SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 28 de junho de 2026

As graduações precisam se tornar cada vez mais multidisciplinares.


 A The Economist publicou em 24 de junho a reportagem "Computo, ergo sum". Ela mostra os grandes laboratórios de IA contratando filósofos em ritmo acelerado. Luciano Floridi, da Yale University, descreve a saída de pesquisadores dos departamentos de filosofia como uma "hemorragia". Muitos recebem oferta antes de se formar.


Aliás, acompanho Floridi há tempos. É dele o conceito de reontologização: a tecnologia não muda apenas o que fazemos com o mundo, refaz a própria natureza do ambiente que habitamos.

A abertura desfaz um conselho repetido por uma década. Em 2024, 7% dos formados em ciência da computação estavam desempregados, contra 5,1% dos formados em filosofia, segundo o Federal Reserve Bank of New York. Ao meu ver, pensando no futuro do trabalho, um filósofo que domina IA, ou um engenheiro que dialoga com a filosofia, terá muita empregabilidade.

A filosofia entra por razão técnica. O método socrático, treinado nos modelos, reduz a bajulação. A "ignorância socrática", reconhecer o que não se sabe, limita o excesso de confiança. Iason Gabriel, do Google DeepMind, atribui a esse trabalho a queda nas alucinações.

A disputa mais densa está nas constituições dos modelos. A Anthropic estrutura seus modelos Claude em torno de princípios que vão de Kant à Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por trás disso há uma escolha que costuma ficar invisível. Claude carrega restrições deontológicas, regras rígidas contra mentir ou instrumentalizar pessoas. ChatGPT e Gemini se aproximam do consequencialismo, que pesa custos e benefícios. A mesma lógica decide como um carro autônomo reage a um acidente inevitável. Se a reportagem estiver certa, veja como, em poucas palavras, a filosofia nos ajuda a compreender melhor os modelos.

A reportagem fecha com a "desqualificação moral". Se as máquinas passam a decidir questões éticas, as pessoas podem perder a disposição de fazer os próprios juízos. Delegar o juízo é uma forma de experiência mediada que substitui a vivida. Roman Yampolskiy, da University of Louisville, lembra que a moral é "legível apenas em retrospecto", o que fragiliza qualquer ética fixada de antemão num modelo.

Decidir qual filosofia entra no código é decidir que tipo de convivência se quer sustentar fora dele. Afinal, qual a ética que a máquina automatiza⁉️

Há uma convicção que tenho amadurecido. As graduações precisam se tornar cada vez mais multidisciplinares. O desafio contemporâneo da IA faz com que nossa formação não caiba num só departamento, e a formação em silos prepara para um mundo que já não existe. A universidade precisa ser repensada com urgência. 

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