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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Cartografias do dissenso: territorialidade, cultura e autonomia no pensamento crítico contemporâneo




A cartografia — tradicionalmente associada à ciência da representação objetiva do espaço — tem sido, nas últimas décadas, profundamente reconfigurada por um pensamento crítico que a reconhece como prática política, estética e cultural. Longe de ser um mero registro técnico do território, o ato de cartografar emerge como um dispositivo de poder, mas também como uma ferramenta de resistência e de reinvenção da própria noção de lugar. É nesse horizonte que se encontram as reflexões de Homi K. Bhabha em O Local da Cultura e o programa das cartografias críticas formulado por David Sperling em seus Ensaios Tecnopolíticos e Geopoéticos — dois pensamentos que, embora provenham de tradições disciplinares distintas, convergem para uma mesma inquietação: como pensar o território, a cultura e a autonomia para além das narrativas hegemônicas que os fixam e os controlam?

O "entre-lugar" da cultura e a desestabilização do território

Homi Bhabha, ao deslocar o título de sua obra de O Local da Cultura para Os Locais da Cultura, opera uma virada fundamental: a cultura não habita um lugar fixo, mas se produz nos interstícios, nas margens, nos "entre-lugares" da enunciação. Para o autor, a diferença cultural não é um dado empírico da diversidade — algo que se observa e se classifica —, mas um processo de significação que "discrimina e autoriza a produção de campos de força, referência, aplicabilidade e capacidade". Em outras palavras, a cultura é sempre um território em disputa, um campo de tensão onde identidades se formam e se desfazem no próprio ato de sua enunciação.

Esse pensamento tem implicações profundas para a compreensão do território. Se a cultura não é um atributo estável de um povo ou de uma nação, o território tampouco pode ser pensado como uma superfície homogênea e mensurável. Bhabha nos convoca a abandonar "a lógica dos binarismos" — dentro/fora, incluído/excluído, centro/periferia — para pensar o espaço cultural como um "espaço-cisão da enunciação", um "lugar indeterminado dos sujeitos da enunciação". É essa indeterminação que torna o território vivo, múltiplo, sujeito a apropriações e re significações constantes.

Cartografias críticas: tecnopolítica e geopoética

David Sperling, em Cartografias Críticas: ensaios tecnopolíticos e geopoéticos, parte da hipótese da existência de um "campo ampliado das cartografias" que se delineia na confluência entre a virada espacial nos estudos sociais, a pervasividade das tecnologias de geolocalização e o acionamento de práticas cartográficas em diversos campos do saber. Sua obra propõe uma reflexão sobre as "dimensões tecnopolíticas e geopoéticas do mapeamento contemporâneo", colocando em questão os regimes de visibilidade dominantes e reivindicando a atenção para um conjunto heterogêneo de "práticas críticas e dissidentes como figurações imaginativas de novas territorialidades".

O que Sperling designa como tecnopolítico aponta para o fato de que as tecnologias de mapeamento não são instrumentos neutros: elas atualizam, em escala global, "lógicas de mapeamento dos corpos e dos comportamentos como exercício do poder". Nesse sentido, cartografar é sempre um ato de governo, de ordenamento, de vigilância. Mas é também, e sobretudo, um campo de resistência: "Quais formas de resistência as práticas cartográficas vêm produzindo em um mundo onde os corpos e as condutas são mapeados como exercício de poder?".

Já a dimensão geopoética — que Sperling aproxima do campo das cartografias ao demarcar "conceitualmente um modo de ser das cartografias críticas como geopoéticas de espacialização" — aponta para a potência criadora do ato de cartografar. O mapa não é apenas um instrumento de conhecimento ou de poder; é também uma poiesis, uma produção de mundos. As cartografias críticas, nessa perspectiva, não se limitam a denunciar as distorções da cartografia oficial, mas inventam novas formas de habitar, narrar e disputar o espaço.

Saberes subalternos e autonomia territorial

Essa dupla aposta — crítica do poder e invenção de mundos — encontra eco no projeto decolonial formulado por Walter Mignolo em Histórias Locais / Projetos Globais: Colonialidade, Saberes Subalternos e Pensamento Liminar, constitui um marco fundamental para a compreensão da relação entre cartografia, colonialidade e subalternidade. Mignolo focaliza a "subalternização de saberes desqualificados pelos processos de colonização", mostrando como a cartografia moderna — com sua pretensão de universalidade e objetividade — foi um dos instrumentos centrais da empresa colonial, ao impor uma grade de leitura do espaço que apagava as territorialidades indígenas, as cosmologias locais e as formas de habitar o mundo que escapavam à lógica do Estado-nação.

As cartografias subalternas, por sua vez, emergem como respostas a essa violência epistêmica. "Quando as comunidades pensam em fazer sua própria cartografia, elas não estão pretendendo simplesmente retratar o espaço físico, mas afirmar seus modos de vida". Trata-se, portanto, de uma autonomia territorial que não se reduz à autodeterminação política no sentido estrito, mas implica a capacidade de produzir conhecimento sobre o próprio espaço, de definir as fronteiras simbólicas e materiais da existência comunitária, de reivindicar uma agência cartográfica. As cartografias sociais, usadas "como dispositivos de luta, resistência e memória por diversas comunidades, sejam elas indígenas, quilombolas ou periféricas", encarnam essa luta por autonomia.

Barcelona e outras experiências: a cidade como território de disputa cartográfica

A cidade de Barcelona oferece um exemplo particularmente fértil dessas práticas. Nas últimas décadas, a cidade tem sido palco de uma intensa produção de cartografias críticas que articulam arte, ativismo e geografia. O trabalho do artista Rogelio López Cuenca, por exemplo, inscreve-se nessa tradição ao submeter a memória urbana e a história oficial a uma reescrita cartográfica. Seus projetos deslocam os marcos da cidade, revelam camadas de significado soterradas pelo discurso hegemônico e convidam o espectador a habitar a cidade de outro modo.

Mais amplamente, Barcelona tem sido um laboratório de cartografías críticas de la ciudad, nas quais "a participação de artistas politicamente comprometidos tem sido a vanguarda do desenvolvimento de uma nova cartografia crítica urbana muito sugestiva". Essas práticas se caracterizam pelo "caráter transversal do mapa, que alenta o diálogo entre diferentes especialistas" — arquitetos, geógrafos, artistas, ativistas, moradores — e pela aposta em uma cartografia que não se limita a representar a cidade, mas a produz como espaço de encontro, conflito e criação.

Para além de Barcelona, experiências semelhantes multiplicam-se pelo mundo. O coletivo argentino Iconoclasistas, mencionado por Sperling, e o grupo mexicano Geocomunes são exemplos de práticas de contracartografia que operam na interseção entre tecnopolítica, arte e ativismo territorial. O Mapa de Alternativas a las Megainfraestructuras e os projetos de mapeamento participativo na periferia de São Paulo demonstram que a cartografia crítica é um fenômeno global, ainda que enraizado em lutas locais.

Conclusão: cartografar como ato de liberdade

O que articula essas reflexões — Bhabha, Sperling, Mignolo, as experiências de Barcelona e de outros territórios — é a compreensão de que o mapa não é um espelho do mundo, mas uma enunciação do mundo. Cartografar é sempre um ato político, cultural e poético: político porque define o que é visível e dizível sobre o espaço; cultural porque mobiliza saberes, memórias e identidades; poético porque inventa novas formas de relação com o território.

A autonomia territorial, nesse quadro, não é um dado a ser conquistado de uma vez por todas, mas um processo contínuo de reivindicação da capacidade de narrar o próprio espaço. E a cultura, como nos ensina Bhabha, é o campo movediço onde essa narrativa se produz — não como identidade fixa, mas como diferença em ato, como "entre-lugar" que desestabiliza todas as fronteiras. As cartografias críticas, em sua dupla dimensão tecnopolítica e geopoética, são os instrumentos privilegiados dessa luta: ferramentas para desmontar os mapas do poder e, ao mesmo tempo, para desenhar os mundos possíveis que emergem de suas fissuras.

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