no modelo cearense.
Contudo, ao ampliarmos o foco para a população total, o cenário se inverte drasticamente. Em 2025, o Ceará figurava como o quarto estado com a maior taxa de analfabetismo do Brasil, com 11,7% de sua população com mais de 15 anos incapaz de ler e escrever um bilhete simples. Isso representa cerca de 867 mil cearenses excluídos do acesso básico à leitura e à escrita. A disparidade é ainda mais gritante quando se observa a distribuição regional: enquanto estados do Sul e Sudeste, como o Rio Grande do Sul (2,2%) e São Paulo (1,9%), apresentam taxas ínfimas, o Nordeste como um todo concentra 57,4% dos 8,4 milhões de analfabetos do país. A taxa nacional de 4,9%, embora seja a menor da série histórica, ainda esconde abismos regionais que são convenientemente ignorados na propaganda oficial.
O Abandono Escolar e a Falácia do Acesso Universal
A mesma lógica se repete quando analisamos o acesso e a permanência no ensino médio. O governo do Ceará divulga com entusiasmo a redução pela metade da taxa de abandono escolar, que caiu de 3% em 2022 para 1,5% em 2025. Mais uma vez, um indicador positivo é usado para construir uma narrativa de sucesso. No entanto, este dado isolado não reflete a realidade de milhões de jovens que, embora tecnicamente não tenham "abandonado" a escola, estão em situação de defasagem idade-série ou concluem o ensino médio sem a proficiência necessária.
A imagem fornecida pelo usuário, que mostra as taxas de rendimento e abandono, sugere que a problemática do acesso e da conclusão do ensino médio é complexa e varia significativamente entre as regiões. O foco em um único indicador de "abandono" serve para desviar a atenção de problemas mais profundos, como a qualidade do ensino oferecido e a evasão silenciosa de alunos que, embora matriculados, não aprendem. Esta é uma estratégia comum: comemora-se a queda na evasão como se ela, por si só, garantisse o direito à educação, quando, na verdade, o que se vê é a perpetuação de um sistema que exclui qualitativamente a maioria.
A Cortina de Fumaça da Publicidade Bilionária
A estratégia de construir "falsos casos de sucesso" não se sustenta apenas com dados manipulados; ela é impulsionada por um gigantesco aparato de propaganda. O governo federal, sob a gestão do presidente Lula, planejou gastar até R$ 3,5 bilhões em contratos de publicidade em 2025, com o objetivo explícito de divulgar programas que possam ser "emplacados como marcas do terceiro mandato". Este montante é utilizado para veicular uma imagem de eficiência e progresso que os dados objetivos, como os do IBGE, contradizem frontalmente.
A publicidade, neste contexto, deixa de ser um instrumento de transparência e prestação de contas para se tornar uma ferramenta de manipulação. Ao celebrar os 85,3% de alfabetização na idade certa no Ceará, o governo omite que este índice se refere apenas a uma parcela específica da população (crianças até o 2º ano do fundamental) e ignora os 11,7% de analfabetos funcionais ou absolutos na população adulta. Gasta-se bilhões para que a população acredite que o problema da educação está sendo resolvido, enquanto 8,4 milhões de brasileiros seguem à margem da sociedade letrada.
Conclusão: O Espetáculo da Ilusão
O caso do Ceará é a personificação de uma prática perversa na gestão pública: a criação de uma realidade paralela, onde índices específicos e bem-sucedidos são usados como escudo para esconder o fracasso generalizado. O Programa Alfabetização na Idade Certa, ao focar em uma métrica restrita, consegue construir uma imagem de excelência que não se sustenta quando se observa o analfabetismo na população como um todo. A publicidade bilionária, então, entra em cena para consolidar essa ilusão, transformando exceções em regra e convencendo a sociedade de que o acesso à educação é uma realidade para todos.
Esta é a grande falácia: gasta-se uma fortuna para fazer parecer que se está resolvendo o problema, enquanto a maioria da população continua excluída. O direito à educação, garantido pela Constituição, é transformado em um espetáculo midiático, onde o que importa não é a efetividade da política, mas a imagem de sucesso que ela projeta. Enquanto essa lógica prevalecer, o Brasil continuará a comemorar vitórias menores enquanto perde a batalha mais importante: a de garantir uma educação verdadeiramente universal e de qualidade para todos os seus cidadãos.
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