SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A universidade que o Brasil não teve por três séculos


 A universidade que o Brasil não teve por três séculos


Em 1551, o México e o Peru já tinham universidades reconhecidas pela Coroa Espanhola. O Brasil só foi ter a sua em 1920. São quase quatro séculos de diferença. Isso não foi falta de gente, nem de território. Foi uma escolha deliberada, com consequências que chegam até hoje e que explicam parte do atraso educacional do país.

Enquanto a Espanha fundava dezenas de instituições de ensino superior por toda a América desde o século XVI, Portugal proibia a criação de universidades no Brasil. A lógica era clara: uma elite intelectual local produz conhecimento, fortalece movimentos políticos e ameaça o controle da metrópole sobre a colônia. Por mais de três séculos, quem quisesse cursar o ensino superior tinha dois caminhos: cruzar o Atlântico rumo a Coimbra, se tivesse dinheiro suficiente, ou ficar sem acesso a qualquer formação universitária no país onde nasceu.

O atraso colonial deixou herança concreta. Cerca de 23% dos brasileiros entre 25 e 34 anos têm diploma universitário. A média dos países da OCDE supera 47%. O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto a média dos membros da OCDE passa de 2,7%. O país responde por cerca de 2,5% da produção científica mundial, mas enfrenta dificuldade histórica para transformar pesquisa em inovação acessível à sociedade e ao setor produtivo.

Uma correção importante sobre esse tema circula nas redes sociais. A afirmação de que "em 1808 foi fundada a primeira universidade no Brasil" não é precisa. O que surgiu em 1808 foram escolas superiores isoladas, criadas logo após a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro, como as faculdades de Medicina da Bahia e do Rio. A primeira universidade brasileira oficialmente reconhecida veio em 1920, com a Universidade do Rio de Janeiro, formada pela reunião de faculdades já existentes. Essa distinção importa. Erros repetidos viram mito e distorcem o debate público.

Seria impreciso atribuir o atraso educacional do Brasil exclusivamente à ausência de universidades no período colonial. A escravidão durou mais de trezentos anos. A alfabetização universal demorou a se consolidar. O investimento em educação básica ficou abaixo das necessidades por décadas. A desigualdade social bloqueou o acesso ao ensino formal para a maioria da população. Políticas educacionais mudaram de direção a cada governo, sem continuidade de longo prazo.

Ignorar a escolha deliberada de Portugal, porém, seria fechar os olhos para um ponto central da formação do país. Países que investem cedo na formação de professores, pesquisadores e profissionais qualificados acumulam vantagem por gerações. Portugal fez a escolha oposta para sua maior colônia, e essa decisão atravessou séculos com impacto direto sobre a capacidade brasileira de produzir ciência, tecnologia e desenvolvimento.

Séculos depois, o Brasil ainda paga parte dessa conta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário